Trinta anos de arte, 40 anos de aids: a costura política de Adriana Bertini

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A artista que transformou preservativos em linguagem global, atravessou museus, territórios e conferências internacionais, e hoje celebra três décadas de arte e ativismo na memória viva dos 40 anos da resposta ao HIV e à aids.

Ao completar trinta anos de uma trajetória que nasceu da urgência de viver, criar e resistir, a artista visual e ativista brasileira Adriana Bertini celebra 2025 ocupando simultaneamente exposições, performances, museus, universidades e espaços de memória no Brasil e no exterior, justamente no ano em que o país marca 40 anos da resposta nacional ao HIV e à aids. Sua obra, que começou no Brasil dos anos 1990 entre oficinas comunitárias, movimentos sociais e debates urgentes sobre sexualidade, meio ambiente e direitos humanos, hoje integra os acervos permanentes de 25 museus no mundo, da América Latina à Europa, dos Estados Unidos à Ásia, e se tornou referência global como uma das pesquisas mais consistentes de artivismo em saúde pública, meio ambiente e direitos humanos.

Ao transformar preservativos vencidos, materiais descartados da saúde e resíduos farmacêuticos em moda, instalação e narrativa visual, Bertini inaugurou uma estética e uma linguagem que ecoou muito além da arte. Seu trabalho se tornou ferramenta educativa, social e política; virou prática pedagógica em territórios diversos; virou metodologia de oficinas para populações-chave; virou dispositivo de diálogo com jovens, profissionais de saúde, comunidades LGBTQIAPN+, mulheres cis e trans, populações ribeirinhas, quilombolas e indígenas. É arte que nasce do chão da vida, mas também arte que chega às instituições mais prestigiadas.

Durante sua carreira, Adriana se tornou também educadora comunitária internacional, convidada para ministrar oficinas e programas formativos em instituições como UCLA (University of California – Los Angeles), Brooklyn College, Arkansas University, Rochester University entre outras, sempre articulando arte, meio ambiente, sexualidade, prevenção combinada e equidade. Sua metodologia, profundamente transdisciplinar, tem como eixo o encontro entre estética, saúde e território, resgatando uma perspectiva que entende que educação para a prevenção não é um conteúdo, mas uma prática viva, sensível e coletiva.

Como ativista, Adriana atuou de maneira intensa em âmbito internacional. Sua participação como porta-voz na Anistia Internacional, em Bruxelas, fortaleceu agendas globais de direitos humanos, juventudes e acesso à prevenção, ampliando seu papel como comunicadora e articuladora política em redes que cruzam arte, saúde e justiça climática. Essa dimensão internacional se conecta diretamente com sua trajetória histórica, que começa ainda com a força inspiradora da ECO-92, no Rio de Janeiro, onde a jovem ativista se reconhece pela primeira vez parte de uma luta global pela vida e pela saúde do planeta. Da ECO-92 à COP30, em Belém, em 2025, Bertini construiu uma linha contínua de presença, pesquisa e militância. Em Belém, recém-saída da experiência potente das discussões climáticas, participou de debates e atividades sobre sexo, clima, prevenção ao HIV e ISTs, saúde sexual, planejamento familiar e justiça ambiental, reafirmando sua perspectiva de que saúde sexual e meio ambiente são dimensões interdependentes. Como ela mesma defende, “prevenir HIV não é só prevenir HIV”: é promover uma visão integral de saúde, que envolve direitos sexuais e reprodutivos, acesso à informação, autonomia dos corpos, políticas públicas baseadas em equidade, proteção climática, mobilidade, segurança territorial e cuidado com populações-chave.

Vestido do Acervo do Museum of Sex NYC

Sua presença simultânea em 2025 ilustra a amplitude dessa trajetória. Em Nova Iorque, no Museum of Sex, está em exibição permanente seu icônico vestido feito com 1.200 preservativos tingidos à mão, inspirado em Valentino, uma peça que há anos impacta o público internacional por sua força estética e política. Em Brasília, participa da grande exposição “40 anos da resposta brasileira à aids”, promovida pelo Ministério da Saúde/DATHI com apoio do Pela Vidda São Paulo, Fiocruz e Unaids, contribuindo com obras que integram memória, história e futuro da resposta ao HIV no país.

Em São Paulo, a artista desenvolve uma das ações mais emblemáticas do Dezembro Vermelho de 2025: no Sesc Carmo, apresenta uma performance pública inédita na Praça da Sé, com quatro mulheres vivendo com HIV e aids, entre elas Jenice Pizão, Carolina Iara, Lua Mansano e Silvia Almeida, vestindo criações que unem moda ativista, corpo-território e memória coletiva. A ação desloca a discussão sobre HIV para o centro da cidade, para pulsar ao ar livre, entre fluxos, passagens, vidas, enfrentando o estigma com presença e arte. Ainda em São Paulo, Adriana possui uma obra permanente no acervo do Museu da Diversidade Sexual, uma releitura contemporânea do icônico vestido de Lili Elbe, a “Garota Dinamarquesa”. A peça recria, por meio de preservativos, a potência simbólica dessa figura histórica, retratando o feminino e o masculino como territórios políticos, corpos em disputa e espaços de afirmação. A obra integra a programação permanente do museu e reafirma o compromisso da artista com a história trans, a diversidade e o direito pleno de existir.

Vestido em Los Angeles

Ao mesmo tempo, retorna à UCLA, em Los Angeles, em atividades que unem juventude, arte, prevenção, saúde sexual, meio ambiente e justiça climática, consolidando seu papel como criadora de pontes entre academia, território e comunidades. É uma artista que transita com naturalidade entre centros comunitários e universidades internacionais, entre ruas e museus, entre conferências globais e oficinas de base, sempre costurando práticas de afeto, denúncia, política e transformação.

Toda essa jornada é celebrada agora, quando o mundo olha para as quatro décadas da epidemia de HIV e aids. Para além dos marcos institucionais, a presença de Adriana Bertini nas comemorações dos 40 anos da aids é, também, o reconhecimento de uma vida inteira dedicada a construir novas formas de imaginar a prevenção, saúde pública, educação sexual e justiça ambiental. Ao celebrar seus 30 anos de obra justamente neste momento histórico, ela se inscreve de forma definitiva na memória dessa luta global, como artista, como educadora, como ativista e como ponte entre mundos.

E é exatamente isso: três décadas de arte e dedicação transformando o impossível em linguagem, e linguagem em vida.

Vestido no acervo do Museu da Diversidade

Para além da produção artística, Adriana afirma seu compromisso diário com o ativismo político e social, utilizando sua voz para denunciar a crise global e nacional de financiamento em HIV/aids. A artista tem reiterado publicamente que os recursos destinados à resposta ao HIV precisam aumentar com urgência, pois o mundo atravessa uma crise sem precedentes no financiamento da área. “A aids não acabou — mas podemos acabar com ela até 2030”, defende. Para isso, é essencial garantir investimento contínuo, fortalecimento dos serviços, políticas públicas baseadas em evidências e participação social. Seu ativismo reforça que não há futuro possível sem luta, sem resistência e sem compromisso político com as populações mais afetadas pela epidemia.

Foto das obras da exposição do Dathi sobre adesão

A trajetória

Adriana Bertini é artista visual, ativista e comunicadora com uma carreira voltada para a transformação social. Formada em Art for Social Change pela European Arts School, desenvolve projetos que integram arte, saúde pública, direitos humanos e meio ambiente. Desde os anos 1990, utiliza preservativos descartados e materiais da saúde como base para construir obras, instalações e coleções de moda ativista que dialogam com prevenção combinada, educação sexual e justiça social.

Sua trajetória inclui colaborações com organizações como Heroes Project, Richard Gere Foundation, Anistia Internacional, Mpact, AHF, Greenpeace, além de ONGs brasileiras como Gapa Santa Catarina, Gapa São Paulo, ConCidadania e diversas instituições dedicadas à defesa dos direitos humanos e da saúde pública. Atuou como diretora de projetos no Instituto Cultural Barong e como diretora de sustentabilidade no Instituto Multiverso, liderando iniciativas voltadas à promoção da saúde, enfrentamento ao estigma e fortalecimento comunitário.

Desde 1995, conduz o EcoSocial Studio, desenvolvendo ações educativas em centros comunitários, escolas, universidades e festivais culturais. Realizou oficinas e programas formativos na UCLA, no Columbia College Chicago, no Museu Mundial das Culturas (Suécia), em Barcelona e em diversas instituições acadêmicas e culturais no exterior. Sua obra integra coleções nacionais e internacionais, está presente em mais de 25 museus ao redor do mundo, foi publicada em mais de 45 livros, artigos e trabalhos acadêmicos, e se tornou referência global em artivismo, educação sexual, prevenção ao HIV/aids e design ativista.

Atualmente, Adriana Bertini é consultora de Mobilização de Recursos do Unaids Brasil, articulando parcerias estratégicas para financiamento e atuando no fortalecimento de estratégias e narrativas capazes de ampliar o enfrentamento às desigualdades, ao estigma e à discriminação, promovendo respostas mais robustas, sustentáveis e equitativas ao HIV/aids no país.

Seu trabalho articula arte, educação, ativismo e justiça ambiental para promover autonomia, direitos sociais, saúde sexual e reprodutiva, sempre com foco no fortalecimento de jovens lideranças e populações vulnerabilizadas.

Serviço:

📍 SESC Carmo
Endereço: Rua do Carmo, 147 – Centro, SP
🗓 Programação dentro do Projeto Contato
🎭 Desfile-performance em parceria com Agência de Notícias da Aids
Quando: 1º/12/2025
11h às 11h30 e 15h30 às 16h
Gratuito

📍 Museu da Diversidade Sexual
Estação República do Metrô
Entrada Gratuita
De Terça a Domingo das 10 às 18h

📍 SESI Lab
SCTS Lote 1 – Plano Piloto, Brasília – DF, 70070-150
🗓 Abertura da exposição: 1/12
🕒 Roda de conversa: 03/12, às 15h30

📍 Museum of Sex, em Manhattan
233 Fifth Avenue, esquina com a East 27th Street
🎟 Basic Ticket $36
🎫 Premium Ticket $44
🕒De Seg a Domingo das 13 às 22hs

📍Billy Wilder Theater at the Hammer Museum
UCLA Art & Global Health Center and Through Positive Eyes
10899 Wilshire Blvd, Los Angeles, CA 90024
Friday, December 5 at 7:30 PM

Dica de Entrevista:

Adriana Bertini
Instagram: @adribertini
Tel.: (11)94270-0202
E-mail: condomart@gmail.com
Site: www.adrianabertini.com

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