Pela primeira vez sediada no Brasil, a Conferência Internacional de Aids, que acontece entre 26 e 31 de julho de 2026, no Riocentro, no Rio de Janeiro, já mobiliza organizações e coletivos de juventudes que buscam ampliar o alcance político e social do evento para além dos debates acadêmicos.
Nesse contexto, o Ocupe SUS Juventudes — observatório dedicado a práticas de promoção, prevenção e assistência em saúde sexual e HIV/aids — conquistou um espaço estratégico na programação oficial: a Zona de Educação Popular em Saúde – Tenda Paulo Freire (Ana Carolina Menezes), instalada na chamada Via Global.
A proposta é transformar o local em um território de vivências, trocas horizontais e articulação política entre jovens do Brasil, da América Latina e de países lusófonos.
Homenagem e memória como ato político
A Tenda leva o nome de Ana Carolina Menezes, jovem que viveu com HIV por transmissão vertical e foi uma das fundadoras da Rede Jovem Rio+. Falecida em 21 de julho de 2025, ela é lembrada como símbolo de resistência e mobilização.
A escolha do nome não é apenas simbólica, mas também política. Sua trajetória evidencia lacunas persistentes no cuidado com jovens vivendo com HIV desde a infância, especialmente no que diz respeito à saúde mental, ao acolhimento e à visibilidade social.
O espaço surge, portanto, como uma forma de manter viva sua história e reforçar a luta por reconhecimento, direitos e políticas públicas mais inclusivas.
Construção coletiva e diversidade de atores
A organização da Tenda reúne diferentes frentes do movimento social brasileiro, refletindo a diversidade de sujeitos envolvidos na resposta à epidemia. Participam da articulação a Rede Nacional de Adolescentes e Jovens Vivendo com HIV/Aids (RNAJVHA), o Movimento Estamos TodEs em Ação, o Coletivo LGBT do Movimento Negro Unificado, a Rede Nacional de Religiões Afro-Brasileiras e Saúde (RENAFRO), o Instituto Multiverso, a Rede de Juventudes Afetadas pela Tuberculose, o Instituto de Saúde e o Centro de Referência e Treinamento em DST/Aids de São Paulo (CRT-SP).
Segundo Leonardo Moura, ativista em HIV/aids e um dos organizadores do espaço, a iniciativa busca romper com estruturas tradicionais de produção de conhecimento. “O objetivo é articular as juventudes do Brasil, da América Latina e países lusófonos em uma programação onde haja troca de saberes de forma horizontal. Queremos que o conhecimento circule de igual para igual.”
Interseccionalidade e protagonismo juvenil
A Tenda Paulo Freire pretende se consolidar como um espaço de interseccionalidade, reunindo diferentes perspectivas sobre saúde, direitos e desigualdades.
Para Isabela Valadares, do Movimento Estamos TodEs em Ação, a acessibilidade é central nesse processo:
“A Tenda Paulo Freire é um espaço fundamental de inclusão. Hoje, a juventude PCD ainda enfrenta barreiras severas no acesso à informação e ao cuidado. Garantir essa acessibilidade no Riocentro é garantir o direito à autonomia. Não se pode pensar em uma resposta ao HIV sem considerar todas as realidades.”
A participação de jovens vivendo com HIV também é destacada como elemento fundamental para a construção do espaço.
Katiana Rodrigues, da RNAJVHA, afirma que “a presença da rede na organização da Tenda rompe com estigmas porque coloca adolescentes e jovens que vivem com HIV no centro da construção, não como objetos de estudo, mas como sujeitos de saber e decisão. Trazer nossas vivências para uma conferência científica humaniza os dados, dando rosto às estatísticas e mostrando que viver com HIV desde a infância é falar de direitos, afeto e futuro.”
Já Estevan Gelde, da RENAFRO, enfatiza a importância da dimensão espiritual e cultural. “Unir espiritualidade, ancestralidade e políticas de saúde fortalece uma resposta ao HIV mais próxima da realidade das pessoas trans. O nosso corpo também é um templo, e o cuidado coletivo e o acolhimento sem julgamento são fundamentais para que os jovens olhem com mais atenção para a própria saúde.”

Racismo estrutural e vulnerabilidades
A fundamentação política da Tenda também inclui o enfrentamento ao racismo estrutural como elemento central na análise da epidemia.
De acordo com o ativista Jean Vinícius, as desigualdades raciais são determinantes na produção de vulnerabilidades:
“Essas epidemias não operam apenas na biologia; elas ganham força letal nas fissuras criadas pela discriminação racial que empurra majoritariamente a população negra para a pobreza crônica. O estresse contínuo do preconceito gera um profundo sofrimento psíquico, que afasta as pessoas da prevenção.”
Ele também associa a proposta do espaço aos princípios da educação popular. “Precisamos desse espaço para gritar ao mundo que a saúde deve ser um território ético e antirracista. Como nos ensina Bell Hooks, o amor e o abuso não podem coexistir”
Programação e atividades
Sob o lema “As juventudes do Sul Global abrem passagem”, a Tenda funcionará entre os dias 27 e 30 de julho, com atividades diárias, principalmente entre 11h e 16h.
A programação inclui:
Abertura diária (10h): gira de abertura de caminhos
27 de julho: debate sobre juventudes do Sul Global, enfrentamento ao racismo e lançamento do livro do Ocupe SUS Juventudes
28 de julho: discussões sobre diversidade de gênero e sexualidade, além de saúde mental sob perspectivas antirracistas e decoloniais
29 de julho: enfoque em corpos femininos, violência de gênero e tecnologias comunitárias latino-americanas para prevenção
30 de julho: oficina de cianotipia e produção de estandartes (“Corpos Vivos Posithivos”), além de debate sobre redução de danos e prazer nas relações sexuais
Além disso, o espaço contará com rodas de conversa, atividades artísticas, saraus e momentos de articulação entre diferentes atores, funcionando como ponto de encontro entre jovens, organizações comunitárias, profissionais de saúde, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.
A iniciativa busca evidenciar os desafios enfrentados por populações mais vulnerabilizadas, com foco em jovens entre 15 e 24 anos e pessoas vivendo com HIV.
A proposta também reforça o papel do ativismo como ferramenta de enfrentamento das desigualdades sociais e das barreiras de acesso aos serviços de saúde.
Ao promover encontros, compartilhamento de experiências e construção coletiva, a Tenda pretende estimular parcerias e fortalecer respostas comunitárias à epidemia.
Convocatória aberta
Neste momento, o Ocupe SUS Juventudes realiza a captação de voluntários para atuar nas frentes de comunicação, logística e acolhimento durante a conferência.
As inscrições podem ser feitas até 15 de maio de 2026, por meio de formulário online.
Leonardo Moura, especial para a Agência de Notícias da Aids




