
22/07/2014 – 04h
De cada 100 dólares voltados para a prevenção do HIV apenas 1 é destinado aos trabalhadores do sexo, de acordo com a ativista Elena Jeffreys, da Scarlet Alliance, uma organização australiana de trabalhadores do sexo. A falta de investimento entre essa comunidade faz com que o grupo tenha 14 vezes mais chances de contrair HIV quando comparado as mulheres em geral. Os dados são da Organização Mundial da Saúde .
Diante dessa realidade, a revista "The Lancet", uma das mais importantes publicações científicas do Reino Unido, resolveu fazer um número específico sobre trabalhadores do sexo. A revista foi lançada na 20ª Conferência Internacional de Aids e, segundo Chris Beyrer da Johns Hopkins, pretende chamar atenção da comunidade científica e de formuladores de políticas para essa população que vem sendo negligenciada nos últimos anos.
Apesar de ser uma das primeiras comunidades afetadas pelo HIV, ao lado de homens que fazem sexo com homens (HSH) e usuários de drogas, a ausência de dados sobre a epidemia nesta população chama atenção. “Dos 192 países que tem dados consolidados sobre HIV/aids, apenas 27 tem informações sobre a doença entre esse grupo. Outro problema é que quando há informação elas são em geral relacionadas às mulheres trabalhadoras do sexo. Temos poucos dados sobre o impacto do HIV entre os trabalhadores do sexo masculinos e menos ainda dos transexuais”, afirmou Jennifer Butler, uma das autoras da publicação.
A situação da epidemia entre as profissionais do sexo na África é alarmante. Mais de 50% das trabalhadoras do sexo infectadas pelo HIV estão na África Subsaariana e 92% das mortes relacionadas ao vírus da aids entre as profissionais do sexo, acontecem nessa parte do planeta.
A ausência de trabalhadores do sexo nos estudos científicos sobre as novas ferramentas para prevenir a infecção como: a profilaxia pré-exposição, PrEP; o tratamento como prevenção (a administração imediata de ARV independentemente de Cd4 e Carga Viral) e os microbicidas vaginais; é inaceitável, segundo Linda Gail Bekker, da Universidade da Cidade do Cabo, na África do Sul.
Por último, a publicação chama atenção dos governos para descriminalizar o trabalho sexual. “Se quisermos diminuir a infecção do HIV nessa população é preciso acabar com a criminalização dessa que é uma das atividades profissionais mais antigas. Essa leis representam uma violação aos direitos humanos”, afirmou Anna-Louise Crago, ativista, escritora e militante pelos direitos dessa população e autora de um dos artigos do The Lancet.
Anna-Louise enfatizou a importância do empoderamento das trabalhadoras do sexo para diminuir a doença e a violência entre esse grupo.
Global Village- Sexworker Zone
O Sexworker Zone é uma área dentro do Global Village em que organizações de trabalhadores do sexo de 30 países estão fazendo ações para sensibilizar os participantes da 20ª Conferência Internacional de Aids para a descriminalização da prostituição. “Nós sabemos que o fim da criminalização impacta positivamente na epidemia de HIV entre essa população, pois diminui a violência e melhora o acesso aos serviços de saúde e ações de prevenção”, explica Janelle Fawkes, da Associação Austrália de Trabalhadores do sexo.
No dia 25 de julho será exibido no Sexworker Zone o documentário `Um Beijo para Gabriela`’, que registra a campanha de Gabriela Leite, fundadora da Daspu e candidata a deputada federal, em 2010. Gabriela Leite, falecida em outubro de 2013, foi a primeira prostituta a concorrer a um mandato no Congresso Nacional brasileiro.
Conheça oito mitos sobre trabalhadores do sexo:
Todos os trabalhadores do sexo são mulheres
Todos os trabalhadores do sexo são solteiros
A maioria dos trabalhadores do sexo não quer ter filhos e tenta evitar a gravidez
Todos os trabalhadores do sexo são traficados ou coagidos
O trabalho sexual é ilegal e por isso programas não podem ser implementados
Trabalho sexual não é um trabalho
Leis contra a venda de sexo, a compra de sexo ou possuir um bordel previne o tráfico e reduz o trabalho sexual
Marina Pecoraro, de Melbourne (Austrália)
A Agência de Notícias da Aids cobre a Conferência na Austrália com o apoio do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais e do Programa Municipal de DST/Aids de São Paulo


