Coinfecção pode acelerar danos ao fígado, mas vacinação, diagnóstico precoce e tratamento disponível no SUS reduzem riscos e garantem melhor qualidade de vida
Receber o diagnóstico de HIV traz uma série de cuidados que vão além do controle da carga viral. Entre eles, está a realização dos testes para hepatites virais, especialmente as hepatites B e C, que compartilham com o HIV as principais formas de transmissão, como relações sexuais desprotegidas e o contato com sangue contaminado.
Embora muitas pessoas associem o acompanhamento do HIV apenas ao tratamento da infecção, especialistas alertam que a saúde do fígado também merece atenção. Isso porque a coinfecção entre HIV e hepatites virais pode acelerar a evolução das doenças hepáticas quando não é identificada e tratada precocemente.

Segundo a médica infectologista Dra. Aline Carralas Leão, que atua em assistência médica, pesquisa clínica e educação para promoção da saúde e prevenção de doenças infecciosas, a investigação das hepatites deve fazer parte da avaliação inicial de toda pessoa que recebe o diagnóstico de HIV.
“As formas de transmissão são semelhantes. Quem esteve exposto ao HIV também pode ter sido exposto aos vírus das hepatites B ou C. Além disso, essas infecções costumam permanecer silenciosas durante muitos anos. Descobrir a coinfecção precocemente é fundamental para definir o tratamento adequado e proteger o fígado.”
A especialista destaca ainda que os testes rápidos para hepatites estão disponíveis gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS), assim como a testagem para o HIV.
Diagnóstico deve funcionar nos dois sentidos
A recomendação também vale para quem recebe o diagnóstico de hepatite B ou hepatite C. Segundo a infectologista, toda infecção transmitida por via sexual ou pelo sangue deve servir de alerta para investigar outras infecções.
“Quando uma pessoa descobre uma hepatite viral, também deve realizar o teste para HIV. Esse cuidado permite um diagnóstico mais completo e garante que o tratamento seja iniciado o quanto antes.”
O que é a coinfecção?
A coinfecção ocorre quando uma pessoa convive simultaneamente com o HIV e um ou mais vírus causadores de hepatites virais.
As hepatites B e C são as mais frequentemente associadas ao HIV justamente porque utilizam as mesmas vias de transmissão. Sem tratamento, essa associação pode favorecer uma progressão mais rápida dos danos ao fígado.
“O HIV compromete o sistema imunológico e isso facilita a multiplicação dos vírus das hepatites. Como consequência, aumenta o risco de cirrose, insuficiência hepática e câncer de fígado.”
Apesar disso, a especialista ressalta que a coinfecção não significa, necessariamente, uma evolução desfavorável. “Com diagnóstico precoce e tratamento adequado, é possível proteger o fígado e proporcionar qualidade de vida.”
Vacinação também faz parte do cuidado
Além da testagem, a vacinação é uma das principais estratégias de prevenção para pessoas vivendo com HIV.
No SUS, a vacina contra hepatite B está disponível gratuitamente para toda a população. Já a vacina contra hepatite A é oferecida às pessoas vivendo com HIV e a outros grupos específicos por meio dos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE).
Segundo Dra. Aline, pessoas vivendo com HIV seguem um esquema diferenciado para a vacinação contra hepatite B.
“Esse público deve receber um esquema com dose dobrada da vacina, totalizando quatro aplicações. Depois da vacinação, recomenda-se realizar o exame anti-HBs para verificar se houve produção adequada de anticorpos.”
Tratamento moderno reduz riscos
O tratamento da coinfecção evoluiu significativamente nos últimos anos. Alguns medicamentos utilizados na terapia antirretroviral, como o tenofovir, também atuam contra o vírus da hepatite B, permitindo controlar as duas infecções simultaneamente. Já a hepatite C conta com tratamento específico por meio dos antivirais de ação direta.
“Hoje o tratamento é feito com comprimidos, dura cerca de 12 semanas, apresenta poucos efeitos colaterais e alcança taxas de cura superiores a 95%, inclusive em pessoas vivendo com HIV.”
Acompanhamento vai além da carga viral
Durante o acompanhamento clínico, a saúde do fígado também deve ser monitorada regularmente.
Além dos exames relacionados ao HIV, podem ser solicitadas avaliações das enzimas hepáticas, sorologias para hepatites, ultrassonografia abdominal e, quando necessário, elastografia hepática, exame capaz de identificar o grau de fibrose do fígado sem necessidade de biópsia.
Hábitos saudáveis também fazem diferença. Evitar bebidas alcoólicas, manter uma alimentação equilibrada, controlar o peso, não compartilhar objetos perfurocortantes e evitar a automedicação são medidas que ajudam a preservar o funcionamento do fígado.
Mitos ainda dificultam a prevenção
A especialista também chama atenção para informações equivocadas que ainda circulam sobre o tema.
Um dos mitos mais frequentes é acreditar que quem faz tratamento para o HIV está automaticamente protegido contra todas as hepatites.
“O tratamento do HIV não impede que a pessoa adquira hepatite A ou hepatite C. Por isso, a vacinação, o uso de preservativos e a testagem periódica continuam sendo fundamentais.”
Outro equívoco comum é imaginar que a coinfecção inevitavelmente levará à cirrose.
“Isso não é verdade. Hoje temos tratamentos eficazes tanto para o HIV quanto para as hepatites, capazes de evitar complicações quando iniciados precocemente.”
Um cuidado integral
Para Dra. Aline Carralas Leão, cuidar da saúde de quem vive com HIV significa olhar além do controle da infecção.
“Cuidar da saúde de quem vive com HIV vai muito além de acompanhar a carga viral. O fígado é responsável por processar, inclusive, os medicamentos que garantem a qualidade de vida dessas pessoas. Prevenir as hepatites com vacinação, uso de preservativos e realização periódica dos testes é um ato indispensável de autocuidado.”
Ela reforça que tanto a vacinação quanto a testagem para hepatites virais estão amplamente disponíveis no SUS e devem fazer parte da rotina de cuidado das pessoas vivendo com HIV, contribuindo para um acompanhamento mais completo e uma melhor qualidade de vida.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
Dra. Aline Carralas Leão
@dra.alinecarralas




