Terra: Propostas para modernizar o SUS são boas, mas enfrentam desafio básico, alerta especialistas

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Analistas ouvidos pelo Terra avaliaram ideias dos planos de governo dos candidatos à Presidência para área da saúde

O tema da saúde é sensível para os postulantes ao Palácio do Planalto. Diante do avanço tecnológico e com a missão de garantir que a população tenha acesso a serviços básicos, os candidatos apresentam em seus planos de governo ideias de natureza semelhante, mas com diferentes formas de execução.

Essa reportagem faz parte da série O Brasil Que Eles Querem, que vai destrinchar os planos de governo dos candidatos à Presidência sobre Tecnologia, Educação, Cultura, Segurança, Economia,  Meio Ambiente, Saúde, Relações Internacionais,  Esporte e Diversidade

A promessa de redução das filas no Sistema Único de Saúde (SUS), a utilização de Inteligência Artificial e a potencialização da telemedicina são alguns dos pilares dos projetos. Para destrinchar de maneira mais aprofundada a viabilidade das propostas dos candidatos, o Terra consultou Julia Pereira, que é gerente de Relações Institucionais do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), e também Flávia Carnauba, mestre em Saúde do Adulto e do Idoso, e docente das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU), em São Paulo.

De modo geral, as especialistas entendem que o maior desafio é aprimorar boa parte das políticas que já existem, mas que ainda são praticadas de maneira ineficiente. Em relação ao Prontuário Eletrônico, citado por inúmeros candidatos como uma maneira de reduzir filas e integrar serviços como marcação de consultas e resultado de exames, Julia Pereira destaca que a ferramenta é utilizada na Atenção Primária da Saúde há mais de dez anos.

Contudo, segundo dados da Agenda Mais SUS retirados do Censo Nacional das UBS de 2024, apenas 25,4% das Unidades Básicas de Saúde compartilham prontuário com a atenção especializada, e apenas 9,3% compartilham com hospitais. Além disso, 34,8% das unidades já conectadas avaliam sua própria conexão como inadequada, e 47,8% não têm infraestrutura para webconferência.

“Qualquer promessa de reduzir filas via prontuário único depende de resolver primeiro a interoperabilidade entre esses sistemas, promover a adesão municipal e estadual à Rede Nacional de Dados em Saúde e aprimorar a conectividade nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), antes de qualquer novo software ou plataforma”, explica.

A especialista acrescenta que a contratação de serviços e exames na rede privada nos horários ociosos para reduzir as filas no SUS também é uma proposta com potencial, mas que abrange determinados riscos como a necessidade de aumentar os percentuais de reembolso pagos pelo governo para atrair adesão das empresas de saúde.

Para isso, Julia Pereira cita a experiência recente com o Programa Agora Tem Especialistas (PATE), que até setembro de 2025 havia sido aderido por apenas 59 hospitais, concentrados em 14 estados, sendo a maior adesão de hospitais filantrópicos e não particulares. “A rede privada tende a oferecer o que é rentável para ela, não necessariamente o que reduz a fila onde ela é mais crítica.”

Flávia Carnauba complementa observando que a rede privada pode auxiliar na aceleração do fluxo, mas entende que há a necessidade de um aumento na oferta geral de exames e consultas especializadas. “A triagem por gravidade apenas reordena a escassez. Pacientes de menor gravidade podem ‘encalhar’ indefinidamente na fila, evoluindo para quadros graves que retornarão à porta de entrada.”

Em relação à telemedicina, a gerente do IEPS alerta para a dificuldade da implantação de teleconsultas diante da pouca atuação de profissionais especialistas no SUS. Uma alternativa, embora haja o entrave tecnológico, pode ser a teleconsultoria.

“Prometer telemedicina em escala nacional sem endereçar essa migração significa competir pelo mesmo médico já escasso na rede pública, não criar nova oferta. A teleconsultoria, apoio remoto de um especialista a outro profissional de saúde, tem potencial mais escalável porque multiplica a capacidade de um especialista sem exigir um médico por paciente”, observa.

Por fim, as especialistas entendem haver um desequilíbrio entre o financiamento público e privado do sistema de saúde e que certos modelos de gestão precisam ser lapidados.

“No caso das Organizações Sociais de Saúde (OSS), que administram unidades que já são públicas mediante contrato de gestão, encerrar o modelo significaria o Estado assumir diretamente a gestão dessas unidades, algo tecnicamente possível, mas que exigiria capacidade administrativa e de contratação de pessoal hoje delegada a essas organizações”, observa Julia Pereira.

“No caso das filantrópicas e Santas Casas, o problema é distinto: essas instituições são proprietárias dos próprios leitos e da própria estrutura, vinculadas ao SUS por convênio, não por contrato de gestão de bens públicos. Encerrar essa parceria não devolveria ao Estado os 183 mil leitos filantrópicos, significaria simplesmente deixar de ter acesso a eles”, complementou.

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