Setembro Amarelo: Lucian Ambrós fala sobre saúde mental, HIV e acolhimento por meio do Posithividades

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No mês dedicado à prevenção do suicídio e à valorização da vida, a Agência Aids conversou com Lucian Ambrós, psicanalista, especialista em sexologia, criador de conteúdo e fundador do Posithividades, uma plataforma mobile que se tornou referência nacional no enfrentamento ao estigma do HIV.

Há 15 anos vivendo com o vírus, Lucian transformou sua experiência em combustível para inspirar milhares de pessoas. Com coragem, ele expõe fragilidades, compartilha aprendizados e constrói caminhos de acolhimento e informação. Seu trabalho, que começou quase como um desabafo pessoal, hoje alcança dezenas de milhares de pessoas todos os meses, criando redes de apoio, fortalecendo vínculos e mostrando que saúde mental também é parte essencial do cuidado em HIV.

Da dor ao acolhimento

O caminho até aqui, no entanto, não foi simples. Lucian lembra que receber o diagnóstico foi um choque profundo:

“Quando descobri o HIV, a primeira reação foi pensar em acabar com a minha vida. Eu estava em Porto Alegre, sem saber como lidar com aquilo. Foi uma amiga quem me acolheu pela primeira vez, e isso fez toda a diferença. Depois, foram sete anos mantendo minha sorologia em segredo até conseguir virar a chave e falar abertamente sobre isso.”

Esse período de silêncio, segundo ele, é vivido por muitas pessoas que recebem o diagnóstico. O peso do estigma e o medo do preconceito fazem com que parte significativa da população vivendo com HIV evite buscar ajuda — o que aumenta a solidão, agrava problemas de saúde mental e pode levar a pensamentos suicidas.

“Uma pessoa não se suicida por causa do diagnóstico em si, mas por todo preconceito e estigma que existe em torno dele. Atendi, há poucos meses, um paciente que pensava em tirar a própria vida por causa da forma como era tratado. É isso que precisamos enfrentar: a violência simbólica e social que adoece.”

Informação como chave de transformação

Lucian conta que o ponto de virada em sua trajetória foi quando decidiu buscar conhecimento. “Antes de me informar, eu vivia com medo. Não sabia o que esperar, não conseguia projetar futuro. Quando comecei a entender o que era o HIV, como funcionava o tratamento, percebi que não precisava sofrer tanto. A informação foi libertadora.”

Foi dessa vivência que nasceu, em 2017, o Posithividades. O projeto começou pequeno, mas com uma proposta clara: combater o estigma por meio de informação acessível e acolhimento. Hoje, a plataforma reúne 34 grupos simultâneos no WhatsApp, promove terapias online, organiza rodas de conversa, encontros culturais e campanhas de conscientização. São mais de 60 mil acessos mensais a conteúdos educativos, tornando-se uma das maiores comunidades digitais sobre HIV no Brasil.

Acolhimento que previne e fortalece

O trabalho também ultrapassou os limites do ambiente virtual. A Festa do Indetectável, por exemplo, celebra a vida e reforça a mensagem de que pessoas em tratamento não transmitem o vírus (I=0). Já o Prêmio Vozes Indetectáveis reconhece comunicadores e influenciadores que atuam na quebra de preconceitos. Esses marcos mostram que o Posithividades não é apenas um espaço de informação, mas também de resistência, empoderamento e celebração.

“O HIV é você contra você mesmo. Antes de mudar a sociedade, precisamos enfrentar nossos próprios preconceitos. É um processo interno que nos fortalece para, depois, transformar o mundo ao nosso redor.”

Setembro Amarelo e HIV: uma conexão necessária

Durante o Setembro Amarelo, Lucian reforça que saúde mental precisa ser tratada como parte indissociável da vida de quem vive com HIV. O preconceito, lembra ele, ainda afasta muitas pessoas do cuidado em saúde e pode intensificar sentimentos de solidão.

“Falar sobre HIV não é dever só de quem tem o vírus. É um dever da sociedade. Todos somos humanos, todos estamos vulneráveis. A empatia e o diálogo aberto salvam vidas.”

Ao abrir sua história e criar pontes de acolhimento, Lucian mostra que viver com HIV é possível, digno e cheio de possibilidades. Sua trajetória se tornou um convite para que mais pessoas busquem apoio, quebrem silêncios e reconheçam que a informação, quando compartilhada, pode ser a diferença entre a dor e a vida.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Lucian Ambrós
Instagram: @posithividades
Site:www.posithividades.com.br

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