The New York Times: Um repórter de destaque tinha aids. Ele queria fazer da epidemia sua pauta

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Jeffrey Schmalz escreveu, sem poupar palavras, sobre por que o socorro político e médico não chegaria a tempo de salvá-lo.

Eu estava lendo as críticas entusiasmadas ao impactante filme novo Elsinore, uma peça dentro de outra peça na qual Andrew Scott interpreta o ator escocês Ian Charleson, mais conhecido por Carruagens de Fogo. Em 1989, Charleson recebeu inesperadamente a oportunidade de interpretar Hamlet no National Theatre, em Londres, depois que Daniel Day-Lewis abandonou o palco no meio de uma apresentação e desistiu do papel. Charleson assumiu o personagem mais desafiador de Shakespeare enquanto morria de aids.

Pensei em Jeffrey Schmalz, editor e repórter do The New York Times que, em 1992, assumiu a tarefa de registrar a epidemia de aids para o jornal, mesmo enquanto a doença comprometia sua própria saúde. Antes de morrer, em 1993, aos 39 anos, Jeff escreveu de maneira comovente, mas sem suavizar a realidade, sobre por que o socorro político e médico não chegaria a tempo para salvá-lo.

O ator escocês e o jornalista americano tinham aproximadamente a mesma idade quando morreram, enquanto a aids avançava por Londres, Nova York e pela maioria das grandes cidades do mundo. Essas pessoas talentosas eram feitas de uma fibra mais resistente do que a minha. A última coisa que eu faria seria aceitar um trabalho dedicado à mortalidade enquanto estivesse sendo consumida por um monstro. Isso exigiu uma coragem extraordinária.

“Dormir, talvez sonhar. Aí está o obstáculo.” Jeff escreveu que tinha pesadelos em que acordava dentro de um caixão, embora ainda se agarrasse a uma pequena esperança: viver o suficiente para conhecer o tratamento milagroso.

Conheci Jeff quando comecei a trabalhar na editoria Metro do The Times, em 1983. Naquela época, ele era saudável e estava no auge, e eu me sentia intimidada. Todos percebiam que ele era inteligente, culto, elegante, mordaz, rápido e, às vezes, ríspido. Seu amigo e colega do Times, David Dunlap, retratou lindamente o lado irreverente e atrevido de Jeff em um discurso em sua homenagem.

Depois que Jeff deixou pela última vez o prédio do Times, na West 43rd Street, em 1993, David contou que todos continuaram “esperando que ele surgisse de repente em uma esquina da redação, caminhando saltitante em nossa direção, com as sobrancelhas arqueadas, o bigode eriçado e cantarolando um daqueles fragmentos vagos e eternamente inacabados de músicas de teatro. Ele estaria pronto para nos mergulhar no que quer que estivesse pensando, talvez distraído por um ou dois instantes por um rosto bonito do outro lado do salão, antes de perguntar, sem o menor constrangimento: ‘Onde eu estava mesmo?’”.

Jeff teve a gentileza de convidar a novata que eu era para um jantar com colegas em um restaurante sofisticado de Manhattan. Eram tantos pratos que eu mal conseguia acompanhar. Quando fui a Albany fazer uma reportagem, Jeff me ajudou. Como chefe da sucursal do The New York Times na capital do estado de Nova York, ele era uma presença imponente.

Na verdade, dominava boa parte da cobertura da Assembleia Legislativa estadual e enfrentava de igual para igual o governador Mario Cuomo, um político carismático, mas que podia ser suscetível e intimidador — características prejudiciais às suas ambições políticas. Jeff, um analista político perspicaz, justo e excelente repórter, documentou os conflitos do governador com a imprensa.

“Aprendi com ele a reagir, a não me deixar intimidar e a entender que tudo o que é dito pode ser registrado oficialmente”, afirmou Adam Nagourney, do The Times, que naqueles anos cobria Albany para o Daily News.

Essa postura ficou evidente quando Cuomo, irritado, acusou os repórteres de Albany de formarem uma “conspiração” para persegui-lo e fazê-lo “parecer mal”. Também falou em retaliar, cortando relações com um jornalista que o havia desagradado. Certa noite, o governador telefonou para Jeff em casa.

“Você queria me machucar e conseguiu”, rosnou para Jeff. “Espero que durma bem.”

Na manhã seguinte, segundo Jeff, “o governador de 54 anos ligou novamente para pedir desculpas, solicitando o perdão por ser ‘um velho com problemas nas costas’”.

Em outras palavras, Jeff parecia o jornalista ideal para o Times, alguém destinado a se tornar editor-chefe um dia. Eu, por outro lado, me sentia inadequada, sem um currículo prestigioso ou diploma de uma universidade da Ivy League. Ficava angustiada tentando descobrir como me vestir adequadamente para trabalhar no The Gray Lady, como o jornal é conhecido, e acabei usando, no meu primeiro dia na redação, um suéter estilo preppy com um pato estampado. Ainda sinto vergonha quando penso nisso.

Só depois que ele morreu percebi que Jeff também não havia seguido um caminho fácil até o Times. Ele era de Willow Grove, um subúrbio ao norte da Filadélfia. Quando tinha 2 anos, seus pais se separaram; seu pai era alcoólatra. Sua mãe conseguiu emprego na loja de departamentos Sears e criou Jeff e sua irmã, Wendy, com a ajuda dos próprios pais e irmãos. Jeff ingressou na Universidade Columbia com uma bolsa de estudos. Assim como eu havia trabalhado no turno da noite como funcionária administrativa no The Washington Star, Jeff trabalhava à noite como auxiliar de redação no Times. Abandonou a faculdade quando foi promovido a editor de texto.

Os homens gays talentosos que me cercavam na redação do Times mantinham sua orientação sexual escondida em diferentes graus, devido ao desconforto de Arthur Ochs “Punch” Sulzberger, o editor responsável pelo jornal, e de Abe Rosenthal, o editor-chefe, em relação aos homossexuais. Rosenthal proibiu o uso da palavra “gay” no Times — regra revogada somente depois que Max Frankel assumiu o comando, em 1986 —, e o jornal demorou a dar aos direitos da população gay e à aids a cobertura que mereciam.

Como Adam Nagourney revelou em sua excelente história do jornal, The Times: How the Newspaper of Record Survived Scandal, Scorn, and the Transformation of Journalism, Rosenthal escreveu em seu diário que contrataria um homossexual para trabalhar como crítico, mas não o colocaria em uma editoria sensível, como as de defesa ou da prefeitura.

“O grupo de homossexuais era um problema”, escreveu Rosenthal, “porque geralmente funcionava às escondidas, criando uma atmosfera de conspiração, e porque os homossexuais desse grupo sempre estavam convencidos — ou tentavam convencer a si mesmos — de que eram mais sábios, mais perspicazes e ‘melhores’ do que os outros, a velha geração”.

Arthur Sulzberger Jr., filho de Punch e amigo de Jeff, concordou comigo que Jeff parecia representar o que havia de melhor em um jornalista do Times.

“Sempre achei que ele representava muitas das melhores qualidades do Times — da integridade jornalística ao compromisso de garantir que nosso trabalho fosse detalhado e preciso”, disse Sulzberger. “Além disso, era um colega adorável.”

A maior tristeza, acrescentou, era que Jeff havia trabalhado conosco em uma época em que precisava esconder boa parte da vida pessoal para proteger a carreira. “É uma bênção que aqueles dias tenham ficado para trás.”

Jeff contou aos amigos que lamentava ter permanecido tanto tempo no armário, embora sua homossexualidade fosse relativamente conhecida.

“Jeff não escondeu quem era apenas nos anos 1970, quando o ambiente social no Times era tão acolhedor quanto uma cratera de bomba”, disse Dunlap. “Ele continuou fazendo isso durante os anos 1980, embora, naquela década, a nova liderança já incentivasse lésbicas e gays que trabalhavam no jornal a acreditar que não eram apenas tolerados, mas bem-vindos.”

Como Dunlap relatou, Jeff pediu desculpas: “Cheguei muito tarde a essa luta e carreguei uma culpa imensa por isso. Sinto muito.”

Depois de sofrer uma convulsão na redação, em 1990, e descobrir que tinha aids, Jeff voltou transformado. Pediu a Frankel autorização para escrever sobre aids e questões relacionadas à população gay e tornou-se um pioneiro — tanto para o Times quanto para o jornalismo.

Adam Moss sentava-se ao lado de Jeff, em uma espécie de “pequeno gueto gay na redação”, quando ele voltou após o colapso. “Fui testemunha de como ele abandonou qualquer vestígio da neutralidade que havia mantido durante a carreira. Ficou mais indignado e apaixonado pelo que estava acontecendo com ele”, contou Moss.

“Eu admirava sua capacidade de estar furioso e, ao mesmo tempo, cheio de energia, enquanto sua vida se aproximava do fim.”

Na época, eu não tinha certeza se a combinação de ativismo e jornalismo daria certo. Era algo que o jornal nunca havia permitido e que ainda hoje não permite. Jeff também tinha dúvidas. Sabia que a indignação dos ativistas refletia a sua própria.

“Agora vejo o mundo pelo prisma da aids”, escreveu em um artigo para o Times intitulado Covering AIDS and Living It: A Reporter’s Testimony — “Cobrir a aids e viver com ela: o testemunho de um repórter”.

“Sinto a obrigação de escrever sobre o assunto em respeito às pessoas com aids e, ao mesmo tempo, a obrigação de oferecer ao jornal uma cobertura que quase nenhum outro repórter nos Estados Unidos consegue fazer exatamente da mesma maneira.”

“Algumas pessoas acham que o jornalismo é prejudicado, que a objetividade é abandonada. Mas estão erradas. Se os repórteres tiverem alguma integridade, são eles que sofrem, presos entre duas lealdades.”

Jeff tentou recuperar o tempo perdido. Ao lado de Randy Shilts, autor de And the Band Played On, que cobria a epidemia para o San Francisco Chronicle, tornou-se uma das principais referências e um dos rostos mais conhecidos da cobertura sobre a aids.

“Ter aids é estar sozinho, independentemente de quantos amigos e familiares estejam ao redor”, escreveu Schmalz.

Ele passava os dias conversando com cientistas, políticos e outras pessoas que viviam com HIV e aids — às vezes celebridades como Magic Johnson e Elizabeth Glaser. Falavam sobre o medo da morte, o monitoramento constante das células T, o receio de que cada resfriado pudesse ser aquele que acabaria com suas vidas, a humilhação de serem tratados como párias e a revolta diante da lentidão na busca por uma cura.

Depois, Jeff voltava para seu apartamento no Upper West Side e enfrentava sua própria montanha-russa de “horror, esperança, esperança, horror”, além do medo de não acordar na manhã seguinte.

Jeff reconheceu esse temor no artigo, que escreveu febrilmente enquanto suas próprias febres voltavam:

“Enquanto escrevo isto, sinto-me cansado, mas lúcido. O AZT está funcionando por enquanto. A infecção cerebral, embora tenha diminuído, ainda está presente e deixa os dedos da minha mão direita rígidos e desajeitados no teclado. Uso um gravador; minha memória de curto prazo já não é a mesma.”

Uma das primeiras reportagens que escrevi para o Times, em 1983, tratava de um programa de apoio criado pela Gay Men’s Health Crisis, organização que recrutava voluntários para visitar pacientes com aids em estado terminal nos hospitais — pessoas frequentemente abandonadas por amigos e familiares.

Entrevisei Larry Kramer, escritor e ativista da luta contra a aids, em seu apartamento no Greenwich Village.

Kramer, que posteriormente escreveu The Normal Heart, peça teatral que depois virou filme sobre os primeiros anos da epidemia, leu para mim os nomes de 37 amigos que haviam morrido. Todos estavam registrados em um pequeno caderno verde.

“Não é possível fazer alguma coisa?”, lamentou. “O resto da cidade, meus amigos heterossexuais, continua vivendo normalmente, enquanto eu estou no meio de uma epidemia. Estamos morrendo. Por que isso está acontecendo? É porque nos amamos demais ou de menos? Simplesmente não sei.”

Pensei em assumir a cobertura da aids porque o jornal não parecia estar dando atenção suficiente à tragédia, embora ela estivesse devastando Nova York. Mas acabei sendo designada para Washington, onde o assunto também recebia pouca atenção.

Como muitos outros homens gays e mulheres lésbicas, vários dos quais despertaram de sua apatia política, Jeff depositou grandes esperanças em Bill Clinton, que mencionou a aids em seu discurso de vitória em 1992. Mas, depois do fiasco da política militar “Don’t Ask, Don’t Tell” — “Não pergunte, não conte”, que restringia a participação de militares gays assumidos nas Forças Armadas americanas —, Clinton passou a agir com cautela em relação às questões da população gay. Jeff, por sua vez, também começou a desconfiar do presidente.

Jeff também tinha uma visão perspicaz sobre Tony Fauci.

“Ser o principal representante do governo na luta contra a aids tornou Tony Fauci — cujo sobrenome rima com ‘ouch’, em inglês — famoso”, escreveu Jeff. “Ele afirma ser exclusivamente um cientista. Na realidade, é também uma estrela e um político: em um ano, defende como suficientes as modestas propostas orçamentárias para a aids dos governos Reagan e Bush; no seguinte, defende como necessárias as generosas propostas de Clinton.

“Ele é inimigo dos ativistas — ‘Assassino!’, como Kramer o chamou certa vez em um artigo publicado no The Village Voice. Mas também é amigo dos ativistas, um companheiro de luta que apareceu em outubro passado na estreia da peça de Kramer usando uma fita vermelha contra a aids.”

Em seu último artigo, Jeff admitiu que estava amargurado.

“Estou morrendo”, escreveu. “Por que ninguém nos ajuda?”

“Vamos encarar a realidade: um milagre não vai acontecer”, continuou. “Em breve, simplesmente me tornarei uma das 90 pessoas nos Estados Unidos que morrerão de aids naquele dia.”

“É como saber que serei atropelado por um carro em alta velocidade, sem saber quando nem onde.”

Moss e Nagourney ajudaram a organizar aquele contundente artigo final enquanto Jeff estava à beira da morte. O texto foi publicado na revista do Times em novembro de 1993, depois que ele já havia falecido.

“Teve um impacto significativo porque sua expressão era profundamente pessoal e comovente”, disse Moss.

O coquetel de medicamentos contra a aids que salvaria tantas vidas ainda demoraria dois anos para chegar. Jeff foi o último amigo com HIV que perdi antes da chegada desse tratamento, e isso foi terrível.

“Costumo dizer que meu epitáfio não é uma frase, mas o conjunto da minha obra”, escreveu. “Estou escrevendo esse epitáfio a cada artigo, inclusive neste. Mas, na verdade, há uma frase que quero ouvir aos gritos no meu funeral e ver escrita nos cartões em minha homenagem. Uma frase que resume a mistura de cinismo e desespero que sinto agora e que quase certamente levarei para o túmulo: O que aconteceu com a aids?”

Agora chegamos a um momento em que os diagnósticos de HIV em Nova York registram um pequeno aumento, principalmente em bairros de baixa renda. Ao reler as reportagens contundentes e esclarecedoras de Jeff, marcadas por uma apuração extraordinária e por uma quantidade surpreendentemente pequena de autopiedade, sinto orgulho dele.

Enquanto outros recuavam, constrangidos e assustados, ele documentava o desespero, os fracassos, a covardia, a coragem, a honestidade e a negação daqueles anos de epidemia, construindo um registro monumental daquele período.

Ele deixou um grito de indignação vindo de um coração partido, que continua ecoando no presente: é preciso prestar atenção.

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