Na abertura da Sex Worker Networking Zone, Karino Bravo defende resposta ao HIV liderada pelas comunidades, denuncia retrocessos em direitos humanos e reforça que não haverá avanços no enfrentamento da epidemia sem combater o estigma e a criminalização
A defesa da liderança comunitária das trabalhadoras e dos trabalhadores do sexo marcou a abertura da Sex Worker Networking Zone, espaço organizado pela Global Network of Sex Work Projects (NSWP) na Global Village da 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026). Em um discurso contundente, Karina Bravo, coordenadora da Latin American Platform of People who do Sex Work (PLAPERTS), afirmou que a resposta ao HIV só será efetiva se estiver fundamentada na justiça social, nos direitos humanos e no protagonismo das comunidades.

Ao dar as boas-vindas aos participantes, Bravo destacou que o espaço foi construído a partir da experiência, da resistência e da liderança das próprias trabalhadoras sexuais. Segundo Karina, o momento exige enfrentar os obstáculos estruturais que continuam limitando o acesso à prevenção, ao tratamento e ao cuidado.
“Os avanços científicos têm sido extraordinários, mas esses avanços não terão o impacto que esperamos enquanto persistirem a desigualdade, o estigma, a discriminação, a violência e a criminalização contra os trabalhadores sexuais em muitos países”, afirmou.
Karina ressaltou que as pessoas que exercem o trabalho sexual não podem ser vistas como beneficiárias passivas das políticas públicas de saúde. Pelo contrário, lembrou que elas têm desempenhado papel central na construção das respostas comunitárias ao HIV.
“Somos líderes, educadoras, defensoras dos direitos humanos, pesquisadoras comunitárias e construtoras de soluções”, disse. Segundo ela, décadas de atuação demonstram que, quando as trabalhadoras do sexo lideram as respostas, ampliam-se o acesso à prevenção, melhora a adesão ao tratamento, fortalecem-se os serviços de saúde e vidas são preservadas.

Cortes no financiamento e retrocessos preocupam
Durante sua fala, a coordenadora da PLAPERTS alertou para o cenário de redução do financiamento destinado às organizações comunitárias e para os retrocessos em direitos humanos observados em diversos países.
Ela afirmou que a violência e a criminalização seguem colocando em risco tanto a vida quanto o trabalho das profissionais do sexo, reforçando que a resposta ao HIV não pode ser dissociada da luta por igualdade e justiça social.
Karina também apresentou experiências acumuladas pelos movimentos latino-americanos, destacando iniciativas voltadas à ampliação do acesso à PrEP e à PEP, ao fortalecimento de novas lideranças, à documentação de violações de direitos humanos e à incidência política para construção de políticas públicas centradas nas pessoas.
“Nada sobre nós sem nós”
Outro eixo central do discurso foi a defesa da participação direta das trabalhadoras e trabalhadores do sexo nos espaços de decisão.
“Hoje reafirmamos uma convicção que tem guiado nosso movimento há anos: nada sobre nós sem nós”, declarou Karina. Para ela, as pessoas que exercem o trabalho sexual devem participar da formulação de políticas públicas e da definição sobre a distribuição de recursos destinados à resposta ao HIV.
A coordenadora também definiu a Sex Worker Networking Zone como um espaço de diálogo, solidariedade e construção coletiva, capaz de transformar debates em ações concretas para fortalecer a resposta global ao HIV.
Encerrando sua participação, Karina Bravo fez um apelo em defesa da dignidade das pessoas que exercem o trabalho sexual e resumiu a principal mensagem do encontro em uma frase que arrancou aplausos do público:
“Obrigada por acreditarem no poder da liderança comunitária e por continuarem a construir um mundo onde a saúde, a dignidade, a igualdade e os direitos humanos sejam uma realidade para todas as pessoas. O trabalho sexual é trabalho, e negar isso é violência.”
Acompanhe o cronograma completo da Global Network of Sex Work Projects na AIDS 2026.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




