SUS 35 anos: entre conquistas históricas, a resposta ao HIV/aids e os desafios do maior sistema público de saúde do mundo

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Em 2025, o Sistema Único de Saúde (SUS) completa 35 anos. Mais do que uma data simbólica, trata-se da celebração de um projeto de país que nasceu com a redemocratização, fruto da mobilização social e da luta pela saúde como direito universal. Criado a partir da Constituição de 1988 e regulamentado em 1990, o SUS tornou-se um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, atendendo os 215 milhões de brasileiros e também estrangeiros residentes ou em trânsito pelo país.

Um nascimento marcado pela luta social

O SUS é filho direto da Reforma Sanitária Brasileira, movimento que emergiu nas décadas de 1970 e 1980, em plena ditadura, com apoio de profissionais de saúde, intelectuais, sindicatos e movimentos populares. Até então, a assistência pública era restrita a trabalhadores formais da Previdência. Milhões de pessoas ficavam à margem de qualquer direito à saúde.

Com a Constituição de 1988, o paradigma mudou. A saúde foi inscrita como “direito de todos e dever do Estado”, estabelecendo os princípios que sustentam até hoje o sistema: universalidade, equidade e integralidade.

“A criação do SUS foi uma das maiores vitórias da democracia brasileira. Ele nasceu do clamor das ruas, da ideia de que a vida não pode depender da carteira de trabalho ou da condição de pagar por um plano”, lembrou o sanitarista Jairnilson Paim, um dos protagonistas da Reforma Sanitária, em entrevista à Agência Brasil.

Conquistas que mudaram o Brasil

Ao longo de três décadas e meia, o SUS protagonizou transformações profundas:

* Imunização em massa: o Brasil se tornou referência mundial com campanhas que chegaram a vacinar mais de 80 milhões de pessoas em poucos meses, como na campanha contra a gripe H1N1, em 2010.

Pediatra fala da importância da vacinação infantil — Ministério da Saúde

* Transplantes e doação de órgãos: o SUS coordena a maior rede pública de transplantes do mundo.

* Atenção primária: mais de 50 mil equipes da Estratégia Saúde da Família alcançam periferias, comunidades ribeirinhas, aldeias indígenas e quilombos.

* Samu 192: o atendimento de urgência e emergência em todos os estados.

* Saúde mental e políticas inclusivas: com os CAPS, o cuidado substitutivo ao modelo manicomial.

* HIV/aids: uma das respostas mais emblemáticas do SUS e da história da saúde pública.

HIV/aids: um marco da política pública brasileira

Novos e velhos desafios (HIV/Aids no Brasil) – Mulheres Socialistas

Quando a epidemia de HIV/aids chegou ao Brasil nos anos 1980, o estigma, a desinformação e a falta de medicamentos faziam da doença uma sentença de morte. Foi dentro do SUS que o país construiu uma das políticas mais ousadas do mundo: a distribuição gratuita e universal de antirretrovirais, a partir de 1996.

Essa decisão colocou o Brasil na vanguarda global e salvou milhões de vidas. Além do tratamento, o SUS estruturou uma rede de serviços especializados, com testagem gratuita, prevenção combinada, acompanhamento médico e apoio psicossocial.

Hoje, o SUS oferece PrEP (profilaxia pré-exposição), PEP (profilaxia pós-exposição), preservativos, testagem rápida e tecnologias de ponta, além do cuidado integral às pessoas vivendo com HIV. Ainda assim, desafios permanecem: a redução das desigualdades no acesso, o combate ao estigma e a necessidade de incorporar novas tecnologias, como os antirretrovirais injetáveis de longa duração.

Desafios persistentes

Apesar das conquistas, o SUS enfrenta obstáculos que comprometem sua sustentabilidade:

* Subfinanciamento crônico, agravado pelo teto de gastos imposto em 2016.

* Desigualdades regionais: enquanto algumas capitais têm serviços de ponta, áreas rurais e cidades pequenas ainda carecem de estrutura.

* Precarização do trabalho: profissionais sobrecarregados e contratos frágeis.

* Disputas políticas: tentativas de privatização e cortes orçamentários fragilizam o sistema.

No caso do HIV/aids, além do financiamento, há o desafio do conservadorismo político que ameaça campanhas de prevenção, restringe debates sobre sexualidade e invisibiliza populações-chave, como a comunidade LGBTQIA+, pessoas em situação de rua e população carcerária.

O futuro do SUS

Saúde declara urgência de reduzir espera por atendimento especializado | Radioagência Nacional

A digitalização, com o ConecteSUS e a expansão da telessaúde, abre novas possibilidades de inclusão. Mas o avanço tecnológico precisa vir acompanhado de equidade: não basta oferecer plataformas digitais se populações vulneráveis seguem sem internet ou acesso a equipamentos básicos.

Celebrar 35 anos do SUS é reconhecer que ele é reflexo do Brasil: diverso, desigual, resiliente e solidário. O sistema é presença cotidiana na vida de milhões: no parto de uma criança, no transplante de órgãos, no tratamento do câncer, na testagem para HIV, na consulta de rotina, na vacinação em massa.

Especialistas consideram o SUS o maior patrimônio social do Brasil. Ele é resultado da luta por direitos e precisa ser defendido todos os dias.

35 anos de cidadania e democracia

Ao completar 35 anos, o SUS reafirma um projeto de sociedade que entende a saúde como direito e não como mercadoria. Sua trajetória de conquistas — especialmente a resposta ao HIV/aids — é também uma história de enfrentamento das desigualdades, de resistência contra retrocessos e de defesa da vida acima de tudo.

O futuro do SUS dependerá da capacidade coletiva de valorizá-lo, protegê-lo e mantê-lo como símbolo de cidadania, democracia e solidariedade.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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