Em conferência de encerramento do seminário “SUS 35 Anos”, o sanitarista destacou desafios históricos e contemporâneos da saúde pública no Brasil e pediu um novo pacto social pela igualdade e pela reconstrução do SUS.
“É preciso reencantar a sociedade brasileira em relação ao SUS.” A frase de Gonzalo Vecina, médico sanitarista, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e um dos fundadores da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), resume o tom da conferência de encerramento do seminário “SUS 35 Anos”, realizado nos dias 18 e 19 de setembro de 2025. O evento, organizado pela Plataforma Outra Saúde, reuniu nomes históricos do movimento sanitário para debater os rumos e os desafios do sistema público de saúde brasileiro.
Desigualdade como obstáculo central
Em sua fala, Gonzalo Vecina, retomou momentos decisivos da trajetória do sistema, desde as lutas pela redemocratização até os dias atuais:
“A luta pelo SUS começou junto à luta pela democracia”, afirmou, lembrando que a construção do sistema nasceu da mobilização social e da defesa de direitos universais.
Vecina destacou que, apesar dos avanços das últimas décadas — como o aumento de 20 anos na expectativa de vida média dos brasileiros —, as desigualdades continuam marcando o acesso à saúde:
“Eu moro no Alto da Lapa, onde a expectativa de vida é de 85 anos. A 70 quilômetros daqui, em Cidade Tiradentes, é de 65. Esses 20 anos não chegaram lá”, criticou.

Gonzalo Vecina, à direita da imagem, discursa no auditório da FESPSP | Foto: Outras Palavras/Youtube
Atenção básica e estratégia de saúde da família
O ex-presidente da Anvisa apontou o fortalecimento da atenção básica como prioridade absoluta para o futuro do SUS. Segundo ele, sem uma rede de atenção primária robusta, o sistema perde sua capacidade de prevenir doenças e organizar o cuidado:
“Se não conseguirmos dar respostas através da Estratégia de Saúde da Família, não vamos conseguir construir o resto”, afirmou.
Acesso, tecnologia e equidade
Outro ponto central da fala foi o acesso aos serviços especializados e à incorporação de novas tecnologias. Vecina lembrou que 95% dos transplantes no país são realizados pelo SUS, mas que o mesmo modelo de organização poderia ser replicado para outras áreas, como o diagnóstico e o tratamento de câncer:
“Falta vontade política entre municípios e estados para criar governanças regionais de saúde”, defendeu.
Ele também criticou a disparidade tecnológica entre o sistema público e o privado:
“Enquanto 95% das cirurgias privadas são fechadas, no SUS 95% ainda são abertas. Isso é cinco dias a mais de internação, maior risco de infecção e de eventos adversos.”
Vecina ressaltou o sucesso do programa de HIV/Aids como exemplo de política pública eficiente, resultado da mobilização da sociedade civil:
“Foi uma conquista da sociedade, não de um presidente”, afirmou.
Gestão, financiamento e formação de profissionais
O sanitarista reconheceu que o financiamento do SUS segue insuficiente, mas apontou que a solução passa por um Estado que distribua igualdade — e não apenas mais recursos:
“Não vamos ter uma fantástica saúde pública com uma péssima educação. Precisamos melhorar tudo”, declarou.
Para Vecina, o foco deve estar na formação permanente e na regulação dos cursos de saúde:
“Não adianta impedir o médico de trabalhar, é preciso parar de formar mal.”
Soberania e política industrial
Encerrando sua fala, Vecina abordou o tema da produção nacional de medicamentos e insumos, citando o fechamento da antiga fábrica brasileira de insulina Biobras como exemplo do impacto da ausência de uma política industrial consistente:
“Se quisermos uma indústria nacional de saúde, precisamos de planejamento e de política pública, não só de mercado”, afirmou.
Ele também destacou a importância da interoperabilidade tecnológica entre diferentes níveis e instituições do SUS:
“Não tem que ser tudo igual, mas tudo tem que conversar com tudo. O cidadão precisa ser visto onde quer que apareça para ser atendido.”
“Um SUS para um Brasil mais igual”
Ao final, Vecina reforçou que o futuro do sistema depende de uma escolha coletiva:
“Temos que construir um mundo mais igual. O resto é conversa fiada. E o SUS tem um papel essencial nisso.”
A conferência marcou o encerramento de dois dias de debates que celebraram os 35 anos do Sistema Único de Saúde, reafirmando o compromisso do movimento sanitário brasileiro com a defesa da saúde pública universal, gratuita e de qualidade.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
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Outra Saúde
Site: outraspalavras.net
FESPSP
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