
Depois de um ano marcado por novos horizontes na política de aids no Brasil, 2024 promete ser o ano da concretização de vários projetos no enfrentamento ao HIV/aids. Mas são questões relativas à prevenção, ao tratamento e ao enfrentamento do preconceito e da discriminação que continuam impondo desafios enormes à política pública.
Num país em que mais de 1 milhão de pessoas vivem com HIV e cerca de 100 mil não sabem que têm o vírus, possibilitar o acesso ao diagnóstico e dar mais atenção às chamadas populações-chaves, como a de jovens gays e pessoas trans, surgem na lista das prioridades para o ano que se inicia. Foi o que nos disseram alguns gestores e médicos quando perguntamos a eles qual o grande desafio da aids em 2024. Perguntamos também para os ativistas quais são suas maiores expectativas. Confira os depoimentos a seguir:
Cledson Sampaio, representante da Rede Nacional de Pessoas Vivendo com HIV/Aids no Conselheiro Nacional de Saúde

“Em 2024, a gente precisa repensar, principalmente na questão do parlamento, a destinação de recursos através de emendas parlamentares, tanto em âmbito federal, quanto estadual e municipal, a gente precisa reforçar a questão da lei. Precisamos fazer com que as campanhas voltem, principalmente para as televisões, rádios, e é para fazermos o monitoramento desses recursos que estão indo para os estados e municípios. Queremos mais editais de participação da sociedade civil com menos burocracia.”
Veriano Terto Júnior, vice-presidente da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA)

“Uma questão que a gente vê com grande preocupação para 2024 é como atualizar os nossos medicamentos, tanto para prevenção como para tratamento, frente aos altos preços e a pouca mobilização, tanto a nível governamental mais amplo como a nível de sociedade civil. Temos pessoas morrendo de HIV por terem abandonado o tratamento. Nas nossas listas de redes sociais, um número cada vez maior de notícias sobre pessoas conhecidas, inclusive do próprio movimento, que se suicidam depois de processos depressivos, mostrando que a qualidade de vida das pessoas vivendo com HIV precisa ser repensada e ser melhor trabalhada, inclusive com as questões de saúde mental. Precisamos sim falar em eliminar a AIDS enquanto pandemia, enquanto epidemia, mas também precisamos acabar com a epidemia de depressão, a epidemia de estigma, relacionada a essa depressão e de abandono ao tratamento. Então são desafios aí para 2024 para todo mundo que trabalha com HIV.
Dr. Álvaro Furtado da Costa, infectologista do CRT de São Paulo e do Hospital das Clínicas

“É importante a gente discutir agora em 2024 mais sobre diagnóstico precoce; pessoas estão abandonando o tratamento, precisamos pensar como pegar e colocar essas pessoas de novo na linha de tratamento; precisamos pensar o resgate desses pacientes faltosos e continuar expandindo a PrEP […] Além disso, também pensar em incorporação da PrEP injetável para grupos específicos no Brasil. Drogas como cabotegravir e ripilvirina também são importantes que a gente tenha disponível no SUS; precisamos para os nossos pacientes as melhores tecnologias para tratar e isso deve ser discutido. Esperamos também que seja discutido em 2024 toda a questão da redução de estigma, de forma constante e permanente. Temos que ter campanhas para falar de indetectável e intransmissível, campanhas nacionais que abordem PrEP e PEP para adolescentes […] sentimos falta de comunicação com as pessoas. Este segue sendo um grande desafio ainda para o Brasil: trazer campanhas de prevenção mais atualizadas, mais modernas, mais afetivas… para capitalizar todas as populações. Esses são grandes desafios para a epidemia no ano de 2024.”
Evalcilene Costa dos Santos, do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas, núcleo Amazonas

“Em 2024 temos que avançar com novas tecnologias de prevenção e ter o respeito e apoio tanto do Governo Federal, quanto dos estados e municípios. Que tenhamos o respeito e o acompanhamento para a sociedade civil como a portaria do Ministério da Saúde através do departamento e também da Carta de Apoio à Sociedade Civil que foi enviada aos municípios, aos estados para que a gente possa dar continuidade ao tratamento.”
Francisca Batista de Souza, participante do Colegiado Nacional da RNP+ no Mato Grosso

“Temos que colocar energia nos medicamentos, temos que colocar energia na educação, a educação vai de alguma forma derrubar o estigma que ainda existe quando falamos sobre HIV. Temos que alcançar os mais jovens, mas também alcançar os mais velhos que observam o tema como tabu. Em 2024, precisamos trabalhar mais para que a informação, a medicação e os testes cheguem nos lugares mais carentes do Brasil.”
Jaciara Pereira, integrante do Colegiado Nacional RNP+ na Bahia

“Sempre bato na tecla de que precisamos de apoio do governo do nosso país, então para 2024 é uma das coisas que precisam ser conquistadas. Precisamos pensar também na forma de como expandir a entrega de remédios para tratamentos antirretrovirais em todo o território nacional, como também como chegar na forma da educação.”
Amélia Coelho Garcia, participante do Colegiado Nacional da RNP+ Piauí

“O impacto do governo foi mostrado no Boletim Epidemiológico de 2023, então nessa linha, penso que precisamos melhorar, precisamos melhorar esses dados, focar na população negra, focar na população pobre, focar em demandar ajuda do governo para que em 2024 haja aperfeiçoamentos e metas batidas.”
Renata Souza, do Movimento Nacional de Cidadãs Posithivas de São Paulo

“Para 2024, inovações em Educação, prevenção e o desenvolvimento e implementação de estratégias inovadoras de educação e prevenção, incluindo campanhas de conscientização e programas de prevenção adaptados a diferentes comunidades. Aumento do engajamento comunitário e conscientização, e a diminuição do estigma associado ao HIV como também a promoção de um procedimento mais inclusivo para apoiar as pessoas afetadas.”
Adriano Lopes, criador de conteúdo digital sobre HIV/aids

“Eu vejo que as pessoas que me procuram expondo muitos medos, muitas vezes é por falta de informação, então eu acho que para 2024 o foco deva ser em mais campanhas de prevenção, mais campanhas com informação para atingir a todos os públicos, mas principalmente os jovens. Além disso, a questão do acolhimento e do seguimento de saúde mental é extremamente necessária, pois há uma grande falha nesse quesito.
Fabyanna de Carvalho, conselheira no Conselho Municipal de Mulheres da cidade de Anchieta, no Espírito Santo

“Precisamos expandir a PrEP, precisamos levar essa informação para que a gente tenha cada vez menos diagnóstico positivo para o HIV. Conheço várias pessoas que nunca ouviram falar da PrEP, precisamos chegar a esse público que apesar de jovem, não conhece esse método de prevenção.”
Dr. Mateus Cardoso, médico infectologista no Centro de Referência e Treinamento em IST/Aids de São Paulo e no Instituto de Infectologia Emílio Ribas

“O que eu espero para 2024 são novas tecnologias de prevenção com vias de aplicação prolongada, maior facilidade de condução com medicações co-formulados, liberação da medicação para aqueles pacientes com diversas mutações do vírus e que eu possa me envolver ainda mais cientificamente, seja a nível municipal, estadual ou federal.”
Márcia Leão, ativista e coordenadora do Fórum ONG Aids Rio Grande do Sul

“Para 2024, será importante uma aumento no orçamento do Departamento de Aids, propiciando maiores financiamentos para as ações da sociedade civil, com editais mais robustos, contemplando projetos de mais longa execução. É igualmente importante que seja investido em pesquisa e inovação tecnológica. Também espero que as iniciativas desenvolvidas pelo governo federal tenham eco nos estados e municípios, se construindo agendas em que a responsabilidade seja compartilhada pelos diferentes níveis de gestão.”
Sabrina Luz, mulher trans vivendo com HIV, ativista e influenciadora digital

“Em 2024, precisamos que a comunicação, os medicamentos e os testes consigam alcançar pessoas que vivem em cidades pequenas ou comunidades de difícil acesso no interior do Brasil, precisamos exterminar os preconceitos que ainda restam ao falar do assunto aids, como também evoluir uma linguagem para pessoas de idade que precisam de ajuda e não conseguem a mesma instrução rápida que um jovem. Precisamos ver as comunidades liderando, comunidades negras, trans e travestis, LGBTQ+, precisamos ver mais pessoas dando voz ao combate da aids.”
Salvador Corrêa, psicólogo, ativista e escritor

“Desejo que em 2024 possamos ter uma sociedade civil ainda mais alinhada, mobilizada, com recursos para fazer suas ações. Quero que as campanhas cresçam em volume e em alcance, seguindo o caminho já traçado da valorização dos direitos humanos, em especial das populações historicamente afetadas e/ou mobilizadas pela epidemia como LGBTQIAPN+, trabalhadoras do sexo, usuários de drogas, população negra, população privada de liberdade e pessoas em situação de rua. Que tenhamos um 2024 com boas notícias, com equidade no acesso e muita arte!”
Anna Luiza Calixto, ativista e educadora sexual pelas infâncias

“Em 2024, quero ver homens, mulheres de diferentes fenótipos e origens sociais abraçando quem são, sem envergonhar-se de sua identidade ou sorologia. Esse é o Brasil que eu quero ver em 2024, livre das correntes dos estigmas e cheio de si e de sua potência viva e única.”
João Cavalcante, representante da RNP+Brasil no Grupo Temático Ampliado do Unaids Brasil

“Para o ano de 2024 vejo um cenário de esperança, e que os movimentos de pessoas vivendo possam estar em destaque junto com o apoio do governo e que haja bastante mudança nas linguagens de prevenção e de cuidado, tanto quanto dos tratamentos. É importante que em 2024 ocorra avanços de pautas já conquistadas e que haja novos sucessos na luta contra o HIV/aids. É preciso ter a ampliação das abordagens e que os medicamentos e programas sobre prevenção consigam alcançar todas as localizações do Brasil, continuando assim, tudo que foi alcançado até aqui.”
Expandir testagem, PrEP e PEP, seguir enfrentando o estigma e o preconceito são pontos apontados pelos gestores
Dr. Draurio Barreira, diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde
“Expandir a testagem, o acesso a PEP e a PrEP como nunca se viu antes nesse país (isso não é muito pretensioso, o crescimento tem sido modesto desde duas implantação).”
Cristina Abbate, coordenadora da Coordenadoria de IST/Aids da Cidade de São Paulo
“O último ano foi marcado pela continuidade de esforços que já vinham sendo aplicados na capital e também por iniciativas inéditas de acesso aos serviços especializados em IST/Aids. Com a redução de 45% no número de novos casos de HIV nos últimos seis anos e a inauguração de dois novos serviços de amplo acesso à prevenção, a cidade de São Paulo consegue iniciar o ano de 2024 com otimismo. Notar que as novas infecções diminuíram de forma ainda mais expressiva entre populações prioritárias confirma que estamos no caminho certo. Entre gays e homens que fazem sexo com homens, o índice diminuiu 47%. Entre a população de 15 a 29 anos, a redução foi ainda maior, chegando a quase 50%. Além disso, são mais de 50 mil pessoas em tratamento na Rede Municipal Especializada em IST/Aids (RME-IST/Aids), sendo 96% delas indetectáveis. A PrEP, Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, tem sido cada vez mais ampliada, com mais de 35 mil cadastros atualmente. Esses números apontam que a capital tem agido de forma assertiva em estratégias de prevenção ao HIV e na qualidade da assistência para as pessoas vivendo com o vírus, inclusive com a contratação de 300 novos profissionais na RME-IST/Aids em 2023. Enquanto não atingirmos a eliminação do HIV como um agravo de saúde pública na Cidade de São Paulo, teremos trabalho árduo, enfrentando desafios, principalmente, no que diz respeito ao estigma e ao preconceito, e ampliando de forma permanente o acesso à saúde das populações mais vulneráveis.”
Dra. Rosa de Alencar Souza, diretora-adjunta do Centro de Referência e Treinamento IST/Aids de São Paulo

“O ano de 2023 iniciou com muitos desafios advindos da pandemia de Covid-19, a perda abrupta de um dos mais importante e pioneiro ativista do movimento de aids, Jorge Beloqui, e finalizou na celebração dos 40 anos do Programa de IST/Aids de São Paulo e muitas conquistas. Entre as conquistas, destacamos no campo da transmissão vertical (TV) do HIV e da Sífilis, a certificação da eliminação da TV do HIV e o selo Bronze de Boas Práticas referente a transmissão vertical da sífilis congênita concedida ao estado de São Paulo pelo Ministério da Saúde, além da certificação de 28 municípios do total dos 81 elegíveis com população acima de 100 mil habitantes. Esses importantes resultados exigiram muito esforço, empenho e trabalho coordenado pela equipe do CRT, responsável pela Coordenação do Programa de IST/Aids e também o empenho de várias áreas técnicas da Secretaria de Saúde, como Atenção Básica, Saúde da Mulher, da Criança, Humanização, do Grupo Técnico de enfrentamento de morte materna e infantil, do Instituto Adolfo Lutz, das interlocuções regionais, do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas e das Coordenações municipais de IST/Aids. Ainda em 2023, tivemos a semana de mobilização contra a Sífilis e Sífilis Congênita, a entrega do Prêmio Luiza Matida para 263 municípios que alcançaram indicadores positivos rumo a eliminação da TV do HIV e Sífilis. Outra ação de destaque foi a implementação do Programa de Qualificação de Boas Práticas em IST/HIV/Aids envolvendo 162 municípios com serviço de assistência a pessoas vivendo com HIV/aids que tem como objetivos qualificar a atenção às IST/Aids a partir da avaliação de indicadores nas diversas etapas do contínuo cuidado, abordando da promoção à saúde à supressão viral ou cura em relação às outras IST, e conceder selos de boas práticas como estratégias para apoiar os municípios e o Estado rumo ao alcance das metas 95, 95 e 95 propostas pelo Unaids. Ainda no campo das ações exitosas, a 16ª edição da Campanha Fique Sabendo contou com a participação de 642 municípios e resultou na realização de 1063 ações extramuros e 217.130 exames de HIV e sífilis realizados. O lançamento do manual de orientação para profissionais de saúde de serviços especializados em IST/ Aids e de Saúde Mental sobre Chemsex [sexo químico] com muitas parcerias envolvidas e do aplicativo Fala Zero discriminação com vários setores da Universidade de São Paulo, aplicativo que aborda a linguagem inclusiva e foi desenvolvido sob a coordenação da Professora Ana Paula da escola de enfermagem da USP de Ribeirão Preto encerraram esse ano apontando a importância desses temas para o avanço no enfrentamento do HIV/ Aids e outras IST. Nesse sentido, temos clareza da necessidade de intensificar em 2024 as ações para o enfrentamento do estigma e discriminação contra as PVHA, do racismo e da violência de gênero e da LGBTfobia, para tal será necessário ampliar o trabalho intersetorial que vem sendo desenvolvido.”
Dica de entrevista
Anna Luiza Calixto
Instagram: @annaluizapalestrante
Amélia Coelho Garcia
Email: garcia.amelia19@gmail.com
Adriano Lopes
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Dr. Álvaro Furtado da Costa
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Coordenadoria de IST/Aids de SP
Email: istaids@prefeitura.sp.gov.br
Cledson Sampaio
Instagram: @cledsonfonsecasampaio
Evalcilene Costa dos Santos
Instagram: @evalcilene
Francisca Batista de Souza
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Fabyanna de Carvalho
Email: carvalhofabi709@gmail.com
Jaciara Pereira
Email: jaci1703@yahoo.com.br
João Cavalcante
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Márcia Leão
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Dr. Mateus Cardoso
Email: mateus.cardoso@crt.saude.sp.gov.br
Renata Souza
Email: renatasouzaprudente2@hotmail.com
Dr. Rosa de Alencar Souza
Email: ralencar@crt.saude.sp.gov.br
Sabrina Luz
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Salvador Corrêa
Instagram: @salvadorcamposcorrea
Veriano Terto Júnior
Instagram: @verianotertojr


