Testagem: a porta de entrada da prevenção combinada contra o HIV no Carnaval

Ouça esta postagemCarregando...
1.0x

Na mandala da prevenção combinada contra o HIV, a testagem é a porta de entrada para o cuidado, o acesso às profilaxias e o início de tratamentos. Durante o Carnaval, esse direito ganha ainda mais relevância.

Em meio à folia, ao encontro entre corpos, desejos e afetos, falar de testagem para HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) ainda desperta medo em muitas pessoas. Para o médico infectologista Dr. Hilton Alves Filho, no entanto, testar não deve ser visto como punição ou desconfiança, mas como um gesto de cuidado consigo e com quem se relaciona.

“Testagem é um direito. É informação que protege, acolhe e abre caminhos”, resume.

Quando falamos em testagem dentro da mandala da prevenção combinada, estamos falando de muito mais do que um exame. Segundo o infectologista, formado pela Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e pós-graduado em sexologia com foco em saúde LGBTQIAPN+, HIV/aids e ISTs, a testagem é a base que sustenta todas as outras estratégias de cuidado.

“Quando falamos em testagem na mandala da prevenção combinada, estamos falando do direito de saber como está a nossa saúde sexual e usar essa informação para cuidar de si e das pessoas com quem nos relacionamos, funciona como a porta de entrada para as profilaxias e/ou tratamentos.”, explica o infectologista.

No Carnaval, esse cuidado se torna ainda mais necessário. A mudança de rotina, o aumento do número de parcerias e o consumo de álcool ou outras substâncias criam contextos em que a prevenção pode ficar mais vulnerável. Para Hilton, reconhecer isso não é moralizar, mas lidar com a realidade de forma responsável. Dr. Hilton:

“No Carnaval isso ganha força porque muita gente muda a rotina, aumenta o número de parcerias, bebe mais, negocia menos camisinha, e a testagem se torna uma ferramenta concreta de autocuidado, não de julgamento.”

A testagem, reforça o médico, também é uma forma de afirmar o valor do prazer sem abrir mão da saúde:

“Testar é uma forma de dizer: ‘meu prazer importa, mas minha saúde também’.”

E para quem vive com HIV?

Para quem vive com HIV, o diagnóstico precoce muda completamente o curso da história. O acesso rápido ao tratamento permite alcançar a carga viral indetectável, o que significa que o vírus não é transmitido por via sexual e que a pessoa pode viver com qualidade de vida, sem adoecer por causa do HIV. Já para quem testa negativo, o exame abre espaço para conversar sobre outras estratégias da prevenção combinada, como PrEP, PEP, camisinha e redução de danos.

“Para quem vive com HIV, descobrir cedo permite começar o tratamento, ficar com carga viral indetectável, portanto intransmissível, e viver com qualidade. Para quem testa negativo, é uma chance de conversar sobre PrEP, PEP, camisinha e outros cuidados em saúde sexual e reprodutiva.”, continua.

A recomendação é clara: toda pessoa sexualmente ativa pode e deve testar. A testagem não é restrita a grupos específicos, nem deve ser acionada apenas em momentos de medo.

“Toda pessoa sexualmente ativa, independente de orientação sexual, identidade de gênero ou estado civil, pode e tem direito de testar para HIV e outras ISTs.”, reforça Hilton.

Ainda assim, o infectologista destaca que algumas situações exigem atenção especial, como relações sem camisinha, rompimento do preservativo, contato com sangue ou secreções e relações com parcerias cujo status sorológico é desconhecido. Populações-chave também precisam de acesso facilitado, com acolhimento e sem estigma:

“Populações-chave merecem acesso facilitado e oferta ativa de testagem periódica, sem estigma e barreiras.”

Quando me testar?

Durante o Carnaval e no período logo após a folia, a testagem é especialmente indicada quando houve sexo desprotegido, uso de álcool ou outras substâncias, situações de violência sexual ou o surgimento de sintomas como corrimento, feridas, bolhas, dor ao urinar, ínguas ou febre sem explicação. Para quem faz uso da PrEP, manter a testagem regular é parte essencial do cuidado:

“É importante orientar que, diante de exposição desprotegida recente, a pessoa procure serviço de urgência e emergência para iniciar o uso da PEP em até 72 horas, e agende testagem nos tempos recomendados.”

Um ponto que costuma gerar dúvidas é a chamada janela imunológica. O médico explica de forma simples: trata-se do tempo que o corpo leva para produzir anticorpos em quantidade suficiente para que o teste consiga detectar o HIV:

“Nesse período o vírus já pode estar no corpo, mas o exame ainda não tem sensibilidade suficiente para mostrar o resultado como positivo, podendo dar falso negativo.”

Por isso, um resultado negativo logo após uma situação de risco não deve ser interpretado como definitivo.

“Se você testou logo depois da exposição e deu negativo, pode ser que ainda esteja na janela; combine com o serviço um novo teste no tempo certo para confirmar.”, lembra.

Quais diferentes testes existem?

No Brasil, existem diferentes formas de testagem disponíveis. O autoteste pode ser feito pela própria pessoa, em casa, com resultado em poucos minutos, mas um resultado reagente precisa ser confirmado em um serviço de saúde. Já os testes rápidos realizados por profissionais estão disponíveis em Unidades Básicas de Saúde, Centros de Testagem e Aconselhamento (CTA) e serviços especializados. Exames laboratoriais entram na confirmação do diagnóstico e no acompanhamento clínico.

Independentemente do tipo de exame, o SUS garante testagem gratuita, sigilosa e sem julgamento. O infectologista reforça que a confidencialidade é um direito assegurado:

“Testagem no SUS é sigilosa por lei, e a pessoa tem direito a atendimento sem exposição, sem julgamento e sem obrigação de contar para familiares ou parceiros, se não quiser naquele momento.”

Além do HIV, o cuidado no Carnaval inclui a testagem para sífilis, hepatites virais B e C e, em determinados contextos, para outras ISTs como gonorreia e clamídia. Para Hilton, esse conjunto de exames funciona como um cuidado integral com o corpo e o prazer.

“Esse ‘check-up do prazer’ é muito importante o ano todo, mas é especialmente importante para garantir que o corpo siga bem depois da folia.”

A importância de se falar sobre testagem

O impacto emocional da testagem também precisa ser acolhido. Sentir medo ou ansiedade antes e depois do exame é comum. Um resultado negativo traz alívio, mas não elimina a necessidade de prevenção contínua. Já um resultado positivo exige cuidado, informação e apoio.

“No resultado positivo, o foco é: não se está sozinho; existe tratamento eficaz e gratuito pelo SUS. Diagnóstico não anula desejo, afeto, projetos de vida ou maternidades e paternidades.”

Para o médico, um dos principais erros ainda é tratar a testagem como algo excepcional ou ligado apenas ao medo.

“O erro não é da pessoa, é de uma cultura que ainda marca o HIV com preconceito; nosso trabalho é criar ambientes onde se testar seja tão simples e cotidiano quanto medir a pressão.”

No Carnaval e ao longo de todo o ano, a testagem segue como um gesto de cuidado, autonomia e respeito à própria história.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

Dicas de entrevista:

Dr. Hilton Alves Filho

Instagram: @drhiltonsaudelgbt

Apoios