Novo boletim do Ministério da Saúde revela mais de 283 mil casos de sífilis adquirida em 2025. Apesar dos avanços no diagnóstico, milhares de gestantes não recebem tratamento adequado, e a transmissão da infecção continua desafiando o SUS.
O Brasil registrou, em 2025, o maior índice de detecção de sífilis adquirida de sua série histórica, enquanto milhares de crianças continuaram sendo afetadas pela transmissão da infecção durante a gestação. Foram 283.413 casos de sífilis adquirida, 100.650 diagnósticos em gestantes, parturientes ou puérperas e 24.239 notificações de sífilis congênita. A doença também provocou a morte de 195 crianças menores de um ano, apesar de contar com diagnóstico acessível, tratamento eficaz e cura.
Os dados constam no Boletim Epidemiológico de Sífilis 2026, divulgado em outubro pelo Ministério da Saúde. O levantamento mostra que, embora o país tenha ampliado a identificação precoce da infecção, persistem dificuldades para garantir o tratamento adequado, especialmente durante a gravidez. Entre as mães de crianças diagnosticadas com sífilis congênita, 83,3% realizaram pré-natal, mas 86,2% tiveram tratamento inadequado ou não foram tratadas.
A contradição revela um dos principais desafios da resposta brasileira à sífilis: não basta identificar a infecção. É preciso assegurar que o diagnóstico resulte em tratamento oportuno, acompanhamento e prevenção de novas transmissões.
Sífilis cresce e atinge principalmente a população jovem
Em 2025, a taxa de detecção de sífilis adquirida chegou a 132,8 casos por 100 mil habitantes, aumento de 9,3% em relação ao ano anterior. Desde 2010, o Brasil já contabilizou mais de 2,19 milhões de notificações, com crescimento acentuado após a pandemia de covid-19.
A infecção apresenta maior concentração entre adultos jovens. Pessoas de 20 a 29 anos registraram as taxas mais elevadas, mas o boletim também identifica crescimento entre adolescentes e pessoas de faixas etárias mais avançadas. Entre adolescentes de 13 a 19 anos, a taxa de detecção aumentou 17,7% entre 2024 e 2025, passando de 104,1 para 122,5 casos por 100 mil habitantes.
Embora os homens representem a maioria dos diagnósticos de sífilis adquirida, entre adolescentes as notificações são mais frequentes no sexo feminino. O cenário reforça a importância de ampliar o acesso à educação sexual, aos preservativos, à testagem e aos serviços de saúde.
O Ministério da Saúde ressalta que o crescimento das notificações também pode refletir a ampliação dos exames e a melhoria da vigilância epidemiológica. Ainda assim, a persistência de taxas elevadas demonstra a necessidade de fortalecer as estratégias de prevenção e cuidado.
O desafio começa no pré-natal

A transmissão da sífilis da gestante para o bebê permanece entre os problemas mais graves identificados pelo boletim. Embora os diagnósticos no primeiro trimestre da gravidez tenham aumentado de 32,2%, em 2015, para 52,9%, em 2025, mais de 25 mil gestantes tiveram a infecção identificada apenas no terceiro trimestre ou no momento do parto.
A penicilina G benzatina, disponibilizada pelo SUS, é o medicamento recomendado para tratar a sífilis durante a gestação e prevenir a infecção fetal. Em 2025, 91,6% das gestantes diagnosticadas tiveram prescrição de pelo menos uma dose, mas somente 85,1% apresentaram registro de prescrição compatível com a classificação clínica da doença.
O levantamento identificou ainda 6.268 gestantes sem prescrição de tratamento ou com indicação de esquemas terapêuticos diferentes dos recomendados. Outro problema é a baixa adesão das parcerias sexuais ao cuidado: apenas 33,9% das parcerias de gestantes com sífilis foram tratadas, favorecendo a possibilidade de reinfecção durante a gravidez.
As consequências aparecem nos registros de sífilis congênita. Em 2025, 14.529 crianças diagnosticadas com a infecção tinham mães que receberam o diagnóstico durante o pré-natal. Segundo uma simulação apresentada pelo Ministério da Saúde, o tratamento adequado de todas essas mulheres poderia ter evitado até 59,9% dos casos de sífilis congênita notificados naquele ano.
O dado evidencia que a prevenção depende da qualidade da assistência, da conclusão do tratamento e da continuidade do acompanhamento, e não apenas da realização de consultas e exames.
Queda nos casos congênitos ainda está longe da meta de eliminação
O Brasil apresentou redução de 10,6% no número de casos de sífilis congênita entre 2021 e 2025, passando de 27.121 para 24.239 registros. Apesar do recuo, a incidência permanece elevada: 9,9 casos por mil nascidos vivos, muito acima da meta de menos de 0,5 caso estabelecida para a eliminação da sífilis congênita como problema de saúde pública nas Américas.
A infecção também está associada a abortos, natimortos e complicações graves nos recém-nascidos. Entre 1998 e 2025, o Brasil contabilizou 3.936 mortes de crianças menores de um ano por sífilis congênita. Somente em 2025, foram 195 óbitos, mantendo a taxa de mortalidade praticamente estável em relação à registrada dez anos antes.
As dificuldades se estendem à assistência infantil. O boletim aponta 1.954 casos de sífilis congênita sem registro de tratamento e informa que apenas 52,8% das crianças diagnosticadas realizaram exame do líquido cefalorraquidiano, utilizado na investigação de possíveis complicações neurológicas.
Desigualdades sociais e regionais aprofundam o problema
Os números mostram que a sífilis não se distribui igualmente pelo território brasileiro. Em 2025, o Espírito Santo apresentou a maior taxa estadual de detecção de sífilis adquirida, com 215,2 casos por 100 mil habitantes. Já o Rio de Janeiro registrou a maior taxa de detecção entre gestantes, com 76,7 casos por mil nascidos vivos.
Na sífilis congênita, Rio Grande do Sul e Pernambuco apresentaram as maiores incidências estaduais, respectivamente 15,1 e 14,8 casos por mil nascidos vivos. Entre as capitais, Belém, Salvador, Porto Alegre e Natal concentraram os indicadores mais elevados, com taxas que variaram de 20,3 a 31,8 casos por mil nascidos vivos.
A mortalidade revela disparidades ainda mais acentuadas. A Região Norte registrou 16 mortes por sífilis congênita a cada 100 mil nascidos vivos, mais que o dobro da média nacional, de 7,9. No Acre, a taxa chegou a 63,2, a maior entre os estados brasileiros.
As desigualdades raciais também aparecem nos registros. Pessoas negras representaram 58,1% dos casos notificados de sífilis adquirida e 67,4% dos diagnósticos em gestantes. Entre as crianças com sífilis congênita, 70,5% tinham mães negras.
Para o Ministério da Saúde, as diferenças refletem a influência das desigualdades sociais, das barreiras de acesso e das condições de vulnerabilidade sobre a ocorrência da infecção e seus desfechos.
Ampliação da prevenção e perspectivas para o SUS

Diante desse cenário, o Ministério da Saúde vem ampliando o acesso ao teste rápido combinado para HIV e sífilis. A aquisição passou de 4,5 milhões de unidades, em 2024, para 11 milhões em 2026, com prioridade para o pré-natal e populações em situação de vulnerabilidade às infecções sexualmente transmissíveis.
Outra estratégia é a DoxiPEP, profilaxia pós-exposição com doxiciclina destinada à prevenção de determinadas ISTs bacterianas. Recomendada para incorporação ao SUS em março de 2026, a medida está em processo de implementação e poderá ampliar as alternativas de prevenção para populações específicas.
O boletim também destaca iniciativas de certificação de estados e municípios que avançaram na eliminação da transmissão vertical. Até dezembro de 2025, quatro municípios brasileiros haviam sido reconhecidos pela eliminação da sífilis congênita como problema de saúde pública. Para 2026, o Ministério da Saúde prevê a ampliação do processo, com novas certificações de municípios e estados.
Redação da Agência de Notícias da Aids



