Telma de Souza morreu às 20h27 em Santos (SP), neste sábado . Ela estava internada no Hospital Mont Serrat. A ex-prefeita sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) e teve uma infecção urinária. Se recuperou de um AVC isquêmico cerca de um ano antes e, desde então, restringiu sua participação em eventos públicos.O velório está sendo realizado no Salão Nobre do Palácio José Bonifácio, sede da Prefeitura, neste domingo a partir de 13 hs.A cerimônia de cremação vai acontecer na Memorial Ecrópole Ecumênica, às 19 hs. A prefeitura de Santos decretou luto oficial de três dias. Colaborador da administração de Telma, o médico Fábio Mesquita faz um relato sobre o legado da advogada, professora e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores.
” Santos se despede de Telma de Souza, sua primeira prefeita, uma mulher que teve a coragem de enfrentar algumas das questões mais difíceis de seu tempo e que ajudou a escrever um dos capítulos mais importantes da história da saúde pública brasileira.
Falar de Telma é revisitar uma Santos que ousou fazer política de outro jeito. No final dos anos 1980, a cidade vivia as contradições de um país recém-saído da ditadura, enquanto a epidemia de aids avançava acompanhada de medo, desinformação e um preconceito tão cruel quanto a própria doença.
Naquela época, pessoas vivendo com HIV eram afastadas de suas famílias, perdiam empregos, eram discriminadas nos serviços de saúde e frequentemente tratadas como culpadas pela própria condição. A aids ainda era chamada de câncer gay, e o julgamento moral atravessava quase todas as discussões sobre prevenção.
Foi nesse contexto que Telma assumiu a Prefeitura de Santos, em 1989. Sua gestão deu respaldo político a uma equipe que ajudaria a transformar a resposta brasileira à epidemia. Ao lado de David Capistrano Filho, então secretário municipal de Saúde, e de mim, como médico sanitarista, a administração estruturou o primeiro Programa Municipal de Aids do Brasil e o Centro de Referência em Aids, o Craids.
Essa iniciativa representou uma mudança profunda na forma de enfrentar a epidemia. Santos passou a desenvolver uma resposta que reconhecia as pessoas vivendo com HIV como sujeitos de direitos, em um período no qual esse entendimento ainda estava longe de ser consenso. Foi nesse ambiente que tive o privilégio de trabalhar com Telma e participar de uma experiência que marcaria definitivamente minha trajetória pessoal e profissional.
É difícil revisitar aqueles anos sem recordar a intensidade dos desafios que enfrentávamos, a urgência das decisões e a convicção de que a saúde pública precisava alcançar justamente as pessoas que a sociedade insistia em deixar à margem.
Em 1989, Santos apresentava uma das situações mais preocupantes da epidemia de aids no Brasil. A transmissão do HIV pelo compartilhamento de seringas entre pessoas que utilizavam drogas injetáveis exigia respostas imediatas. Sabíamos que a prevenção dependia de medidas concretas, capazes de dialogar com a realidade dessas pessoas, mesmo quando essa realidade contrariava as convenções morais da época.
Foi a partir dessa necessidade que começamos a construir uma das experiências pioneiras de redução de danos no país. A proposta de distribuição e troca de seringas esterilizadas, anunciada em novembro daquele ano, provocou uma reação que ainda hoje me impressiona quando recordo os acontecimentos.
Enfrentamos investigações policiais, questionamentos judiciais e acusações de que estaríamos incentivando o consumo de drogas. Eu e David Capistrano fomos submetidos a um inquérito policial por defender uma estratégia de prevenção do HIV. A iniciativa acabou interrompida judicialmente, mas já havia colocado em discussão uma questão fundamental para a saúde pública brasileira: até que ponto o preconceito poderia determinar quem teria direito à proteção do Estado?
Lembro daqueles dias com a intensidade de quem viveu de perto os conflitos e as pressões. Havia uma epidemia em curso, pessoas adoecendo e morrendo, enquanto precisávamos justificar algo tão elementar quanto oferecer meios para prevenir novas infecções.
Telma compreendia a dimensão daquela disputa. Sabia que apoiar nossa equipe significava enfrentar resistências políticas, institucionais e sociais. Ainda assim, assumiu a responsabilidade de sustentar uma política pública que desafiava o pensamento dominante. Essa coragem foi fundamental para que o trabalho avançasse.
Ao longo dos anos, tive a oportunidade de trabalhar com HIV e redução de danos em diferentes países, acompanhar experiências internacionais e participar de discussões que ajudaram a consolidar essas abordagens no campo da saúde pública. Em muitos desses espaços, a experiência de Santos permaneceu como uma referência importante, especialmente por demonstrar como a vontade política pode abrir caminhos para mudanças que ultrapassam fronteiras e gerações.
Mas seria injusto contar essa história sem reconhecer seu caráter profundamente coletivo. David Capistrano teve um papel extraordinário, assim como os profissionais de saúde, os movimentos sociais, as pessoas vivendo com HIV e as pessoas que usavam drogas e participaram da construção de respostas mais adequadas à epidemia. A contribuição de Telma esteve também em compreender a importância dessas vozes e oferecer condições políticas para que o trabalho pudesse avançar.
Essa disposição para enfrentar estruturas excludentes também esteve presente em outras transformações fundamentais de sua gestão, entre elas a intervenção na Casa de Saúde Anchieta, um dos marcos da reforma psiquiátrica brasileira. O enfrentamento da violência manicomial e a defesa do cuidado em liberdade dialogavam diretamente com os princípios que orientavam nossa resposta à aids. Havia, em ambos os casos, a compreensão de que os serviços públicos precisavam respeitar a dignidade humana, inclusive quando isso significava enfrentar práticas institucionais profundamente enraizadas.
Hoje, quase quatro décadas depois, é impossível olhar para aquela experiência sem reconhecer sua importância histórica. A redução de danos ganhou espaço nas políticas públicas, nas universidades, nos serviços de saúde e nas organizações internacionais. Novas tecnologias de prevenção foram desenvolvidas, tratamentos transformaram o prognóstico das pessoas vivendo com HIV e a ciência avançou de maneira extraordinária.
Entretanto, o estigma, a discriminação e a criminalização continuam produzindo barreiras ao cuidado. Muitas das disputas que enfrentávamos no final dos anos 1980 permanecem presentes, ainda que sob outras formas. Por isso, a experiência de Santos continua atual: ela mostra que políticas públicas baseadas em direitos podem ser construídas mesmo em contextos de medo, resistência e incompreensão.
Talvez por isso a despedida de Telma tenha um significado tão profundo para quem participou daquela história. Sua trajetória nos faz recordar um período em que a democracia brasileira estava sendo reconstruída e em que tínhamos a oportunidade de experimentar novas formas de governar, de cuidar e de reconhecer direitos.
Telma foi a primeira mulher a governar Santos. Sua presença naquele espaço já representava uma ruptura importante em uma estrutura política historicamente dominada por homens. Mas sua contribuição ultrapassou esse pioneirismo. Ela participou de uma geração que compreendia a política como uma possibilidade concreta de transformação social e que assumiu responsabilidades em um momento especialmente difícil da história brasileira.
Recebo a notícia de sua morte com tristeza e com a gratidão de quem teve a oportunidade de compartilhar uma experiência que ajudou a definir os rumos de sua própria vida. Guardo as lembranças das discussões, das dificuldades, das conquistas e, principalmente, das pessoas que tornaram possível aquele trabalho.
Penso também nas inúmeras vidas alcançadas pelas políticas que começamos a construir naquele período: nas pessoas que encontraram atendimento quando ainda eram rejeitadas em tantos lugares, naquelas que tiveram acesso à prevenção e nos profissionais que passaram a compreender a importância de oferecer cuidado sem julgamento.
A dimensão de uma decisão política nem sempre pode ser medida no momento em que ela é tomada. Algumas de suas consequências só se tornam plenamente visíveis muitos anos depois, quando percebemos que determinadas escolhas ajudaram a modificar a maneira como uma sociedade compreende seus próprios problemas.
Telma teve a coragem de fazer essas escolhas.
Sua partida representa uma perda para Santos, para a história da democracia brasileira e para todos aqueles que reconhecem a importância das experiências pioneiras de saúde pública desenvolvidas durante sua administração.
Para mim, representa também a despedida de uma companheira de uma época extraordinária, marcada por desafios que nos exigiram muito, mas que nos permitiram participar de transformações cujos resultados continuam presentes.
Querida Telma, obrigado pela confiança depositada em nosso trabalho, pelo respaldo nos momentos mais difíceis e pela coragem de defender políticas que ajudaram a preservar vidas quando ainda havia tanta resistência em reconhecer os direitos de determinadas populações.
A história da resposta brasileira ao HIV e da redução de danos guarda uma parte importante da sua trajetória. E aqueles de nós que tiveram o privilégio de participar dessa construção continuarão levando essa memória adiante.
Descanse em paz, companheira. Foi uma honra compartilhar com você um capítulo tão importante de nossas vidas e da história da saúde pública brasileira.”
Fábio Mesquita
Dr. Fábio Mesquita é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – Campus Baixada Santista – e Diretor Técnico da Empresa Municipal Praia-Grandense de Ensino e Saúde (EMPES). Dirigiu o Depto de Aids do Ministério da Saúde e trabalhou em ações contra o HIV na OMS em diferentes países do mundo.



