TESTE DE HIV DE FARMÁCIA DESCARTA ACONSELHAMENTO MÉDICO

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Kit para teste de HIV. Foto: Calypte Biomedical Corporation

14/2/2007 – 15h00

A presença de anticorpos contra o HIV na saliva já pode ser detectada em casa, sem ajuda de profissionais, como um teste de gravidez comprado em farmácia. Isso já começou a ser feito nos Emirados Árabes, África do Sul, Uganda e Quênia. A Inglaterra, onde cerca de 31% da população desconhece sua condição de soropositivo, estuda a possibilidade de aprovar o teste. Segundo a assessoria de comunicação do Programa Nacional de DST e Aids no Brasil, esse tipo de teste não está nos planos nacionais por desconsiderar o aconselhamento de pacientes que venham a obter resultados positivos. “A testagem de HIV não pode ser encarada como a da gravidez, que não é uma patologia”, enfatiza Mariângela Simão diretora do Programa.

A Calypte Biomedical Corporation, responsável pela fabricação e distribuição dos testes, garante que o resultado do teste pode ser obtido em cerca de 20 minutos com precisão de 99,9% e 100% de sensibilidade para detecção dos vírus HIV-1 e HIV-2. A empresa norte-americana, no entanto, só está autorizada a vender seu kit fora de seu país de origem e batalha para consegui aprovação da Agência de Controle de Alimentos e Medicamentos norte-americana (FDA), o que lhe asseguraria um mercado promissor. Faltam ainda estudos científicos que comprovem a eficácia do produto divulgada pela empresa.

Alguns especialistas defendem que o novo teste poderia aumentar a cobertura de diagnóstico, prevenindo novas infecções do vírus, além de dar conforto ao usuário por não precisar coletar sangue e oferecer anonimato. Outros, porém, preocupam-se com o impacto que os resultados positivos ou mesmo falso-positivos poderiam gerar nos usuários do kit que, na privacidade de seus lares, não seriam amparados por profissionais de saúde para lidar com sua condição. O infectologista da Unicamp lembra também que os consumidores do kit, sem informação, poderiam realizar o teste na farmácia logo após ocorrer a infecção do vírus. Neste período, conhecido por janela imunológica, que varia de 6 a 12 semanas após ocorrer a infecção do HIV, o soropositivo ainda não possui grande quantidade de anticorpos (detectados pelo exame) e sim de vírus. Conseqüentemente, “poderia induzir o aumento do risco de contrair Aids”, alarma Rogério de Jesus, referindo-se a possibilidade do paciente não prevenir a transmissão do vírus.

Inadequado ao Brasil

“Esse teste não se aplica bem ao Brasil”, acredita Rogério de Jesus. Isso porque o Programa Nacional de DST e Aids oferece testes gratuitos à população e, sobretudo, com aconselhamento médico e psicológico para os novos casos de soropositivos. Até mesmo os testes anônimos, em que o usuário recebe um número ao invés de dar seu nome, pressupõe o aconselhamento. Já a auto testagem, acredita o especialista, poderia ter seu resultado mal interpretado pelo usuário, gerar um falso-positivo e criar sérios problemas. “Medidas preventivas não envolvem só a necessidade de se fazer o teste, mas sobretudo a educação”, defende.

A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que em 2006 o Brasil possuía cerca de 620 mil soropositivos, dos quais 66% não sabiam que eram portadores do vírus. Já de acordo com os dados do Programa Nacional de DST e Aids, até 2004 cerca de 32% da população havia sido testada para HIV, sendo que no ano passado foram realizados 4,5 milhões de testes. “É nosso interesse que as pessoas tenham acesso ao diagnóstico de forma rápida e sem burocracias”, afirma a diretora do Programa, enfatizando que quando mais cedo a condição de soropositivo for conhecida, mais eficiente será o tratamento.

A exemplo do que ocorre em outros países, o Brasil possui testes de rápida detecção (cerca de 30 minutos) de HIV por meio de amostras de sangue, mas que ainda assim são aplicados por profissionais de saúde em populações com difícil acesso ao sistema de saúde, ou gestantes no momento do parto para evitar a transmissão vertical (da mãe para o bebê). Nos EUA, a FDA aprovou, em 1996, um kit para auto-testagem de anticorpos contra HIV que requer a coleta de uma amostra de sangue. O usuário, identificado por um número, envia o material para um laboratório e recebe o resultado por meio de um profissional de saúde que oferece o aconselhamento médico. No entanto, é preciso estar atento para o enorme rol de auto-testes que a Internet oferece, falsamente aprovados pela FDA e com qualidade duvidosa (veja lista de testes aprovados pela Agência norte-americana).

Em artigo publicado no último dia 20 no periódico britânico The Lancet (vol.369), Lucy Frith, do Departamento de Cuidados Primários da Universidade de Liverpool, pede uma urgente revisão da política governamental inglesa em relação a auto-testagem para HIV, proibida desde 1992. “Se os profissionais de saúde acreditam na autonomia do paciente, as pessoas devem poder escolher onde, quando e como serão testados para HIV”, defende a especialista, que vê na aprovação dos testes de farmácia a chance de melhor a confiabilidade dos testes e o número de diagnósticos. O debate está apenas começando.

HIV na saliva?

Um dos mitos que persistem em relação à Aids é que o vírus HIV estaria presente na saliva em quantidades suficientes para ser transmitido através do beijo ou mesmo do compartilhamento de talheres, copos e alimentos. Rogério de Jesus Pedro, da Unicamp, esclarece que saliva de soropositivos contém grandes quantidades de anticorpos contra HIV, mas baixa carga viral. É por esse motivo que o kit de testagem rápida para HIV utiliza amostras de saliva para detectar, não o vírus, mas a presença de anticorpos contra o HIV (como ocorre na maioria dos testes). Conseqüentemente, a saliva não é um local seguro para o vírus estar presente.(Germana Barata)

Fonte: www.comciencia.br

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