Promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, encontro liderado por Luiza Helena Trajano reuniu mulheres de diferentes áreas para discutir carreira, ciência, tecnologia, liderança, saúde e os caminhos para ampliar a presença feminina nos espaços de decisão
Não basta ampliar a presença das mulheres no mercado de trabalho. É preciso criar condições para que elas avancem, ocupem espaços de liderança, participem das decisões e construam suas trajetórias profissionais com autonomia, reconhecimento e qualidade de vida. Essa foi uma das mensagens que atravessaram o , realizado nos dias 4 e 5 de agosto, no Expo Center Norte, em São Paulo.
Promovido pelo Grupo Mulheres do Brasil, o encontro reuniu mulheres de diferentes profissões, gerações e trajetórias em uma programação que conectou liderança, empreendedorismo, ciência, educação, tecnologia, inteligência artificial, futuro do trabalho, saúde e bem-estar.
Mais do que apresentar histórias de sucesso, o Summit abriu espaço para discutir as barreiras que ainda afastam as mulheres das posições estratégicas e dos espaços de poder. Embora elas estejam presentes de forma expressiva nas universidades e em diferentes setores profissionais, essa participação ainda não se traduz, na mesma proporção, nos cargos de comando e nos lugares onde as grandes decisões são tomadas.
Luiza Helena Trajano e a defesa da presença feminina nos espaços de poder
Uma das principais vozes do encontro, Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo Mulheres do Brasil e do Conselho de Administração do Magazine Luiza, levou ao Summit uma discussão que acompanha sua trajetória: mulheres precisam não apenas ingressar no mercado de trabalho, mas encontrar condições reais para crescer dentro dele.
Na apresentação do encontro, Luiza deixou uma provocação às participantes: “Mulheres precisam acreditar em si mesmas, largando o perfeccionismo e o medo de arriscar”.
A mensagem sintetiza parte da proposta do Summit. Ao reunir profissionais de diferentes setores, o evento buscou criar conexões, compartilhar experiências e apontar caminhos para que mais mulheres avancem em suas carreiras, assumam posições de liderança e ampliem sua participação na vida econômica e social do país.
Mulheres produzindo ciência e construindo o futuro
A ciência ocupou espaço de destaque na programação. O debate “Quem produz o futuro? Mulheres, ciência e carreira acadêmica” reuniu nomes como Soraya Smaili, Cristina Helena Pinto de Mello, Ester Sabino e Margareth Dalcolmo.
São mulheres cujas trajetórias ajudam a demonstrar, na prática, a importância da presença feminina na produção do conhecimento.
O debate também evidenciou uma contradição: apesar da forte presença das mulheres na formação universitária e na pesquisa, alcançar os níveis mais altos da carreira científica, os postos de liderança e os espaços de decisão ainda significa percorrer um caminho marcado por obstáculos adicionais.
Falar sobre mulheres nas profissões, portanto, também significa perguntar quem pesquisa, quem recebe financiamento, quem lidera instituições e quem participa da definição das prioridades da ciência.
Saúde também é condição para autonomia
Em meio aos debates sobre carreira, inovação e liderança, a presença da saúde na programação trouxe uma dimensão essencial ao encontro: não existe autonomia profissional sem condições para viver e trabalhar com saúde.
O Summit abriu espaço para profissionais e especialistas discutirem prevenção, inovação, saúde mental, envelhecimento, qualidade de vida e as transformações em curso na medicina.
Um dos debates, “A nova inteligência na saúde”, reuniu Daniela Cristina Faccio, Dra. Ludhmila Hajjar e Daniele de Mari para discutir como a inteligência artificial pode contribuir para prevenção, diagnóstico e personalização do cuidado.
Ao mesmo tempo em que as novas tecnologias abrem possibilidades extraordinárias para a medicina, a discussão colocou em perspectiva algo que nenhuma inovação deve apagar: saúde também é vínculo, escuta, acolhimento e cuidado.
Mulheres falando sobre a saúde das mulheres
A programação contou ainda com profissionais de diferentes áreas da saúde. Entre elas, a infectologista Dra. Glória Brunetti, do Instituto de Infectologia Emílio Ribas e líder do Comitê Saúde do Grupo Mulheres do Brasil; a cardiologista intervencionista Dra. Maria Sanali; Fatima Macedo, especialista em saúde mental no trabalho; e Alessandra Bueno, que desenvolve trabalhos especialmente voltados às mulheres com mais de 50 anos e à transição da menopausa.
A diversidade dessas atuações ajuda a ampliar um conceito que, durante muito tempo, foi tratado de maneira limitada: saúde da mulher não é sinônimo apenas de saúde ginecológica ou reprodutiva.

A Dra. Glória Brunetti destacou que os avanços da ciência ampliaram a perspectiva de longevidade, mas lembrou que viver mais precisa estar associado à prevenção e ao cuidado ao longo de toda a vida.
“Viver mais e melhor passa por várias coisas: uma boa alimentação, atividade física e se cuidar bastante, porque a gente tem chance hoje de bater os 100 anos. A ciência trabalha a nosso favor, a gente descobre cada vez mais. Cuide-se, procure seu médico, faça a prevenção. Tome as vacinas, por favor. Estamos agora precisando da vacina do sarampo. Eu acho que é um conjunto de coisas. A principal delas é ter paixão por você, se cuidar, se apaixonar por você, comer coisas saudáveis e não fumar”, afirmou.
Ao falar diretamente às mulheres que vivem com HIV e aids, Dra. Glória reforçou que o diagnóstico não deve limitar projetos de vida, perspectivas profissionais ou a ocupação de espaços de liderança.
“As mulheres, primeiro, são mulheres. Você tem vida, você tem tudo para ter uma vida boa, saudável, produtiva e ocupar cargos de liderança. Que a sua voz seja ouvida nas decisões. Estude, aproxime-se de outras mulheres. Entre no nosso Grupo Mulheres do Brasil. A gente está de braços abertos para ajudar.”
Para a infectologista, a experiência das mulheres que vivem com HIV também pode contribuir para fortalecer outras mulheres e ampliar sua participação social.
“Todas as mulheres têm capacidade de liderança, de decisão, para que a gente seja melhor para todas. Hoje, aqui, são mais de 15 mil pessoas, a maioria mulheres, lutando umas pelas outras. Você que vive com HIV tem uma resistência, você é uma guerreira. Passe a sua experiência para as outras e vá em frente”, concluiu.
Olhar para a saúde das mulheres de forma integral significa falar de coração, saúde mental, sexualidade, prevenção de infecções, cânceres, doenças crônicas, alimentação, atividade física, menopausa, envelhecimento saudável e acesso aos serviços de saúde. Significa, sobretudo, reconhecer que as necessidades mudam ao longo da vida.
A mulher que inicia sua trajetória profissional enfrenta desafios diferentes daquela que vive a maternidade, atravessa a menopausa ou segue trabalhando, produzindo e construindo novos projetos depois dos 50 ou 60 anos.
Trabalho também pode produzir adoecimento
A presença da saúde em um encontro dedicado às profissões também abre espaço para outra reflexão necessária: o trabalho pode promover autonomia, realização e independência econômica, mas também pode produzir adoecimento.
Sobrecarga, jornadas extensas, assédio, desigualdade salarial, pressão por desempenho e a responsabilidade ainda desproporcional pelo trabalho doméstico e pelo cuidado de filhos, idosos e familiares fazem parte da realidade de muitas mulheres.
A chamada dupla — e, muitas vezes, tripla — jornada tem consequências concretas.
Cansaço, ansiedade, estresse e falta de tempo para cuidar da própria saúde não podem ser tratados apenas como questões individuais. São também reflexo da maneira como a sociedade organiza o trabalho e distribui as responsabilidades de cuidado.

A farmacêutica e executiva Cinira Marcondes participou, no primeiro dia do Summit, dos debates sobre saúde e direitos humanos, destacando a importância das políticas públicas, da participação social e do envolvimento das mulheres nos espaços de construção coletiva.
“A gente falou sobre políticas públicas no desenvolvimento do empoderamento feminino, o desenvolvimento das políticas públicas dentro desse contexto. E eu trouxe um pouquinho da minha trajetória profissional, que justamente começou na época dos primeiros casos de HIV no Brasil. Naquele momento, a gente estava trabalhando no lançamento de um medicamento, uma inovação para dentro de todo o contexto do protocolo de tratamento, e comentei com o grupo sobre a importância, desde aquele início, do movimento social. Então, trouxe aqui um convite para as mulheres presentes de participar dessa vida pública, dos movimentos sociais”, afirmou.
Discutir mulheres nas profissões, portanto, exige falar não apenas sobre como chegar ao topo, mas também sobre em quais condições essas mulheres estão chegando — e permanecendo.
“Monalisas Brasileiras”: arte celebra mulheres que fizeram história

A arte também ganhou espaço no Summit Mulheres nas Profissões. O artista plástico Dilson Cavalcanti levou ao evento a mostra “Monalisas Brasileiras”, projeto que transforma mulheres que marcaram a história, a cultura e a sociedade brasileira em releituras da Mona Lisa, uma das obras mais emblemáticas de Leonardo da Vinci.
Criada como uma homenagem às mulheres brasileiras, a exposição reúne retratos inspirados na estética da obra renascentista e coloca como protagonistas personalidades de diferentes épocas e áreas de atuação. Entre as mulheres “monalisadas” por Dilson estão Rita Lee, Luiza Helena Trajano, Ana Paula Padrão e Hebe Camargo.
Ao levar as obras para o Summit, Dilson aproximou arte, memória e representatividade. Se a Mona Lisa atravessou séculos como um dos rostos femininos mais reconhecidos da história da arte, as “Monalisas Brasileiras” deslocam esse olhar para mulheres que ajudaram — e continuam ajudando — a escrever a história do Brasil.
Elas fazem acontecer — mas não deveriam precisar fazer tudo
Talvez uma das reflexões mais importantes deixadas pelo Summit esteja justamente no nome escolhido para o encontro: “Elas Fazem Acontecer”.
As mulheres fazem acontecer nas empresas, nas universidades, nos hospitais, na ciência, nos pequenos negócios, nas escolas, nas famílias e nas comunidades. Mas reconhecer essa força não pode significar naturalizar a sobrecarga.
O Summit Mulheres nas Profissões reuniu mulheres que chegaram, mulheres que estão abrindo caminhos e mulheres que ainda buscam chegar.
Porque falar sobre o futuro das profissões também significa decidir qual será o lugar das mulheres nesse futuro.
E, como mostrou o encontro em São Paulo, elas não querem apenas participar dessa transformação. Querem também liderá-la.
Redação da Agência de Notícias da Aids




