Uma reportagem de Rosimeire Silva, no jornal “Cruzeiro do Sul”, diz que, de 2010 para cá, caiu cerca de um terço o número de novos casos de HIV/aids em Sorocaba, interior de São Paulo. O maior recuo aconteceu em 2013. Pessoas vivendo com HIV dão depoimentos na repoortagem que você lê a seguir:
O número de novos casos de pacientes com aids tem apresentado uma tendência de queda nos últimos quatro anos em Sorocaba (SP). Em 2010, ano de maior incidência de novos diagnósticos da doença na cidade, com 413 casos identificados, a média chegou a 34 registros de pacientes infectados com o vírus HIV por mês. Neste ano, até o dia 21 de julho, o Programa Municipal de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST/Aids), da Secretaria da Saúde de Sorocaba, registrou 72 novos casos, ou seja, uma média de pouco mais de dez novos pacientes por mês, praticamente um terço de quatro anos atrás.
Em 2013 foi registrado o maior recuo de novos pacientes, com um total de 219 casos, 32,8% abaixo do registrado no ano anterior (326) e 47% a menos que o índice de 2010 (413). Desde 1996, quando a Secretaria da Saúde passou a fazer a notificação de casos da doença, Sorocaba somou 1.890 pacientes soropositivos. Deste total, 1.123 são homens (59,4%), 731 mulheres, incluindo gestantes (38,6%) e 36 crianças (1,9%).
Essa menor incidência de novos casos de aids em Sorocaba acompanha uma tendência mundial, identificada em estudo divulgado recentemente pelo Programa das Nações Unidas HIV/Aids. Mas contrasta com o cenário nacional, que aponta um aumento médio de 11% de pacientes com o vírus HIV num período de seis anos.
A presidente do Grupo de Educação à Prevenção Contra a Aids em Sorocaba (Gepaso), Maria Lucila Magno, que há quase 30 anos milita no movimento de apoio aos pacientes e seus familiares, considera que o que tem favorecido esse recuo no avanço de novos casos de aids em Sorocaba é a boa rede de atendimento especializado disponível na cidade e os programas de prevenção mantidos no município tanto pelo serviço público como por Organizações Não-Governamentais (ONGs).
Ainda é pouco
A médica infectologista Rosana Maria Paiva dos Anjos, coordenadora do Núcleo de Epidemiologia do Conjunto Hospitalar de Sorocaba (CHS), que há quase trinta anos também atua na implantação de programas de tratamento e prevenção, confirma que em Sorocaba vem sendo observada uma redução gradativa no avanço da doença. “O esperado era que em função de tanta divulgação sobre a doença e as formas de prevenção, se reduzisse a zero ou próximo disso os novos casos", comentou.
O maior agravante, alerta a infectologista, é que muitos portadores sequer sabem de sua sorologia e podem estar infectando outras pessoas. No ano passado, dos 8.730 exames para HIV realizados nas unidades de saúde do município, 127 foram positivos. Rosana dos Anjos afirma que ainda hoje existe uma resistência por parte de muitos em realizar o teste e até mesmo uma negação da doença. “Infelizmente, muitos pacientes só procuram o serviço médico quando já estão numa situação crítica e acabam morrendo em função da doença, por não terem se submetido ao tratamento a tempo."
Prova disso é que o número de mortes provocado pela aids em Sorocaba ainda é alto. Segundo a Secretaria da Saúde, desde 1995, ano que em iniciou-se o livro de óbitos do Serviço de Assistência Municipal Especializada (Same), foram registrados 743 mortes por aids na cidade, com uma média de 40 por ano. Somente neste ano, até o dia 21 de julho, já foram 36 óbitos. "É uma das maiores incidências entre as doenças infecciosas", comenta Rosana. Além da descoberta tardia da doença, a médica afirma que muitos pacientes acabam abandonando o tratamento, o que permite o avanço rápido.
Mudança de comportamento
Na avaliação de Rosana dos Anjos é preciso investir cada vez mais em campanhas de prevenção para estimular a mudança de comportamento das pessoas em relação ao risco da infecção. "Embora as formas de prevenção já estejam bastante difundidas, é indispensável que sejam sempre reforçadas para alertar sobre os riscos do contágio. É preciso haver uma conscientização sobre a gravidade dessa doença, que provoca uma mudança drástica na vida e que pode levar à morte. E o melhor caminho ainda é a prevenção."
A Secretaria da Saúde cita que entre as ações de combate à aids desenvolvidas no município estão as campanhas educativas, com distribuição de materiais informativos em escolas, empresas, unidades de saúde e diversos estabelecimentos e de insumos de prevenção como preservativos masculinos, femininos e gel lubrificante. A Campanha Fique Sabendo também incentiva a realização do teste rápido de HIV nas unidades de saúde.
Pacientes relatam a dificuldade em aceitar a doença
"O problema das pessoas é achar que algo assim só acontece com os outros e nunca com elas. O que é um grande engano". O desabo é do aposentado L.F. (pediu para não ter o nome completo divulgado), que há 17 anos descobriu que era soropositivo de HIV. Ele conta que embora desconfiasse que pudesse ter sido contagiado por seu parceiro, que morreu com aids, demorou cinco anos para fazer o teste. "Eu não tinha coragem. É muito difícil admitir isso, pois o preconceito ainda é muito grande", relata.
L. conta que só tomou a decisão de fazer o teste após um amigo ter apresentado os sintomas e morrido 44 dias depois de ter a confirmação que estava com aids. "O abalo emocional é muito grande, principalmente pelo preconceito que envolve". Até hoje ele diz que somente as pessoas mais próximas sabem que é soropositivo e nunca mais conseguiu se relacionar com ninguém. "Eu luto há 17 anos e já passei por muita coisa, mas é preciso continuar seguindo e procurar melhorar a autoestima, que é tudo pra gente."
A dona de casa L.P., 55 anos (que também pediu para não ter o nome identificado), teve a sua vida transformada depois que soube que era soropositiva. Casada há 19 anos, ela conta que foi surpreendida com o diagnóstico da doença depois de passar por uns exames de rotina de saúde. Como não pertencia a nenhum grupo de risco, L. diz que ainda hoje não sabe como foi infectada. "Eu desconfio que foi depois de uma pequena cirurgia que fiz, mas nunca consegui comprovar isso."
Ela conta que o maior desafio que veio com a doença foi enfrentar o afastamento das pessoas, inclusive de familiares. Embora tenha permanecido casada por mais seis anos depois do diagnóstico, L. conta que as brigas e ofensas eram constantes, pois o teste do seu marido deu negativo. "Enfrentei muita coisa e até pensei em me matar, mas felizmente consegui superar tudo isso e hoje posso dizer que sou uma pessoa feliz, apesar de tudo."
O aposentado Sérgio de Barros, 55 anos, também viu a sua vida familiar, social e profissional ruir depois que soube que era soropositivo, há 17 anos. Barros conta que passou cerca de cinco anos sem saber que estava com a doença e acabou contagiando a sua esposa na época. Ele conta que os primeiros anos foram muito difíceis, pois a mulher e seus filhos acabaram se afastando, o que provocou um abalo emocional muito grande, mas que acabou sendo superado com o passar dos anos. "Eu nunca tive problema de aceitação da doença. Cada um tem a sua história, mas eu felizmente me relaciono bem com todos e procuro viver bem".



