30/12/2006 – 9h20
No final de dezembro (31/12), Stephen Lewis termina seu contrato de cinco anos como emissário especial da Organização das Nações Unidas para o HIV/Aids na África. Em 2007 ele também pretende inaugurar uma ONG voltada para mulheres soropositivas. Confira nesta matéria, da agência Canadian Press, um perfil do emissário nos últimos dias de seu cargo na ONU.
Stephen Lewis abre a porta de sua casa em Toronto, Canadá, desculpando-se pelo atraso em atender o visitante devido a um telefonema, um de muitos que o acompanham durante todo o dia. Minutos depois, sentado à mesa de sua sala de estar, ele olha de relance para o relógio de pulso e relembra todas as tarefas do dia: entrevistas à imprensa, discurso em um clube de executivos canadenses, reuniões, entre outros – a lista não pára.
Dentro de alguns dias, Lewis termina seus cinco anos como emissário especial da ONU para o HIV/Aids na África. Mesmo assim, não perde a oportunidade de alertar que mundo perde na batalha contra a pandemia que infectou 39,5 milhões de pessoas, com o número estimado de mortes em 25 milhões (desde a década de 80).
De acordo com ele, a África Subsaariana é a região que mais necessita de ajuda: dois terços da população local está infectada pelo vírus da Aids. Seu amor pelo continente é demonstrado com fotos na parede e brinquedos africanos para os seus netos.
Ao olhar de volta para o passado, em 2001, quando foi nomeado pelo Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, como emissário especial, ele admite que não estava preparado para a missão. “Ninguém sabia exatamente o que seria o trabalho”, lembra. “Realmente não conhecia as circunstâncias cruéis. Eu tinha o senso que a situação não era boa na África, mas não conhecia o massacre contra a população, especialmente as mulheres que se infectam pelo vírus HIV”, diz.
Lewis projetou seu próprio trabalho visitando países como Malauí, Zâmbia e Lesoto, relatando para Annan o que sua equipe encontrava. A situação vislumbrada nos locais destruiu seu coração e senso social de justiça: milhões de mortos ou em vias de morrer; uma parcela insignificante de soropositivos em tratamento com anti-retrovirais e milhões de crianças órfãs. “Estava atordoado no primeiro ano… (pára e reflete). Nos dois ou três primeiros anos. E as coisas estavam num estado lastimável porque a liderança africana permanecia em silêncio em meados de 2001. A África só iniciou sua adaptação perante o mundo naquele momento, com grandes esforços de sobrevivência. Isso é um apocalipse”, afirma.
Em 2003, na implacável exposição à morte e à miséria, Lewis quase foi tragado por um momento de desespero, quando se questionou se poderia continuar com o trabalho. Ele visitava um Hospital na Zâmbia, na ala pediátrica, que possuía quartos com 5 ou 6 crianças, em cada um – todas desnutridas e portadoras do HIV. “A cada 10 minutos, uma criança morria. Depois, havia o grito da mãe angustiada. Fiquei atordoado, lembro que três crianças morreram na primeira meia-hora em que permaneci no local”, conta. Mesmo fora do edifício, outros gritos ecoavam. “Rangi os dentes e resolvi continuar a batalha”, comenta.
A sua eloqüência como orador e líder começou na década de 60, como membro da legislatura na cidade de Ontário (Canadá). Sem rodeios, neste ano, Lewis acusou o G8 de virar as costas para a luta contra a Aids na África, permitindo o “assassinato de milhões de pessoas”; acusou o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional pelo mesmo feitio, devido às políticas de juros e cobranças “para aleijar o continente”; e ainda desafiou os governos de países africanos para legislar políticas que facilitem a vida das pessoas doentes e pobres.
Sua crítica contra a Ministra da Saúde da África do Sul, Manto Tshabalala-Msimang – pelo fato dela recomendar que soropositivos tratassem a Aids com limão e óleo de oliva -, lhe rendeu o status de ´persona non grata’ no país. Lewis continuou seu grito pela África na Conferência Internacional de Aids em Toronto, realizada em agosto deste ano, e dividiu experiências com Bill e Melinda Gates. Ainda disse que o mundo lhe devia gratidão pelos seus serviços públicos prestados. Mas nem todos são admiradores dele.
Durante a Conferência, a colunista do jornal canadense Globe and Mail, Margaret Wente, descreveu-o como um político com “retórica apocalíptica” e sugeriu que o “Deus Stephen” tomasse pílulas contra ansiedade. Será que Stephen se sente um Deus? “Não”, responde. Ele afirma que riu com tom escárnio da colunista. Lewis ressalta que compartilha o sofrimento de africanos e que é “uma voz entre centenas das vozes que estão clamando por ajuda”.
Sua esposa Michele Landsberg, que se aposentou como colunista do jornal Toronto Star há alguns anos, preside a diretoria do Hospital das Mulheres em Toronto e diz que Lewis se sente ofendido pela aura de santo. “Ele não pode carregar um fardo desses, todos nós sentimos que é um trabalho que pode ser realizado por qualquer pessoa, não merece tanta fama”, diz. Contudo, as honras vieram.
Lewis foi nomeado como Companheiro da Ordem do Canadá em 2003. Dois anos mais tarde, seu nome apareceu na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time, ao lado de Nelson Mandela e Dalai Lama. Kofi Annan disse, por meio de porta-voz, que Lewis “trabalhou implacavelmente contra a epidemia, mostrando-se como uma grande arma na luta da Aids”.
Seu compromisso foi uma inspiração para o Dr. David Tu, um médico de família que mora em Vancôver e trabalhou em diversos países africanos pela ONG Médicos Sem Fronteiras nos últimos cinco anos. “Quando você está trabalhando em campo, pode focalizar pacientes individuais e seus interesses, hospitais individuais e clínicas. Mas temos que ter uma visão macro, analisando o quadro histórico do país, para entender o que acontece, se esforçar e tentar melhorar a vida das pessoas, mas nem sempre isso é possível”, diz o médico.
Um filme que Tu assistiu sobre o trabalho de Lewis aumentou ainda mais sua admiração pelo emissário da ONU. “Ele luta pelos mesmos ideais que eu no dia-a-dia, com trabalho árduo e dedicação. O que realizo é uma pequena peça que funciona dentro de um conjunto. Lewis luta para que os processos necessários para o combate contra a pandemia aconteçam no âmbito geral”, comenta o Dr. David Tu.
Recentemente, Lewis completou 69 anos e brinca que só agora começa a se sentir com 40. Ele ainda afirma que irá colocar em prática outros projetos nos próximos 25 anos. Um deles é lançar um livro biográfico destacando sua carreira internacional como embaixador da ONU no Canadá (1984-88) e sua atuação entre 1995 e 1999 como diretor-executivo no Unicef. Ele ainda garante que não abandonará o tema Aids quando terminar seu mandato de emissário especial neste domingo (31/12).
Stephen pretende trabalhar na ONG que ajudou a fundar, a Stephen Lewis Foundation, que atualmente é dirigida por sua filha mais velha, Ilana Landsberg-Lewis. A Fundação arrecadou $18 milhões de dólares nos últimos três anos e possui mais de 150 programas em 14 países africanos, oferecendo roupas, abrigo, verbas para taxas da escola infantis e ajuda aos avós que cuidam de crianças soropositivas.
Em 2007, Lewis pretende lançar o primeiro escritório de sua nova ONG nos Estados Unidos para ajudar mulheres pobres, vítimas do HIV/Aids com trabalhos de advocacy, não apenas na África, mas ao redor do mundo. “Acredito que a próxima pessoa a ocupar meu cargo em 2007 deva ser uma mulher negra africana, para enfatizar o avanço da epidemia entre elas. Me sinto meio incomodado as vezes nesta posição de destaque, sendo um homem canadense branco”, finaliza.
Fonte: Agência Canadian Press
Tradução: Rodrigo Vasconcellos



