Apesar de ser uma das infecções sexualmente transmissíveis (ISTs) mais antigas conhecidas e de ter cura há décadas, a sífilis ainda é um grande desafio para a saúde pública no Brasil e no mundo. O aumento recente dos casos preocupa especialistas e reforça a importância da testagem e da informação.
O médico sanitarista Dr. François Figueiroa, diretor da Clínica do Homem da AHF – AIDS Healthcare Foundation – em Recife, acompanha de perto essa realidade. Ele explica que, embora a doença seja conhecida, diagnosticada e tratada com um medicamento simples e eficaz, o problema vai além da biologia.
“A sífilis é uma das doenças sexualmente transmissíveis mais antigas e, ainda hoje, é um problema de saúde pública mundial. Mesmo com diagnóstico fácil e tratamento eficaz, ela tem aumentado tanto em países em desenvolvimento quanto nos desenvolvidos”, explica o médico.
Segundo dados citados por Figueiroa, o Brasil registrou em 2023 cerca de 113 casos de sífilis adquirida a cada 100 mil habitantes, além de 10 casos de sífilis congênita para cada mil nascidos vivos — quando o bebê nasce infectado. O número está muito acima do recomendado pela Organização Mundial da Saúde, que é de meio caso por mil nascidos vivos.
Estigma e desinformação ainda são barreiras
O médico aponta que o preconceito e o estigma ligados à sexualidade estão entre as maiores barreiras para o enfrentamento da doença.
“O principal fator que dificulta o controle da sífilis é o preconceito, o estigma e a discriminação relacionados à sexualidade. É uma infecção que carrega peso, culpa e tabu, e isso afasta as pessoas do diagnóstico e do tratamento”, afirma.
Ele destaca também a falta de informação qualificada. Mesmo com as redes sociais e o fácil acesso a dados, a educação sexual retrocedeu nos últimos anos, especialmente nas escolas.
“A gente acha que as pessoas são bem informadas, mas, na prática, não são. Falta uma linguagem que chegue a todos os públicos. O tema da sexualidade e do uso da camisinha virou tabu, e isso precisa ser retomado com urgência”, defende.
Outro obstáculo é o medo da penicilina, medicamento padrão no tratamento da sífilis.
“A penicilina é o padrão ouro, segura e eficaz. O medo da alergia é um tabu. As reações são extremamente raras. Os serviços precisam perder esse receio e aplicar corretamente o tratamento”, orienta.
Sífilis tem fases, é silenciosa e pode passar despercebida
A infecção é causada pela bactéria Treponema pallidum e pode ter longos períodos sem sintomas, o que facilita a transmissão.
“A sífilis é dividida em fases: primária, secundária e terciária. Na primária, aparece uma feridinha indolor que costuma ser ignorada. Na secundária, surgem manchas na pele que se confundem com alergia. E na terciária, que pode levar anos para aparecer, há comprometimento de órgãos”, explica o sanitarista.
Segundo ele, o fato de não doer e muitas vezes desaparecer sozinha faz com que a pessoa acredite estar curada.
“Isso é perigoso, porque a bactéria continua no corpo e pode causar complicações graves no futuro”, alerta.

Prevenir é simples e a cura é certa
Figueiroa reforça que sífilis tem cura e que o tratamento é gratuito pelo SUS. Ele defende que a prevenção passa por medidas simples, acessíveis e diárias.
“O básico ainda é o mais eficaz: usar camisinha, testar-se regularmente e manter uma boa higiene íntima. A camisinha continua sendo a principal forma de prevenção. Não existe vacina, então é preciso falar sobre isso e conscientizar as pessoas”, explica.
O médico recomenda que quem pratica sexo se teste pelo menos uma vez por ano e, especialmente, antes de iniciar um novo relacionamento.
“Não dá pra tirar a camisinha sem antes fazer o teste. A gente precisa parar de romantizar essa confiança sem base. O ideal é que os dois se testem juntos”, reforça.
Sífilis na gestação ainda preocupa
A transmissão da sífilis da mãe para o bebê — a chamada sífilis congênita — continua sendo um dos maiores desafios do sistema público.
“Muitas mulheres só descobrem que têm sífilis quando já estão grávidas, e às vezes tarde demais. O ideal seria fazer o teste antes da gravidez, junto com o parceiro. Se isso não acontece, o início do pré-natal precisa ser imediato”, alerta.
Ele explica que o diagnóstico precoce evita abortos, parto prematuro e malformações. E reforça: o bebê e o parceiro também devem ser tratados para evitar reinfecção.

Atendimento humanizado em Recife
À frente da Clínica do Homem da AHF, o Dr. François coordena um espaço que se tornou referência em acolhimento e diagnóstico.
“A clínica foi criada para facilitar o acesso dos homens aos serviços de saúde, com localização central e horário estendido até 19h30. Não precisa encaminhamento, é só chegar”, explica.
O público atendido é diverso: homens cis, homens trans, mulheres trans e travestis. O fluxo é simples e resolutivo.
“A pessoa chega, faz os quatro testes — sífilis, HIV, hepatite B e C —, recebe aconselhamento e, se houver diagnóstico, já inicia o tratamento no mesmo dia”, descreve o médico.
Em 2025, a unidade já diagnosticou 790 casos de sífilis, o que demonstra a importância de serviços especializados e de fácil acesso.
Sífilis tem cura, e se prevenir é um ato de amor
Para o médico, o caminho para o controle da sífilis passa pela informação e pelo cuidado coletivo.
“Não espere sentir alguma coisa para fazer o teste. A maioria das infecções é silenciosa. Sífilis tem cura. Então, faça o teste, use camisinha e, se der positivo, trate-se porque tem como curar e recomeçar”, conclui.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista
AHF Brasil
Site: www.ahfbrasil.com.br




