Tuberculose: mais uma alarmante consequência das mudanças climáticas, informa Medscape

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A previsão, obtida por meio de modelos matemáticos, foi publicada no periódico BMJ Global Health e é um alerta: a região precisa voltar sua atenção aos fatores estruturais que favorecem a transmissão de doenças e são agravados pelas mudanças climáticas.

“Tenho interesse nos determinantes sociais da tuberculose e nas desigualdades em saúde. Áreas como favelas urbanas e assentamentos informais superlotados têm cerca de três vezes mais probabilidade de apresentar a doença, e espera-se que as mudanças climáticas agravem esse problema”, disse a Dra. Lara Goscé, PhD, especialista em modelagem matemática e professora da London School of Hygiene & Tropical Medicine (LSHTM) e da University College London (UCL), no Reino Unido, ao Medscape. Ela integrou a equipe do estudo que projeta esse cenário preocupante para a região.

Para chegar ao valor previsto, a pesquisa considerou estimativas recentes de migração em quatro cidades brasileiras (Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Curitiba) e duas colombianas (Bogotá e Medellín). O modelo incorporou a carga atual de tuberculose nesses locais e considerou o impacto das más condições de vida, projetando o cenário até 2050. A análise foi feita com base em um cenário de mudanças climáticas moderadas, sem adotar as previsões mais extremas.

O resultado obtido pode ser considerado um ponto de partida. O grupo da Dra. Lara planeja aprofundar as análises para compreender melhor como a migração climática influenciará a epidemia de tuberculose no Brasil, onde já estudaram o papel das condições prisionais na epidemiologia da tuberculose.

“Usamos modelos matemáticos para estimar o impacto epidemiológico e econômico de intervenções específicas, visando embasar a formulação de políticas públicas”, explicou.

A tuberculose é um reflexo de profundas desigualdades estruturais

O Dr. Luis Ángel Ortíz, médico e secretário técnico do Observatório Social da Tuberculose no México, que não participou do estudo, lamentou a ausência da Cidade do México, Tijuana e Acapulco entre as cidades analisadas. Ainda assim, considerou o artigo “extremamente interessante”.

“Sem dúvida, trata-se de uma contribuição valiosa e oportuna para entender como a crise climática está de alguma forma remodelando os determinantes sociais da tuberculose”, declarou, destacando que o estudo reforça o que o Observatório Social da Tuberculose do México tem enfatizado: a tuberculose não é apenas uma doença infecciosa, mas um reflexo de profundas desigualdades estruturais.

“Situações que perpetuam a transmissão, como pobreza, insegurança alimentar, falta de moradia adequada, estigma e discriminação, aumentam a suscetibilidade à tuberculose e dificultam a adesão ao tratamento”, enfatizou.

Segundo ele, a associação entre deslocamento climático, pobreza urbana e aumento de casos de tuberculose é altamente relevante para o México, onde fenômenos como secas prolongadas, furacões em cidades costeiras e desertificação já impulsionam a migração interna para centros urbanos superlotados.

Como exemplo, citou a cidade de Acapulco, recentemente atingida por furacões devastadores e com estatísticas crescentes que a colocam entre as cidades do país com os maiores índices de tuberculose.

O Dr. Luis ainda destacou: “Pelo menos no México, as diretrizes do Programa Nacional de Tuberculose ainda não abordam diretamente o impacto das mudanças climáticas na transmissão da doença”. E acrescentou: “Nessas condições, os assentamentos informais continuam a crescer sem planejamento e sem serviços básicos, o que leva ao aumento da transmissão da tuberculose”.

Agir agora para acabar com a tuberculose

Até 2050, estima-se que os migrantes por motivos climáticos representarão entre 10% e 43% da população migrante total nos principais centros urbanos da América Latina, e mais da metade serão pessoas deslocadas internamente — aqueles que não cruzam fronteiras entre países, mas são forçados a deixar suas casas em resposta a riscos ambientais extremos ou conflitos resultantes da crise climática.

“Não há dúvida de que haverá um aumento no deslocamento interno devido a eventos climáticos extremos, gerando o crescimento de assentamentos urbanos informais, o que sobrecarregará os sistemas de saúde e, possivelmente, os programas estaduais de controle da tuberculose”, alertou o Dr. Luis.

Por isso, o médico defendeu a incorporação das mudanças climáticas nas estratégias de enfrentamento da tuberculose na região.

Ele também destacou que “a tuberculose é uma doença biopsicossocial que afeta as populações mais vulneráveis e, se não for abordada com uma estratégia centrada na pessoa, a transmissão persistirá”.

“São necessárias políticas de adaptação climática com foco nas pessoas, alinhadas à iniciativa One Health. Além disso, é essencial adaptar os serviços de saúde — já inadequados — e coordenar ações intersetoriais entre setor acadêmico, governo, sociedade civil e indivíduos impactados para garantir acesso universal aos cuidados”, acrescentou.

No artigo, os autores enfatizaram que não há tempo a perder e pediram a elaboração de políticas na América Latina que abordem as consequências sociais e de saúde da crise climática, mitiguem os deslocamentos, melhorem as condições de vida das pessoas e aumentem a vigilância epidemiológica da tuberculose. “É muito importante agir agora”, concluiu a Dra. Lara.

Todos os membros da equipe de autores, a Dra. Lara Goscé, Ph. D., e o Dr. Luis Ángel Ortíz informaram não ter conflitos de interesses.

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