Enquanto os suecos lideram os indicadores globais de prevenção e tratamento, os tunisianos enfrentam aumento de casos e desafios para ampliar o diagnóstico e o acesso à PrEP
A Copa do Mundo de 2026 é um encontro de diferentes culturas, histórias e realidades. E poucas partidas ilustram tão bem essa diversidade quanto o confronto entre Suécia e Tunísia, válido pela primeira rodada do Grupo F.
Quando a bola rolar no Estádio BBVA, em Monterrey, no México, no domingo (14), às 23h (horário de Brasília), estarão frente a frente duas seleções tradicionais de seus continentes. Mas fora das quatro linhas, o contraste entre os dois países chama ainda mais atenção.
De um lado está a Suécia, considerada uma referência mundial no combate ao HIV e o primeiro país do planeta a alcançar as metas globais estabelecidas pelo Unaids. Do outro, a Tunísia, que convive com o crescimento das novas infecções, dificuldades de acesso ao diagnóstico e barreiras que ainda limitam a prevenção entre as populações mais vulneráveis.
Na série especial da Agência Aids para a Copa do Mundo de 2026, o jogo de hoje revela que, assim como no futebol, a luta contra o HIV também apresenta seleções em estágios muito diferentes da partida.
Suécia: um país que transformou metas em realidade

Poucos países conseguiram avançar tanto no enfrentamento ao HIV quanto a Suécia. Em 2016, os suecos se tornaram a primeira nação do mundo a atingir as metas globais 90-90-90 do Unaids, objetivo que buscava garantir que a maioria das pessoas vivendo com HIV conhecesse seu diagnóstico, tivesse acesso ao tratamento e alcançasse a supressão viral.
Desde então, o país continuou avançando. Atualmente, cerca de 8.200 pessoas vivem com HIV na Suécia. Os números mais recentes mostram que 97% conhecem seu estado sorológico, 98% estão em tratamento antirretroviral e outros 98% apresentam carga viral indetectável.
Os indicadores colocam o país entre os mais bem-sucedidos do mundo na resposta à epidemia. Em 2022, foram registrados aproximadamente 350 novos diagnósticos, número considerado baixo para uma população de cerca de 10,5 milhões de habitantes.
Educação sexual e prevenção como políticas permanentes
O sucesso sueco não aconteceu por acaso. A Suécia foi pioneira na implementação de políticas públicas voltadas à educação sexual, prevenção e promoção da saúde.
O país mantém ampla oferta de testagem gratuita, atendimento especializado para populações-chave, serviços de aconselhamento, acesso à PrEP e programas específicos voltados para homens que fazem sexo com homens, migrantes e jovens LGBTQIA+.
Uma das principais referências é a clínica Venhälsan, em Estocolmo, considerada um dos mais importantes centros europeus de prevenção, diagnóstico e monitoramento do HIV.
A estratégia sueca também passa pelo investimento contínuo em pesquisa, inovação e combate ao estigma. Além disso, o país figura entre os maiores financiadores internacionais do Unaids, contribuindo para programas de prevenção e tratamento em diversas regiões do mundo.
Diagnóstico tardio ainda preocupa entre as mulheres
Apesar dos excelentes indicadores, a epidemia não foi completamente superada. As autoridades de saúde suecas alertam para um desafio que permanece relevante: os diagnósticos tardios.
Quase 60% das mulheres diagnosticadas com HIV descobrem a infecção em estágio avançado. A maioria dessas mulheres tem entre 30 e 49 anos, demonstrando que o acesso aos serviços de saúde nem sempre é suficiente para garantir o diagnóstico precoce.
Homens que fazem sexo com homens continuam representando cerca de metade dos novos casos registrados no país.
Tunísia enfrenta crescimento das infecções

Se a Suécia já disputa a fase final da partida contra o HIV, a Tunísia ainda busca reorganizar sua defesa.
O país do norte da África registra atualmente cerca de 7.700 pessoas vivendo com HIV. Embora a prevalência geral permaneça baixa, estimada em 0,1%, os números mais recentes preocupam especialistas e organismos internacionais.
Entre 2022 e 2024, o número de pessoas vivendo com HIV aumentou, assim como o total de novas infecções. Foram 650 novos casos registrados em 2022. Dois anos depois, esse número chegou a 710.
O crescimento ocorre em um contexto marcado por dificuldades de diagnóstico e baixa cobertura das estratégias de prevenção.
O maior desafio é encontrar quem ainda não sabe
O dado mais preocupante da resposta tunisiana ao HIV talvez seja o diagnóstico. Segundo o Unaids, apenas 36% das pessoas vivendo com HIV no país sabem que têm o vírus.
Isso significa que quase dois terços dos casos permanecem sem diagnóstico, dificultando tanto o início do tratamento quanto a interrupção das cadeias de transmissão. Entre aqueles que conhecem seu diagnóstico, 81% estão em tratamento e 78% alcançaram supressão viral.
Embora esses indicadores demonstrem avanços importantes, eles ainda estão muito distantes das metas globais estabelecidas pelo Unaids.
Estigma, desigualdade e acesso limitado à prevenção
Assim como acontece em diversas partes do mundo, a epidemia tunisiana está concentrada principalmente em populações-chave. Homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo e usuários de drogas injetáveis estão entre os grupos mais vulneráveis.
Entretanto, fatores sociais e econômicos dificultam o acesso dessas populações aos serviços de saúde. Relatórios das Nações Unidas apontam que muitas pessoas vivendo com HIV enfrentam desemprego, insegurança alimentar, dificuldades financeiras e situações recorrentes de discriminação.
O estigma continua sendo uma das maiores barreiras para a prevenção e o tratamento.
PrEP ainda avança lentamente
Outro desafio importante é a ampliação da PrEP. Embora a Profilaxia Pré-Exposição tenha sido regulamentada pelo governo tunisiano em 2020, sua implementação permanece limitada.
Dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento indicam que menos de 200 pessoas utilizam atualmente a estratégia por meio dos serviços públicos de saúde.
A maioria dos centros especializados está concentrada em grandes cidades como Túnis, Sousse e Sfax, dificultando o acesso da população que vive em regiões mais afastadas.
Duas realidades, um mesmo desafio
Quando Suécia e Tunísia entrarem em campo em Monterrey, o placar começará zerado. Na luta contra o HIV, porém, as duas seleções chegam à Copa em momentos bastante distintos.
Os suecos se tornaram referência global ao demonstrar que investimentos consistentes em prevenção, educação sexual, testagem e tratamento podem transformar completamente o curso de uma epidemia.
Já a Tunísia ainda busca ampliar o acesso ao diagnóstico, fortalecer suas políticas de prevenção e reduzir o impacto do estigma sobre as populações mais vulneráveis.
O confronto deste domingo mostra que, fora dos estádios, o combate ao HIV continua exigindo estratégia, investimento, trabalho coletivo e persistência. Porque, assim como no futebol, vencer uma partida é importante. Mas mudar o resultado de um campeonato inteiro exige planejamento de longo prazo.
Redação da Agência de Notícias da Aids




