24/03/2014 – 19h
Dados mostram que há um aumento na frequência de transmissão de vírus HIV resistentes a um ou mais remédio antirretroviral, principalmente entre os jovens gays. A informação foi dada pelo infectologista Érico Arruda, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, durante aula no 9º Curso Avançado de Patogênese do HIV, na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Érico explicou para os ouvintes do curso, alunos de pós-graduação, pós-doutorandos e outros profissionais que trabalham com HIV, que tal incidência tem trazido para os médicos dificuldades na hora de escolher o esquema antirretroviral. O jeito de contornar isso, segundo ele, é com o exame de genotipagem. “O ideal é testar a sensibilidade do vírus adquirido antes de iniciar o tratamento antirretroviral”, disse Arruda. “Ou seja, fazer a genotipagem pré tratamento.”
Ainda segundo o infectologista, dados também comprovam que há aumento no número de pessoas que, ao se descobrirem infectadas pelo HIV, já apresentam vírus com mutações resistentes à primeira classe de combinações de antirretrovirais. “Isso poderá fragilizar a duração do benefício do tratamento", explicou ele.
Mas Arruda faz ressalvas. “A necessidade da genotipagem para o inicio do tratamento é algo que a gente precisa avaliar com mais cuidado do ponto de vista de custo e do retardo do tratamento. Alguns infectologistas relatam que em seus estados esperam em média quatro meses para ter o resultado da genotipagem. Como é que vou ficar esperando esse tempo todo para tomar uma decisão? É isso que precisamos ver com cuidado para não correr o risco de, ao tentar ajudar, atrapalhar a vida das pessoas.”
Uma das alunas na plateia relatou que em Cuiabá ela espera quatro meses pelo resultado de genotipagem. "Quanto mais longe você vai do eixo Rio/São Paulo pior fica a situação, o cenário do Brasil não é igual.”
Érico apresentou diferentes estudos no Brasil e no mundo e deu a sua conclusão. “A limitação das opções de tratamento imposta pela transmissão de cepas virais resistentes a uma ou mais drogas é um complicador que não pode ser menosprezado.”
Estudos
Segundo estudo feito por pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e da Universidade de São Paulo (USP), a presença de variedades mais agressivas do HIV-1, que normalmente costuma aparecer apenas nos estágios mais avançados da aids, pode estar se tornando mais frequente já entre pacientes recém-infectados com o vírus na cidade de São Paulo e ser a responsável pela progressão mais acelerada da doença.
Pessoas recentemente infectadas por cepas do vírus que se conectam ao receptor CXCR4 dos linfócitos T do tipo CD4, uma importante célula de defesa do organismo, tendiam a apresentar precocemente um maior declínio do sistema imunológico do que as que tinham sido infectadas por outras formas do vírus.
O estudo acompanhou 72 pessoas da capital paulista por até 78 semanas após terem recebido a notícia de que eram soropositivas e constatou que 12 pacientes carregavam a forma mais patogênica do HIV-1.
Nesse grupo de indivíduos, a contagem de células de defesa atingiu níveis abaixo de um patamar desejável com maior frequência estatística do que nos demais indivíduos, cujo vírus se liga a outro receptor químico dos linfócitos T do tipo CD4, o CCR5. Os cientistas não sabem dizer com certeza se o aparecimento precoce de cepas mais patogênicas de HIV-1 é causa ou consequência da baixa na imunidade nos pacientes, mas têm indícios significativos de que a primeira hipótese parece fazer mais sentido.
Talita Martins (talita@agenciaaids.com.br)



