
Na última terça-feira (5), o Projeto PrEP América do Sul encerrou a disciplina “Antropologia da Saúde e Prática Etnográfica” da Universidade Estadual do Amazonas (UEA) com a conferência on-line “HIV/Aids, saúde global e lutas pela justiça sanitária”. O evento trouxe como convidado especial o antropólogo e ativista Richard Parker, uma das figuras mais proeminentes no estudo e enfrentamento da epidemia de HIV/aids no mundo.
Parker, que tem uma trajetória ativa na Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), abordou temas centrais da saúde pública global e da justiça sanitária, áreas nas quais ele atua com pesquisas e iniciativas de impacto. Sua fala destacou as lições acumuladas ao longo das décadas de enfrentamento ao HIV/aids, focando na necessidade de repensar abordagens e políticas para uma resposta mais efetiva e justa à epidemia.
Reflexões sobre o passado e o futuro da luta contra o HIV/aids
Durante sua palestra, Richard Parker traçou um panorama sobre a pandemia de HIV/aids, seus impactos e os desafios atuais na saúde pública global. Uma das preocupações centrais foi a necessidade de despatologizar o discurso sobre aids, ressaltando que a resposta à epidemia precisa ir além da mera abordagem biomédica. Ele discutiu, ainda, os problemas de financiamento e a necessidade de novos enfoques, já que as estratégias pioneiras das décadas iniciais da epidemia, embora inovadoras, precisam ser atualizadas para os desafios contemporâneos.
A importância da antropologia para a compreensão das realidades vividas
Em sua fala, Parker ressaltou a relevância da teoria antropológica e da etnografia para uma compreensão mais profunda das experiências das pessoas afetadas pela aids. “A visão científica e a perspectiva antropológica nem sempre coincidem, e há momentos em que essas abordagens entram em tensão”, explicou. Ele compartilhou, ainda, sua trajetória pessoal e acadêmica na antropologia, narrando como seu percurso se cruzou com a epidemia de aids.
Parker revelou que, enquanto completava sua formação na Universidade da Califórnia, em Berkeley, no início dos anos 80, a epidemia de aids começava a ganhar visibilidade global. Ele relembrou seu primeiro trabalho de campo no Brasil, em 1982, ano em que foi registrado o primeiro caso de aids no país, o que marcou profundamente sua carreira e sua vida. “Assim, minha formação se cruzou com a questão da aids desde cedo, e ela então tornou-se uma questão central na minha vida, conectando-se com minha formação acadêmica”, disse.
“De certa forma, para mim isso foi razoavelmente positivo, porque possibilitou uma relação mais direta e engajada com o campo da saúde do que se fosse uma formação acadêmica, pois pude trazer para a pesquisa aspectos sobre a vida que nós estávamos vivendo naquele momento”, complementou.
Mais adiante, o pesquisador falou sobre a importância da colaboração entre as ciências sociais e biomédicas, categorizando-a como uma relação importante. Segundo o antropólogo, a prática etnográfica na saúde pública constantemente é um pouco marginalizada, subestimada e raramente adotada integralmente, sendo reduzida a simples observação e não como uma metodologia rigorosa de pesquisa, como as demais. Nessa perspectiva, ele diverge: “Para nós que somos da antropologia, pelo contrário, a prática etnográfica é quase que uma questão existencial. A prática etnográfica não é algo que se faça simplesmente em um projeto de pesquisa, é um modo de viver. Você vai vivendo a sua vida, observando o que está vivendo e constantemente construindo a sua compreensão do mundo em que vive por conta dessas observações”, defende.
Na sequência, Richard refletiu sobre alguns aspectos culturais que afetam as práticas de saúde no contexto da saúde pública mundial e brasileira. “A saúde no Brasil, que aqui chamamos de saúde coletiva, diferente de outros lugares do mundo, surgiu ao longo das últimas décadas e tem uma abertura para as ciências sociais, para a investigação qualitativa e para uma série de abordagens que são marginalizadas na saúde pública internacional, especialmente na saúde norte-americana e europeia. Eu me sinto bastante feliz, privilegiado, por ter iniciado o meu trabalho com saúde coletiva no Brasil e ter a ótica da saúde coletiva para poder implementar esses conhecimentos.”
Colonialidade e saúde global
Na ocasião, o professor mencionou a relação colonial entre saúde e justiça sanitária. De acordo com Parker, as mudanças vão acontecendo ao longo do tempo, mas não podemos ver a saúde global de forma separada de relações de poder. Ele afirma que “temos que entender as relações de poder para poder interpretar, analisar onde é que nós estamos pisando na prática dos cuidados de saúde.”
“Só vamos conseguir resolver as questões biomédicas resolvendo as questões, os bloqueios sociais”, finalizou.
Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
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