
Há pessoas que partem, mas seu legado permanece vivo, inspirando muitas gerações. Uma delas é Thais Azevedo, grande ativista trans brasileira, que atuou em prol dos direitos das pessoas trans e travestis e daquelas que vivem com HIV/aids. Sempre atenta e combativa contra o preconceito, seu trabalho e militância foram baseados na solidariedade, no amor e no respeito. Ela nos deixou em novembro do ano passado, mas sua luta ressoa até hoje na defesa dos direitos humanos e no combate à aids.
Thais Azevedo dedicou mais de três décadas de sua vida ao trabalho no Grupo Pela Vidda São Paulo, ONG que acolhe e presta assistência à população vivendo com HIV na capital paulista. O grupo também conta com o Centro de Referência da Diversidade (CRD), um braço da instituição.
Marcando o Dia Nacional da Visibilidade Trans, na última quarta-feira (29), foi realizado um tributo em sua memória. A iniciativa do CRT DST/Aids de SP, em parceria com o Grupo Pela Vidda SP, CRD, Coletivo Nhudes e outros aliados, foi um momento de homenagem e celebração de seus feitos.
O tributo a Thais Azevedo reuniu centenas de pessoas. Entre elas, muitas pessoas trans e travestis lotaram o auditório do Instituto Polis, no centro da cidade de São Paulo, demonstrando representatividade. A mediação do encontro ficou por conta de Paola Souza, pesquisadora e educadora comunitária da Casa da Pesquisa do CRT DST/Aids.

O evento se estendeu pela tarde, com discursos emocionantes e homenagens cheias de significado.
A antropóloga, pesquisadora e ativista Pisci Bruja destacou o impacto que Thais teve e ainda tem para outras pessoas trans. Ela também ressaltou como Thais sensibilizou e ampliou as visões de muitas pessoas, propondo o ativismo como ferramenta para construir espaços de acolhimento e respeito. Pisci ainda comentou sobre o contexto de resistência em que Thais viveu.
Thais de Azevedo nasceu em 1949, na cidade de Várzea da Palma, no interior de Minas Gerais, e, aos 13 anos, mudou-se para o Rio de Janeiro para continuar os estudos. Foi nessa cidade e em Niterói que teve a oportunidade de vivenciar a descoberta de seu gênero e sexualidade. Ela presenciou de perto as violências da Ditadura Civil-Militar no Brasil e as crueldades contra pessoas trans e travestis naquele período. Destacou-se entre as dissidências de gênero e sexualidade e chegou a viver fora do país, mas retornou ao Brasil para se dedicar à militância dentro do movimento LGBTQIA+ e à luta pelos direitos das pessoas trans. Em seu trabalho, subverteu diversos espaços conservadores que, por muito tempo, não compreendiam sua identidade de gênero.
Pisci frisou a potência de Thais como uma mulher trans vivendo com HIV, que teve a possibilidade de alcançar a velhice – uma conquista rara para pessoas trans.
Ela foi lembrada com carinho e gratidão. “Thais não precisa voltar para cá, mas voltou e construiu uma rede de cuidados, naquela época, com pessoas adoecidas pelo HIV/aids”, mencionou Pisci.

“Thais é uma grande referência para pensarmos em cuidado. E não só individual, mas coletivo. Ela abriu caminhos para refletirmos sobre como reagir de maneira conjunta”, acrescentou.
Com orgulho, Pisci declarou: “Ela me fez ver que existia possibilidade de viver, enquanto travesti e vivendo com HIV.”
A assistente social Raphaela Fini também falou com emoção sobre o legado de Thais e compartilhou sua vivência pessoal de amizade com a ativista. “Eu conheci a Thais há muitos anos, e foi muito emocionante. Ela conseguia conciliar a visão material com a espiritual. Muitos focam apenas no material e esquecem do espiritual, e vice-versa. Mas Thais equilibrava ambas brilhantemente, sem deixar uma de lado”, afirmou. E continuou: “Ela nos dava bronca quando necessário, mas sempre com empatia, afeto e trazendo possibilidades. Nos alertava quando estávamos apenas reclamando e nos incentivava à luta, sempre com muita sensibilidade.”
Em um apelo emocionante, que fez com que fosse aplaudida por todos, Raphaela pediu que a comunidade trans e travesti deixasse de lado rivalidades internas e se unisse por objetivos comuns. “Só venceremos a violência, a opressão, a humilhação e a exclusão se nos reconhecermos como uma comunidade. Precisamos parar de nos dividir por diferenças superficiais. A sociedade não quer saber se temos cabelo ou não, se temos silicone ou não, se somos femininas ou não. A sociedade nos mata de qualquer jeito”, disse, destacando que Thais combatia exatamente esse tipo de segregação.

“Ela nos ensinou a ver as diferenças como parte de um coletivo que precisa se fortalecer. Thais marcou profundamente todos que cruzaram seu caminho. Quem a conheceu foi tocado por sua presença e luta.”
No combate ao HIV/aids, os impactos de sua trajetória foram imensuráveis. Em relação às políticas públicas e aos esforços para melhorar a qualidade de vida da população vivendo com HIV, Thais trabalhou incansavelmente.
Pedro, voluntário da ONG Pela Vidda São Paulo, que teve a oportunidade de trabalhar com Thais, comentou: “Hoje estamos aqui para celebrar sua história e memória, mas também sua luta, que nos inspira a continuar nosso engajamento.”
Ele lembrou ainda da importância do CRD: “A Thais realizava reuniões de acolhimento, sempre atendia as pessoas com carinho, dava aulas de francês, ajudava no movimento de aids… Teve um papel fundamental para que o CRD seja o que é hoje.”
Sobre espiritualidade, a pastora Jaqueline Channel mencionou como Thais Azevedo foi importante em sua história pessoal e como a ajudou no caminho que resultou na criação da primeira igreja evangélica trans do Brasil. Ao falar sobre a importância da luta pelo direito da população trans e travesti de viver sua fé plenamente, Jaqueline enfatizou: “Thais foi essencial nesse caminho.”

Tânia Regina Corrêa, interlocutora da Rede Sampa Trans, também falou sobre a influência de Thais na construção de políticas públicas voltadas para a população trans e travesti.
Segundo Tânia, a Secretaria Municipal da Saúde (SMS) oferece diversos serviços especializados para a comunidade LGBTQIA+, organizados para atender às suas reais necessidades. Atualmente, a Rede Sampa Trans está presente em mais de 43 unidades de saúde em São Paulo.
“Se hoje temos no município uma linha de cuidado específica para pessoas trans e travestis, isso se deve muito à luta da Thais”, afirmou.
O ativista e coordenador do Grupo Pela Vidda e Mopaids, Eduardo Barbosa, reforçou a importância de manter vivo o legado de Thais e destacou a crescente onda de ataques à comunidade LGBTQIA+, especialmente à comunidade trans. “Estamos vendo uma onda internacional de ataques aos nossos direitos. Precisamos fortalecer nossas lideranças contra essas violações”, alertou.
O evento foi encerrado com a exibição de um documentário sobre a vida e trajetória de Thais Azevedo.

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista
Tel.: (11) 5087-9911
E-mail: contato@crt.saude.sp.gov.br
Grupo Pela Vidda
Tel.: (11) 3258-7729
E-mail: gpvsp@uol.com.br
Instagram: @pelaviddasp
Coletivo Nudhes
Instagram: @nudhes_osc
Saiba mais sobre o nosso canal de notícias da Agência Aids.



