“Toda mulher tem o direito de viver sua maternidade com privacidade e respeito”: Rosa Garcia fala sobre amamentação, escolhas e os desafios de ser mãe vivendo com HIV

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Rosa compartilha sua experiência com a maternidade, a decisão de não amamentar e os desafios impostos pelo estigma e pela falta de acolhimento.

Quando Rosa Garcia se tornou mãe, precisou lidar com uma decisão que envolvia cuidado, informação e uma história de vida atravessada pelo HIV: não amamentar o próprio filho. Para ela, que vive com o vírus desde o nascimento, a escolha foi construída ao longo dos anos, com acesso à informação, acompanhamento profissional e a consciência de que desejava oferecer ao bebê as melhores condições de saúde e segurança. “Como a maternidade era um sonho que eu planejava realizar, fui me preparando, buscando informações e construindo meus alicerces ao longo do caminho”, conta Rosa.

Educadora social, psicanalista, estudante de Neuropsicologia e ativista, ela fala como mulher que nasceu com HIV, como mãe e como alguém que dedica parte da vida ao acolhimento de outras pessoas que vivem com o vírus. Sua participação no debate sobre amamentação e HIV traz uma dimensão essencial: a experiência de quem vive as consequências dessas decisões no próprio corpo, na intimidade familiar e nas relações sociais.

Uma história que começou antes das primeiras lembranças

Rosa nasceu em 1986, quando o HIV ainda era cercado por desinformação e os tratamentos disponíveis hoje não faziam parte da realidade. “Eu nasci e cresci no meio de muitas dificuldades. Em uma época em que ainda não existiam os tratamentos e os medicamentos que temos hoje, e em que o preconceito era muito presente. Foi uma época muito difícil, principalmente na infância”, relembra.

Desde os 17 anos, faz acompanhamento no Centro de Referência e Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT), onde encontrou profissionais que participaram de diferentes etapas de sua trajetória. “Isso aconteceu também através dos profissionais de saúde que me acompanham no CRT, das ONGs e de toda a equipe que fez parte da minha trajetória. Quero destacar a equipe de gestantes do CRT e a pediatra, doutora Daniela, que também fizeram parte desse processo”, afirma.

Em seu poema autobiográfico Eu nasci história, Rosa sintetiza o significado de crescer com um diagnóstico que, por muito tempo, foi tratado como sentença ou motivo de exclusão: “Nasci com HIV. Mas nunca fui apenas isso.” Em outro trecho, escreve: “Eu era resistência”.

Ao completar 40 anos, em 30 de junho de 2026, Rosa olhou para as quatro décadas vividas com o vírus e para as transformações que testemunhou. “Quatro décadas de dor, mas também de ciência, de luta e de cuidado. E, principalmente, de pessoas como eu”, escreveu no poema. A maternidade foi uma dessas possibilidades construídas com o avanço da ciência e do cuidado. “Para mim, chegar à maternidade depois de tudo o que vivi tem um significado muito grande. É olhar para a minha história e perceber o quanto caminhamos, o quanto a ciência avançou e quantas possibilidades de vida foram construídas”, relata.

O sonho de ser mãe e a decisão de não amamentar

A maternidade era um projeto que Rosa vinha preparando havia tempo. Por isso, a orientação de não amamentar não chegou de surpresa. “Quando chegou o momento, eu não recebi essa informação como uma novidade, porque eu já sabia”, explica.

Mesmo com a carga viral indetectável, Rosa decidiu não amamentar o filho, considerando os riscos de transmissão do HIV pela amamentação e as orientações que recebeu da equipe de saúde. “Mesmo sendo indetectável, eu não queria correr nenhum risco de transmissão do HIV para ele”, afirma. Para ela, a decisão não representou uma renúncia à maternidade, mas uma forma de exercer o cuidado dentro das condições de segurança que conhecia. “Eu tinha um objetivo muito claro: viver a maternidade com segurança, responsabilidade e muito amor pelo meu filho”, diz.

A experiência de Rosa também ajuda a separar dois pontos que costumam se misturar nessa discussão. A indetectabilidade é um avanço decisivo no tratamento do HIV, mas as orientações sobre gestação, parto e alimentação infantil precisam considerar as evidências específicas para cada situação. Foi nesse contexto, e a partir das recomendações recebidas, que ela fez sua escolha. Para Rosa, não amamentar não diminuiu o vínculo com o filho nem o significado da maternidade; foi uma decisão de prevenção tomada dentro da realidade que conhecia naquele momento.

A equipe do CRT e a pediatra Daniela acompanharam o processo. Rosa recebeu orientações sobre os cuidados para inibir a produção de leite, evitar a estimulação das mamas e garantir a alimentação adequada do bebê. “Como sou ativista na área de HIV/aids e trabalho com pares, tenho bastante informação sobre o assunto. Mesmo assim, esse acompanhamento foi fundamental para fortalecer meus conhecimentos e esclarecer questões específicas desse momento”, relata.

“Eu me senti amparada, segura e acompanhada durante todo esse processo”, afirma. Hoje, ao olhar para o filho, reconhece o resultado desse cuidado. “Hoje, olho para o meu filho, lindo, forte, maravilhoso e saudável, e vejo o quanto todo esse cuidado foi importante. Ele não vive com HIV, e isso é motivo de muita alegria para mim.”

Quando uma pergunta invade a intimidade

Se a decisão de não amamentar foi construída com tranquilidade no âmbito pessoal, o pós-parto mostrou que nem sempre as outras pessoas compreendem a necessidade de privacidade. Na maternidade Cachoeirinha, onde deu à luz, Rosa dividiu o quarto com outras mães. Algumas perguntavam por que ela não amamentava. Também recebeu questionamentos de profissionais de enfermagem que desconheciam sua condição sorológica.

“Eu respondia que eram questões pessoais, porque não me sentia na obrigação de expor minha vida ou minha condição sorológica para outras pessoas”, conta. O desconforto levou Rosa a conversar com a direção do hospital e solicitar um ambiente mais tranquilo. Seu pedido foi acolhido.

“Eu acredito que o estigma e o preconceito existem, e que as pessoas comentam, mesmo quando a gente não fica sabendo. Mas eu não precisei enfrentar diretamente essas situações”, relata. Para ela, uma mulher não deveria precisar explicar a terceiros uma decisão de saúde que não lhes diz respeito. “Eu acredito que toda mulher tem o direito de viver sua maternidade com privacidade e respeito, sem precisar justificar suas escolhas ou expor questões tão pessoais”, afirma.

No caso de quem vive com HIV, perguntas sobre a amamentação podem ser especialmente delicadas, porque explicar a decisão pode significar revelar uma informação de saúde que a pessoa tem o direito de manter privada. “Às vezes, uma pergunta que parece simples pode gerar desconforto e colocar uma mulher em uma situação delicada. Por isso, o acolhimento e o respeito fazem toda a diferença”, diz.

“Eu acredito que eu não precisava ter passado por esse tipo de situação, principalmente em um momento tão especial e delicado como o nascimento do meu filho”, acrescenta. A experiência reforça que o cuidado também passa pela comunicação, pela confidencialidade e pelo respeito às escolhas e à privacidade das mulheres.

O que está em jogo no debate sobre amamentação e HIV

As discussões sobre a possibilidade de mulheres que vivem com HIV amamentarem seus filhos têm ganhado espaço com o avanço das pesquisas. Rosa se declara favorável à amamentação, mas considera necessário avançar nas pesquisas e na segurança antes de ampliar as possibilidades de orientação. Entre suas preocupações está a possibilidade de desenvolver um exame capaz de identificar especificamente a carga viral no leite materno.

“Se fosse possível confirmar que o leite está indetectável, acredito que isso traria mais segurança e ajudaria a diminuir a pressão que existe sobre essas mães”, avalia. A proposta é apresentada por Rosa como uma expectativa pessoal para futuras pesquisas, e não como uma ferramenta disponível atualmente para garantir ausência de transmissão.

Para a ativista, o debate não pode ignorar o conflito entre o desejo de amamentar e o receio de colocar a saúde dos filhos em risco. “Eu sou uma mulher que vive com HIV por transmissão vertical, conheço a minha história e sei que ainda existem questões e riscos que precisam ser considerados”, afirma.

“Ao mesmo tempo em que existe o desejo de amamentar, também existe a preocupação com a saúde e a segurança dos nossos filhos”, resume. O debate, em sua visão, exige rigor científico, informação e um ambiente em que as mulheres possam falar sobre desejos, dúvidas e decisões sem julgamento.

Também é preciso distinguir o desejo de amamentar da obrigação social de fazê-lo. Para mulheres que vivem com HIV, a pressão pode vir de diferentes direções: o receio da transmissão, a vontade de viver uma experiência valorizada socialmente, o medo do julgamento e a necessidade de proteger a própria privacidade. Rosa chama a atenção justamente para esse peso: “Acredito que precisamos de mais pesquisas, mais informação e mais segurança para que esse debate aconteça sem julgamentos e sem colocar sobre as mulheres o peso de ter que decidir ou justificar algo tão importante.”

A perspectiva de quem vive com HIV por transmissão vertical amplia ainda mais essa conversa. Para Rosa, as recomendações de saúde não chegam a uma história em branco: elas se encontram com experiências anteriores de estigma, medo, silêncio e também com os avanços que permitiram a muitas mulheres planejar a maternidade. Ouvir essas mulheres, portanto, não significa substituir protocolos ou evidências pela experiência individual, mas incluir no debate quem convive diretamente com as consequências das orientações e das escolhas feitas em torno delas.

Transformar a experiência em acolhimento

A atuação de Rosa não termina na própria história. Ela trabalha com acolhimento, escuta e orientação, inclusive junto a pessoas que nasceram com HIV por transmissão vertical. Integra o Grupo de Incentivo à Vida (GIV) e a ONG Anima, onde desenvolve um trabalho entre pares: pessoas que vivem com HIV oferecendo apoio a outras que compartilham experiências semelhantes.

Nesse trabalho, a informação técnica encontra uma dimensão que nem sempre cabe em uma consulta. Quem já enfrentou o medo do diagnóstico, o preconceito e as dúvidas sobre o futuro pode reconhecer sentimentos que outra pessoa ainda não consegue expressar. Para Rosa, essa proximidade é justamente o que dá sentido ao trabalho entre pares: acolher sem hierarquia, compartilhar aprendizados e mostrar que a trajetória com o HIV não precisa ser vivida em isolamento.

Em seu poema, Rosa define esse compromisso: “Eu me tornei ponte. Atuo no acolhimento, na escuta, na orientação baseada na psicanálise no afeto e na informação.” A experiência vivida não substitui o conhecimento científico nem o acompanhamento profissional, mas pode ajudar a criar vínculos, diminuir o isolamento e aproximar as pessoas do cuidado.

“Um trabalho em que quem vive acolhe quem também vive. Onde a experiência não é teoria. É encontro”, escreve. “Meu trabalho não é apenas técnico. É humano. É afetivo. É profundo”, afirma no poema. Sua atuação também se volta às pessoas que, por diferentes razões, se afastaram do acompanhamento em saúde. “Olhar nos olhos e dizer: ‘Você não está sozinho’. Porque eu sei. Eu vivi. Eu sobrevivi”, escreve.

A maternidade acrescentou outra camada a essa trajetória. Rosa é mulher, mãe, trabalhadora, pesquisadora e ativista. Ao falar da própria vida, não apaga as dores da infância nem as marcas do preconceito, mas também não permite que elas sejam a única forma de narrar sua história. “Eu sou mulher. Sou mãe. Sou trabalhadora. Sou pesquisadora. Sou resistência. Sou a prova viva de que um diagnóstico não define destinos.”

Uma história que não termina no diagnóstico

Aos 40 anos, Rosa reconhece tanto as dificuldades quanto as conquistas de uma vida atravessada pelo HIV. A ciência mudou, os tratamentos avançaram e a maternidade se tornou uma possibilidade que ela pôde planejar com acompanhamento e informação. Ao mesmo tempo, o estigma continua presente em situações cotidianas, inclusive em ambientes onde o cuidado deveria ser prioridade.

“Estou aqui para me apresentar. Eis-me aqui. Uma mulher que transforma sua história em escuta, cuidado e presença!”, escreve. Ao reivindicar o direito de exercer a maternidade com privacidade e dignidade, Rosa também abre espaço para que outras mulheres sejam ouvidas sem precisar provar o próprio amor.

O diagnóstico faz parte de sua história, mas não a resume. Como escreve no encerramento do poema: “Porque a minha história não termina no diagnóstico. A minha história continua em cada pessoa que eu acolho, em cada vida que eu ajudo a viver, e em cada vez que escolho transformar dor em cuidado, silêncio em voz e sobrevivência em vida!”

Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)

Estagiária em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dica de Entrevista:

Rosa Garcia

Instagram: @rosa_posithiva

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