“Nenhuma criança deve contar com a sorte”, afirmou a infectopediatra Dra. Daniela Vinhas Bertolini durante o debate sobre amamentação no X Encontro Estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas de São Paulo (MNCP-SP).
O evento reuniu mulheres ativistas e mulheres vivendo com HIV para discutir cuidados, direitos e desafios enfrentados no cotidiano. Entre os temas centrais esteve a transmissão vertical — quando o HIV é transmitido da mãe para o bebê durante a gestação, o parto ou a amamentação.
Além de Daniela Bertolini, participaram da mesa a ativista Renata Souza, do MNCP-SP, e Bianca Silva*, jovem que vive com HIV adquirido por transmissão vertical.
A infância com HIV
“Eu não tenho uma vida antes do HIV”, contou Bianca Silva.
Hoje com 34 anos, ela recebeu o diagnóstico ainda na infância, aos 4 anos de idade. Bianca relata que só conseguiu compreender melhor a gravidade do vírus e o que ele significava em sua vida aos 12 anos, quando começou a ter conversas sobre sexualidade.
Seu depoimento abriu espaço para refletir sobre os desafios enfrentados por crianças e adolescentes que vivem com HIV — especialmente para lidar com o diagnóstico e com os impactos que ele provoca na construção da própria identidade.
Bianca conta que ainda sente dificuldades para falar sobre o tema e que a ausência de apoio psicológico durante sua infância e juventude contribuiu para sentimentos de medo e insegurança.
Com dificuldades de adesão ao tratamento em alguns momentos da vida, ela enfrentou diversas infecções oportunistas. Recentemente tratou uma tuberculose, mas afirma que agora busca retomar o controle de sua vida, inclusive voltando a estudar.
“Tenho esperança de que vai melhorar. Não só para mim, mas para vocês também”, disse.
Amamentação e HIV
Na segunda parte do debate, Daniela Bertolini trouxe reflexões sobre a amamentação quando a mãe vive com HIV. Com mais de 30 anos de atuação no cuidado de casos de transmissão vertical, ela destacou que o tema é constantemente discutido entre pediatras e infectologistas em todo o mundo.
Uma das principais questões debatidas foi a possibilidade de mães vivendo com HIV, com carga viral indetectável, amamentarem seus bebês.
No Brasil, a recomendação do Ministério da Saúde é que mulheres vivendo com HIV não amamentem. Elas também têm direito a receber fórmula infantil para alimentar seus filhos.
No entanto, segundo Daniela, a realidade mostra que a prevenção da transmissão vertical ainda enfrenta desafios importantes.
Ela explica que os casos podem ser divididos, de forma geral, em duas situações: bebês de mães que já sabiam do diagnóstico antes da gravidez e receberam acompanhamento e orientações médicas; e bebês de mães que se infectaram durante o período de amamentação, quando muitas vezes ainda não houve diagnóstico ou orientação para interromper o aleitamento.
“No Brasil, existe a obrigatoriedade de testagem para HIV durante a gravidez. Toda gestante deve fazer o teste duas ou três vezes, dependendo do local onde mora, e também no momento do parto. Isso é obrigatório por lei. Mas não existe obrigatoriedade de testar uma pessoa que está amamentando”, explicou.
Para a especialista, ampliar a testagem durante o período de amamentação é uma medida necessária para fortalecer a prevenção.
Indetectável não significa risco zero na amamentação
Durante a discussão, Daniela também explicou por que a amamentação não é recomendada mesmo quando a mãe vive com HIV e apresenta carga viral indetectável.
Embora o conceito “indetectável=intransmissível” seja amplamente reconhecido para relações sexuais, ele não garante risco zero na amamentação.
Dados do estudo PROMISE, apresentados pela médica durante o encontro, indicam que a probabilidade de transmissão, mesmo com a mãe em tratamento e com carga viral indetectável, é de aproximadamente 0,3% em seis meses de amamentação, 0,6% em 12 meses e 0,9% em 24 meses.
Mesmo sendo um risco baixo, Daniela reforça a necessidade de cautela.
“Nenhuma criança deve contar com a sorte”, afirmou.
Ao final da mesa, foi destacada a importância do acolhimento e do apoio às mães que vivem com HIV, considerando as diferentes realidades sociais, as pressões e os desafios enfrentados pelas mulheres.
“É necessário prover vida e amor”, concluiu Daniela.
Humanizar o cuidado
A mesa, mediada pela ativista Renata Souza, reforçou ainda a necessidade de acompanhamento psicológico e de suporte às famílias que convivem com o HIV.
A proposta é humanizar o cuidado, olhando não apenas para a criança, mas também para as mães e para toda a rede familiar envolvida.
*Nome fictício utilizado para preservar o anonimato.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
MNCP
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