Site divulga conceito errado de risco ao destacar que homem não se infectou ao engravidar esposa soropositiva

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28/11/2014 – 18h

O site Gadoo, hospedado pelo R7, publicou uma notícia sobre um casal britânico – ela com HIV, ele soronegativo – que engravidou naturalmente, ou seja, fazendo sexo sem camisinha. A manchete foi: "marido arrisca contrair o vírus e consegue engravidar esposa com AIDS sem se infectar". No entanto, a tentativa de concepção natural por mulheres soropositivas já é considerada uma medida "razoável" desde 2008 na Inglaterra, segundo as recomendações médicas oficiais

Desde 2011, pesquisas importantes têm confirmado a queda da transmissibilidade em pessoas sob tratamento eficaz e a tendência é a incorporação das novas evidências em todas as diretrizes oficiais britânicas sobre HIV, como já ocorreu no caso da profilaxia pós-exposição em 2011 e na suspensão das restrições a profissionais de saúde soropositivos em tratamento, em 2014.

O primeiro erro da matéria – uma tradução automática de uma reportagem do jornal sensacionalista britânico The Mirror – foi dizer que a esposa, Amanda Mammodova, tinha aids, que é a doença causada pelo HIV. Porém, as fotos, a história e o fato de que ela vive em um país onde o acesso ao tratamento é garantido indicam que ela é uma portadora saudável do vírus. A confusão entre HIV e aids ainda é comum na mídia.

A matéria destaca o apoio do marido, Ali, que "decidiu correr o risco de receber o HIV" para tornar realidade o sonho de ter uma família. Porém, segundo as recomendações médicas britânicas, a concepção natural "não é mais contra-indicada". O documento aponta os riscos de transmissão como mínimos, sob a condição de que a mulher estivesse há pelo menos seis meses em tratamento bem-sucedido – ou seja, com o vírus desaparecido do sangue.

A recomendação britânica sugere ainda uma alternativa 100% segura para os casos em que o portador do vírus é a mulher: a auto-inseminação, ou seja, a aplicação do sêmen, com uma seringa, na vagina da mulher. De forma que épossível que a opção pelo sexo natural não tenha se baseado somente no projeto reprodutivo.

Uma vez grávida, a mulher soropositiva deve continuar a medicação regularmente para evitar que o vírus seja transmitido para o feto.

O Ministério da Saúde brasileiro publicou em 2010 um documento no tema que também abre a possibilidade de concepção natural em casos de vírus indetectável no sangue e sugere que se considere o uso de coquetel preventivo para o parceiro negativo após o sexo. A Organização Mundial da Saúde já havia publicado em 2006 posição parecida, mas para regiões de baixa renda.

No entanto, os três documentos podem ser considerados desatualizados, já que as maiores evidências sobre a dramática redução da transmissibilidade do HIV surgiram depois.

Duas pesquisas recentes estudaram casais sorodiscordantes (um positivo e outro negativo) que fazem sexo sem camisinha. Em 2011, o estudo HPTN-052 mostrou que uma redução de 96% da transmissão do vírus quando o soropositivo da relação estava em tratamento – sem necessariamente estar com o vírus indetectável ou baixo. 

Em 2014, resultados preliminares do estudo Partner não mostraram nenhuma transmissão quando a quantidade de vírus no sangue era baixa, apesar de mais de 40.000 relações sexuais estimadas entre os participantes.

É possível que sejam publicadas revisões dos documentos sobre reprodução em breve, já que a tendência é que o aconselhamento médico à reprodução de pessoas vivendo com HIV incorpore de forma mais sistemática a concepção natural, desde que respeitadas as condições de vírus indetectável e acompanhamento pré-concepcional.

O sexo em geral tende a ser reexaminado. Em 2008, a autoridade sanitária da Suíça declarou que o HIV não é transmissível sexualmente se o vírus está indetectável há pelo menos seis meses e não há outras doenças sexualmente transmissíveis. Autoridades britânicas se pronunciaram oficialmente sobre o uso do tratamento como forma de prevenir a transmissão em 2013. O mesmo ocorreu em 2014 no Canadá e na Suécia.

As novas evidências da queda da transmissibilidade em pessoas com vírus indetectável provocaram revisões em pelo menos dois documentos oficiais britânicos.

Em 2011, as recomendações de profilaxia pós-exposição – o coquetel preventivo dado a pessoas soronegativas que tiveram uma exposição sexual ao HIV – foi modificado. Agora, o remédio não é mais indicado a um homem soronegativo que tenha penetrado sem preservativo um parceiro ou parceira soropositivo com vírus indetectável – que é o caso de Ali. 

Em janeiro de 2014, foram suspensas as restrições a profissionais de saúde soropositivos com vírus indetectável – antes, os soropositivos eram proibidos de realizar procedimentos muito invasivos, como cirurgias abdominais.

O site optou por abordar, de maneira sensacionalista, uma noção de risco contestada pela comunidade científica, quando poderia ter aberto uma discussão atualizada sobre a sexualidade e reprodução da pessoa vivendo com o HIV e os benefícios do acompanhamento médico e do tratamento.

Nos comentários, leitores destacaram a atitude de Ali como um exemplo de amor e de fé. Uma leitora criticou a matéria; "um enorme erro de informação e ofensiva para nós, mães soropositivas". A versão brasileira foi compartilhada 2.500 vezes nas redes sociais e a versão original, 750 vezes.
 

Henrique Contreiras, colaborador da Agência de Notícias da Aids (henrique@agenciaaids.com.br)

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