Viver com HIV na Venezuela : “Às vezes, eles distribuem antirretrovirais vencidos. Conseguir uma consulta para contagem de CD4 e testes de carga viral em instituições públicas é bastante difícil no momento”, David Rojas, pessoa vivendo, conta como  está sendo  o cotidiano   no país

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Faz uma semana que os Estados Unidos realizaram uma operação militar  na Venezuela  que resultou  no sequestro e  prisão  do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores que estão presos  para julgamento nos EUA.As sanções econômicas impostas pelos americanos  à Venezuela estão sendo revistas e o país retomou o comércio de petróleo venezuelano. Durante esta semana a Agência Aids tem feito reportagens trazendo  o olhar de ativistas brasileiros que ressaltam a importância da empatia e solidariedade com o povo venezuelano ,particularmente com as pessoas vivendo com HIV: faz algum tempo que venezuelanos atravessam a fronteira em busca de antirretrovirais, exames e acolhimento para manter sua saúde estabilizada. Informamos também os marcos legais do Sistema Único de Saúde que dão condições para que imigrantes recebam cuidados no Brasil.

 Conseguimos contato com um venezuelano que testou positivo para o HIV há 20 anos  e vive na Venezuela.Desde 2018, David Rojas( nome  criado por ele, assim quis se identificar) vem ao Brasil fazer  testes e apanhar medicamentos. David  mora na cidade de Guayana, localizada no sudeste da Venezuela  que abrange os estados de Bolívar, Amazonas e Delta Amacuro, fazendo fronteira com o Brasil e a Guiana. Ele relatou que está bem de saúde. Informou  que até o momento o cotidiano das pessoas na Venezuela segue normalmente e disse esperar “ sinceramente que   a vida seja melhor do que o que vivi e que haja uma mudança real ” no país vizinho. David respondeu por escrito as perguntas feitas pela Agência Aids.

 

Conte-nos um pouco sobre a sua história: há quanto tempo você vive com HIV? Qual a sua idade? Como está a sua saúde?

Fui diagnosticada há 20 anos positivo para o HIV, tenho 45 anos agora. Graças a Deus, me sinto o melhor possível.  Tenho um pouco de fadiga de vez em quando e uma sensação de   calor no corpo. Quando preciso fazer algo, meu corpo sempre responde 100%. Mas não é fácil viver assim. Graças a Deus, meus exames mostram que estou saudável. Me alimento bem, o que ajuda muito. Mas nem todos têm essa sorte no meu país.

 

Como esta a  situação  na Venezuela, desde que o presidente  Nicolás Maduro e sua esposa Cilia Flores foram presos e levado a julgamento nos EUA?

 

A verdade é que, de modo geral, tudo está calmo para a população. Embora, obviamente, existam ameaças para quem gosta ou comemora o que aconteceu nos EUA. O comércio está  funcionando normalmente. Os supermercados estão abertos em seus horários habituais. Os postos de gasolina estão abastecendo sem problemas, e assim por diante. 

 

As  pessoas podem circular livremente pelas ruas? Estão trabalhando? tem acesso a comida, roupas e remédios?

Tudo está normal nas ruas. Por enquanto, nada foi fechado . Suprimentos médicos e alimentos estão facilmente disponíveis.

Em relação as pessoas vivendo com HIV, como está o tratamento, os exames, o acolhimento, as consultas, o cuidado?

Tem sido mais ou menos assim, isso vem acontecendo há alguns anos. Às vezes, eles distribuem antirretrovirais vencidos. Conseguir uma consulta para contagem de CD4 e testes de carga viral em instituições públicas é bastante difícil no momento. No entanto, para aqueles que podem pagar por laboratórios particulares, essa opção está disponível.

Muitas pessoas vivendo, tem vindo até o Brasil para ter acesso a medicação.  Este fluxo entre os dois países   segue ou estão encontrando dificuldades para ter acesso  aos remédios ?

Para quem vive perto da fronteira, em cidades relativamente próximas, a um dia de viagem de transporte público, ainda é viável ir ao Brasil para obter medicamentos. No Brasil, o sistema público de saúde é melhor, tanto para medicamentos quanto para exames. Essa é uma vantagem que poucos de nós temos. Obviamente, a maior dificuldade é conseguir o dinheiro para cobrir essas despesas, já que o custo de vida na Venezuela é alto.

Quais suas expectativas para a Venezuela e o que espera que as pessoas vivendo de seu pais recebam do governo atual?

Bem, ninguém quer estar nessa situação. Mas temos que enfrentá-la com decisões sensatas, sempre pensando em preservar a vida e a saúde para o nosso próprio bem e o de nossas famílias. Devemos nos apegar a Deus porque, como diz o ditado, “Ele nos impulsiona, mas não nos destrói”, e sempre há uma solução para as nossas dificuldades. Mantenham-se sempre otimistas e tenham fé de que tudo ficará bem. É sabido que somos um povo que supera qualquer adversidade e sempre segue em frente. Espero sinceramente que  tudo seja melhor do que o que  já vivi e que haja uma mudança real. Que nenhum setor da população passe fome.  Que não se veja mais parte da população buscando o que comer  em restos no lixo. Que muitas oportunidades de emprego surjam e que nossa situação econômica  sólida como já foi. Espero que todos nós nos beneficiemos das decisões do governo… que ele consiga aumentar o poder de compra a um nível de prosperidade e que as pessoas possam adquirir com mais facilidade as coisas que nos dão conforto e bem-estar para termos uma vida melhor em nossa amada Venezuela. 

Redação Agência Aids

Apoios