Mesmo com diagnóstico e tratamento gratuitos pelo SUS, o Brasil ainda enfrenta o desafio da sífilis congênita. Especialista do Instituto Emílio Ribas explica como a prevenção começa no pré-natal e por que o envolvimento do parceiro é essencial
A sífilis é uma doença antiga e curável. Ainda assim, segue preocupando profissionais de saúde e autoridades públicas no Brasil. Causada pela bactéria Treponema pallidum, a infecção pode ser transmitida sexualmente e também da gestante para o bebê durante a gravidez. Quando não tratada a tempo, essa transmissão pode causar sequelas graves ou até a morte do recém-nascido.
Um problema de saúde pública evitável
“O Treponema pallidum foi descrito no início do século XX e, mais de cem anos depois, continua sendo um importante problema de saúde pública”, afirma o Dr. Bernardo Porto Maia, chefe de UTI e Pronto-Socorro do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.
Segundo o especialista, a sífilis vem crescendo de forma preocupante no Brasil e no mundo:
“Tivemos mais de um milhão e meio de casos notificados desde 2010. Esse aumento se deve tanto à maior liberdade sexual e ao menor uso de preservativos, quanto ao fato de a notificação ter se tornado obrigatória a partir de 2010”, detalha.
A infecção, no entanto, pode permanecer silenciosa por muito tempo:
“A pessoa pode estar infectada, transmitindo o agente, sem sentir absolutamente nada. A sífilis tem um período de latência muito longo, que pode durar décadas”, explica o médico.

Dr. Bernardo Porto Maia, médico infectologista, conhecido por sua atuação no Instituto de Infectologia Emílio Ribas em São Paulo | Foto: Acervo Pessoal
Sífilis gestacional e congênita: o que muda?
Entre as várias formas da doença, duas merecem atenção especial: a sífilis gestacional e a sífilis congênita.
“A sífilis gestacional é quando uma pessoa grávida é infectada pelo Treponema pallidum. Já a sífilis congênita acontece quando essa bactéria é transmitida para o bebê, ainda durante a gestação ou no parto”, pontua o infectologista.
A infecção do bebê pode trazer consequências sérias:
“A transmissão pode levar a natimortos e a uma mortalidade infantil elevada por uma causa absolutamente evitável”, reforça. “Por isso, a sífilis gestacional é uma oportunidade diagnóstica para evitar algo muito mais grave.”
Testagem no pré-natal: uma simples picada que salva vidas
O diagnóstico precoce é a principal ferramenta de prevenção:
“Durante o pré-natal, a triagem sorológica para sífilis é obrigatória e deve ser feita em três momentos: no primeiro trimestre, entre a 28ª e a 32ª semana, e novamente no momento do parto”, orienta o Dr. Bernardo.
O exame é rápido e gratuito, realizado com uma pequena amostra de sangue:
“Uma simples picada no dedo pode salvar a vida de um bebê”, enfatiza.
Tratamento simples, eficaz e gratuito
O tratamento da sífilis é seguro e está disponível em qualquer unidade de saúde:
“A penicilina continua sendo o antibiótico de primeira escolha. É eficaz, não há registro de resistência bacteriana e o tratamento é simples”, explica o especialista.
A dose e a forma de aplicação variam conforme o estágio da doença:
“Para sífilis primária e secundária, fazemos uma única aplicação intramuscular. Já em casos mais avançados, o tratamento é feito com doses semanais ou intravenosas, dependendo da gravidade”, detalha.
E se houver alergia à penicilina?
“Temos alternativas como a doxiciclina, que é via oral, e a ceftriaxona, aplicada na veia. Ambas são eficazes, mas exigem mais tempo de tratamento e podem ter maior risco de abandono”, observa.
O papel do parceiro e o risco da reinfecção
Um dos maiores desafios no controle da sífilis na gestação é o tratamento incompleto do casal:
“O tratamento só é considerado adequado quando a gestante e a parceria sexual recebem o medicamento ao mesmo tempo”, destaca.
Durante a conversa, o especialista relembrou um caso marcante vivido na atenção básica:
“Atendi uma gestante que já havia tratado a sífilis várias vezes. No terceiro trimestre, o exame voltou a indicar nova infecção. O marido nunca quis se testar nem tratar. Ela não tinha outros parceiros, então ficou claro que estava sendo reinfectada pelo próprio companheiro”, relata.
O episódio inspirou uma pesquisa sobre o tema.:
“Mapeei casos de sífilis em homens cisgênero no Pará e percebi como a falta de tratamento das parcerias contribui para o aumento de sífilis gestacional e congênita”, conta.
Avanços e desafios
Mesmo com tantos obstáculos, o Brasil tem registrado avanços:
“De acordo com o último boletim epidemiológico, conseguimos evitar 71% das infecções congênitas quando a sífilis gestacional é diagnosticada e tratada a tempo”, ressalta o infectologista.
Mais importante do que observar o número total de casos, afirma o Dr. Bernardo, é entender o impacto do diagnóstico precoce:
“Se tivermos mais diagnósticos e mais tratamentos adequados, vamos reduzir a sífilis congênita, que é o nosso principal problema em termos de gravidade.”
Prevenção e cuidado contínuo
A sífilis é totalmente evitável e curável, desde que o diagnóstico e o tratamento ocorram no tempo certo.
“Diagnóstico precoce e tratamento adequado são as duas ferramentas mais poderosas que temos. Elas quebram a cadeia de transmissão e protegem vidas”, conclui o especialista.
Para quem descobre a infecção, o caminho é simples: procurar a unidade básica de saúde mais próxima, realizar o teste e seguir corretamente as orientações da equipe de saúde:
“O mais importante é que ninguém se sinta sozinho nesse processo. O SUS oferece todo o suporte — do pré-natal ao tratamento completo — de forma gratuita e acolhedora”, finaliza.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
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