Testagem nas ruas, educação e redes comunitárias marcam debate sobre o futuro da resposta ao HIV em São Paulo

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Organizações da sociedade civil se reuniram em colóquio do Mopaids para discutir prevenção, desafios de financiamento e o papel das iniciativas comunitárias no enfrentamento da epidemia

Em meio às fortes chuvas que atingiram São Paulo na tarde de 11 de março, cerca de 20 ativistas, profissionais de saúde e representantes de organizações da sociedade civil se reuniram na sede do Grupo de Incentivo à Vida (GIV), na Vila Mariana, para discutir os desafios atuais da resposta ao HIV no Brasil.

O encontro, organizado pelo Movimento Paulistano de Luta contra a Aids (Mopaids), reuniu representantes de entidades que atuam há décadas no enfrentamento da epidemia, entre elas o Instituto Cultural Barong, o Movimento Nacional das Cidadãs Positivas, o Grupo Pela Vidda São Paulo, a Casa de Assistência Filadélfia, o Instituto Vida Nova e a Associação de Auxílio à Criança e Adolescente Portadora de HIV (AACPHIV).

Os participantes destacaram a importância de manter espaços de articulação entre organizações da sociedade civil que atuam na prevenção, no cuidado e na defesa de direitos das pessoas vivendo com HIV.

Ao longo do encontro, experiências de testagem comunitária, projetos voltados a jovens vivendo com HIV e iniciativas de articulação territorial mostraram como o trabalho das organizações segue sendo central para alcançar populações que muitas vezes ficam fora do alcance dos serviços tradicionais de saúde.

Testagem nas ruas

Uma das experiências apresentadas foi a do Instituto Cultural Barong, organização que há três décadas atua com prevenção ao HIV em São Paulo. A coordenadora e fundadora do instituto, Marta McBritton, apresentou o projeto de testagem extramuros desenvolvido pela entidade, que leva testes rápidos de HIV e orientação sobre prevenção para ruas, festas e eventos.

Segundo ela, a iniciativa surgiu da necessidade de levar o debate sobre sexualidade e prevenção para além dos serviços de saúde. “A nossa abordagem sempre foi centrada no prazer. A gente fala de sexo na rua, literalmente”, disse.

O trabalho é realizado por meio de uma unidade móvel de testagem que circula pela cidade. Em alguns casos, as ações acontecem durante a madrugada, em festas e eventos frequentados principalmente por homens que fazem sexo com homens.

“A gente monta a van às 23h e fica até cinco da manhã”, relatou Marta. “É um ambiente em que as pessoas estão vivendo a sexualidade com mais liberdade e acabam se sentindo mais à vontade para conversar.”

Segundo ela, o contexto informal favorece o diálogo aberto sobre práticas sexuais e prevenção. “As pessoas chegam e contam tudo da vida sexual delas. Isso nem sempre acontece em um serviço de saúde.”

Nos últimos anos, o trabalho também passou a lidar com novas dinâmicas da sexualidade contemporânea, como o uso de substâncias psicoativas em contextos sexuais, prática conhecida como sexo químico. “Tem gente que administra isso de forma muito consciente”, afirmou.

Desde a criação da unidade móvel, o Barong já realizou mais de 600 ações de prevenção e testagem em diferentes pontos da cidade.

Burocracia e falta de recursos

Apesar dos resultados, as organizações enfrentam dificuldades para manter esse tipo de trabalho. Segundo Marta, a realização de ações de testagem nas ruas exige autorizações prévias da prefeitura e envolve custos operacionais que nem sempre são cobertos por editais públicos.

“Para colocar a van na rua precisamos pedir autorização com 30 dias de antecedência e pagar taxas”, explicou.

Ela também criticou a forma como muitos editais de financiamento são estruturados. “Em vários editais você não pode pagar enfermeiro, não pode pagar gasolina, não pode pagar estacionamento da van. Então como você mantém uma unidade móvel funcionando?”

Para as organizações, a falta de financiamento adequado limita a capacidade de ampliar ações de prevenção comunitária. “Nossa equipe permitiria fazer três vezes mais ações do que fazemos hoje”, afirmou.

O desafio da adolescência

Outro tema discutido no encontro foi o cuidado com jovens que vivem com HIV. A infectologista Marinella Della Negra apresentou a experiência da Associação de Auxílio à Criança e Adolescente Portadora de HIV, criada no final dos anos 1980, quando muitas crianças eram infectadas por transmissão vertical.

Naquele período, o cenário era marcado pela falta de tratamento eficaz e pela alta mortalidade infantil.

Com o avanço das terapias antirretrovirais, muitas dessas crianças cresceram e chegaram à adolescência — o que trouxe novos desafios para os serviços de saúde. “A adolescência é um momento em que muitos jovens deixam de tomar o remédio”, explicou.

Para enfrentar o problema, a associação passou a investir em programas de incentivo à educação. A iniciativa apoia jovens vivendo com HIV que ingressam em universidades ou cursos profissionalizantes, ajudando a custear mensalidades e outras despesas relacionadas aos estudos.

Segundo Marinella, cerca de 30 jovens já se formaram com apoio do projeto. “O que mantém o adolescente vivo é o sonho”, afirmou.

Redes de cuidado nos territórios

O encontro também destacou experiências de articulação territorial voltadas à prevenção e ao cuidado. Uma delas é o projeto “Meu Corpo, Meu Bem”, desenvolvido pela Casa de Assistência Filadélfia na zona leste de São Paulo.

A iniciativa atua principalmente com jovens negros e moradores de territórios periféricos e busca articular diferentes serviços públicos — como saúde, assistência social e educação — para ampliar o acesso à prevenção e ao tratamento.

Segundo os participantes, o fortalecimento dessas redes foi essencial durante a pandemia de Covid-19, quando muitas pessoas em situação de vulnerabilidade perderam o contato com os serviços de saúde.

A articulação entre organizações e instituições públicas permitiu retomar atendimentos e garantir acompanhamento para pessoas vivendo com HIV.

Papel histórico da sociedade civil

Quatro décadas após o início da epidemia, os participantes do colóquio destacaram que a sociedade civil continua desempenhando papel fundamental na resposta ao HIV no Brasil.

Desde os anos 1980, organizações comunitárias tiveram papel decisivo na defesa do acesso universal ao tratamento, na disseminação de informação sobre prevenção e na construção de redes de apoio para pessoas vivendo com HIV.

Embora os avanços científicos tenham transformado o tratamento e ampliado as estratégias de prevenção — com tecnologias como a profilaxia pré-exposição (PrEP) —, as desigualdades sociais ainda determinam quem tem acesso a essas ferramentas.

Para os participantes, enfrentar a epidemia continua exigindo muito mais do que respostas biomédicas. Significa também enfrentar o estigma, reduzir desigualdades e fortalecer as redes comunitárias que sustentam a resposta social ao HIV no país.

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