Em todos esses tempos você veria diferenças entre as pessoas que entenderia como homens e mulheres
Imagine que você tenha uma máquina do tempo e possa viajar para qualquer civilização da história. Talvez você voltasse à Atenas Antiga ou a um mosteiro na Idade Média. Ou poderia se misturar aos guerreiros hititas antes de uma batalha na Anatólia da Idade do Bronze, região que hoje corresponde à Turquia.
Em todos esses tempos e lugares, você veria diferenças entre as pessoas que, de modo geral, entenderia como homens e mulheres. Veria uma variedade de roupas, penteados, formatos corporais e outros indicadores de gênero nessas diferentes culturas.
Mas, se perguntasse a qualquer pessoa desses períodos o que é essencial para ser homem ou mulher, se um homem poderia se tornar mulher e vice-versa, ou se existiria algum tipo de ser humano além de homens e mulheres, receberia respostas diferentes dependendo de quem consultasse.
E não apenas um monge medieval do século XIII responderia de forma diferente de um guerreiro hitita de 2.500 anos antes. Mesmo dentro de uma única cidade, pessoas com diferentes profissões, papéis sociais ou formas de pensar poderiam responder de maneiras distintas.
O interessante é que, onde quer que existam evidências de fronteiras de gênero em sociedades antigas, também existem evidências de pessoas que cruzavam essas fronteiras. Na verdade, desde que existem seres humanos, existem pessoas que hoje chamaríamos de transgênero.
Nós dois somos professores de Estudos Clássicos, área dedicada ao estudo das culturas da Grécia e de Roma antigas. Nick é especialista em matemática e ciência da Grécia Antiga, enquanto Ky se dedica à história do gênero e das categorias de gênero na Grécia e em Roma. Por isso, vamos nos concentrar principalmente na Grécia Antiga e nas regiões próximas ao refletir sobre pessoas trans em civilizações do passado.
Definindo os termos
O fato de a capacidade de cruzar, borrar ou redefinir as fronteiras de gênero existir desde a Antiguidade não significa que os povos antigos entenderiam o termo “transgênero” da mesma forma que as pessoas o entendem hoje. Atualmente, essa palavra se refere a alguém que foi identificado como menino ou menina ao nascer, mas que posteriormente concluiu que não correspondia à classificação que lhe foi atribuída.
Junto dessa definição vem todo um conjunto de ideias sobre o que significa ser menino ou menina. O formato do corpo, os hormônios presentes nele, os cromossomos e a forma como tudo isso influencia o comportamento e a maneira como as pessoas são tratadas passaram a fazer parte da noção contemporânea de gênero.
Mas, antes da descoberta dos hormônios, em 1849, e do DNA, em 1869, as pessoas pensavam sobre gênero — e, consequentemente, sobre ser transgênero — de forma bastante diferente.
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Gênero na Antiguidade
Aristóteles, filósofo grego que escreveu no século IV a.C., distinguia homens e mulheres, em parte, pela quantidade de calor e umidade que supostamente possuíam em seus corpos.
Já Isêu, advogado grego da mesma época, descrevia homens e mulheres de acordo com os diferentes privilégios que possuíam perante a lei.
Mas sempre existiram grupos de pessoas que não se encaixavam facilmente nessas categorias. Autores antigos utilizavam diversas palavras para se referir a elas, como hermafrodita, eunuco, andrógino, tríbade, malthakos e outras. Muitos desses termos eram usados como insultos e eram — e continuam sendo — extremamente ofensivos. Outros, porém, refletem a dificuldade de categorizar pessoas que não se enquadram facilmente nas classificações convencionais.
No século V a.C., dois autores gregos — Heródoto, conhecido como o pai da História, e Hipócrates, considerado o pai da Medicina — escreveram sobre um grupo chamado Anarieis, oriundo da Cítia, um vasto território antigo ao norte e a oeste do Mar Negro que atualmente corresponderia a partes da Ucrânia e da Rússia. As descrições que fizeram sobre o gênero dos Anarieis são semelhantes à forma como muitas pessoas descrevem mulheres trans atualmente. Seus relatos são reforçados pelo que antropólogos e arqueólogos sabem hoje sobre a Cítia e os Anarieis.
Voltando à Idade da Pedra
Também é possível encontrar evidências de pessoas trans em períodos ainda mais antigos da história. Em março de 2026, arqueólogos publicaram um estudo sobre 125 sepultamentos pertencentes a uma civilização da Idade da Pedra localizada na atual Hungria. A pesquisa sugere que, há cerca de 7 mil anos, as pessoas já podiam atravessar fronteiras de gênero.
Os arqueólogos utilizaram evidências de DNA e a análise dos esqueletos para estimar qual gênero essas pessoas provavelmente receberiam se tivessem nascido na era moderna. Eles classificaram 64 indivíduos como femininos e 52 como masculinos.
De modo geral, a análise mostrou diferenças claras entre a forma como os indivíduos classificados como femininos e masculinos viviam, trabalhavam e eram enterrados. No entanto, alguns esqueletos revelavam modos de vida, atividades e práticas funerárias que contrariavam o gênero atribuído pelos pesquisadores.
Um dos esqueletos classificados como feminino, por exemplo, foi enterrado com ferramentas de pedra normalmente associadas aos indivíduos classificados como masculinos e apresentava marcas de esforço físico mais semelhantes às encontradas nos esqueletos masculinos do que nos femininos.
Então esses arqueólogos encontraram um homem trans de 7 mil anos? A resposta depende do ponto de vista. É impossível afirmar com certeza como aquela pessoa da Idade da Pedra compreendia o gênero ou o seu próprio lugar na sociedade. Também é difícil, olhando a partir de 2026, determinar se ela se sentia ou era tratada da mesma forma que os homens com quem aparentemente trabalhava.
Mas, considerando o que os antropólogos sabem sobre essa sociedade, existiam formas de vida consideradas normais para cada gênero, e essa pessoa não seguiu o caminho esperado. Isso é algo com que muitas pessoas trans podem se identificar. Portanto, embora seja impossível saber como ela se descreveria, a noção contemporânea de transgeneridade é ampla o suficiente para incluí-la.
Tudo isso mostra que ninguém jamais saberá quem foi a primeira pessoa trans da história, porque nunca existiu apenas uma. Havia pessoas que hoje consideraríamos trans no Egito Antigo, na China Imperial e entre os maias. Pessoas trans faziam parte da comunidade humana naquela época, assim como sempre fizeram ao longo da história.
* Ky Merkley especialista Sênior em Tecnologia da Informação, University of Illinois Urbana-Champaign e Nick Winters professor Assistente de Estudos Clássicos, Northwestern University.
* Este artigo foi republicado de The Conversation. Leia o artigo original.




