Taxa de suicídio cresceu 42% no Brasil entre 2010 e 2021; psicólogas alertam para mudanças de comportamento, falas de desesperança e falta de espaços seguros de escuta
A taxa de mortalidade por suicídio cresceu 42% no Brasil entre 2010 e 2021, passando de 5,2 para 7,5 mortes por 100 mil habitantes. Somente em 2021, o país registrou 15.507 óbitos, dos quais 77,8% ocorreram entre homens, segundo boletim epidemiológico do Ministério da Saúde.
Os dados também revelam o impacto entre os mais jovens. Naquele ano, o suicídio foi a terceira principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos e a quarta entre pessoas de 20 a 29 anos no país. Em todo o mundo, aproximadamente 727 mil pessoas morrem por suicídio anualmente, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS).
Por trás dos números, não existe uma explicação única. O suicídio é um fenômeno complexo, atravessado por fatores sociais, culturais, econômicos, psicológicos, biológicos e ambientais. Preveni-lo, portanto, exige mais do que campanhas pontuais: passa pelo enfrentamento ao estigma, pela ampliação do acesso aos serviços de saúde mental e pela criação de espaços onde o sofrimento possa ser acolhido antes de se transformar em uma crise.
É nesse contexto que o Setembro Amarelo amplia a discussão sobre saúde mental e prevenção do suicídio. Para as psicólogas Regiane Garcia, integrante do Instituto Cultural Barong, e Vanessa Marques, do Instituto Vida Nova, o mês tem um papel importante, mas o cuidado não pode terminar quando os laços, cartazes e publicações amarelas desaparecem.
Estigma ainda adia a procura por ajuda
Embora o debate sobre saúde mental tenha conquistado mais espaço nos últimos anos, procurar atendimento psicológico ou psiquiátrico ainda é cercado por preconceitos e desinformação.
“Buscar ajuda profissional ainda é muito difícil porque ainda há má informação e estigmas”, afirma Regiane, que também é sexóloga.
Expressões como “não sou louco” ou “estou ficando louca” mostram como o cuidado em saúde mental continua associado, de maneira equivocada, à perda de sanidade. Também persiste a ideia de que quem não consegue superar sozinho um sofrimento emocional seria fraco.
“O sofrimento emocional, eu me curo sozinha, sozinho, eu resolvo. Ou, se eu estou em sofrimento emocional, é porque sou uma pessoa fraca”, exemplifica Regiane ao descrever pensamentos que podem impedir ou retardar a procura por ajuda.
Reconhecer a necessidade de apoio, porém, não significa transformar todo sofrimento em doença. Perdas, conflitos, rompimentos, dificuldades financeiras, mudanças de vida e outras experiências podem afetar profundamente qualquer pessoa.
“Está tudo bem pedir ajuda, está tudo bem mesmo”, reforça a psicóloga.
Segundo Regiane, a decisão de procurar cuidado também pode repercutir entre familiares, amigos e outras pessoas próximas. “Na hora que eu estou me ajudando do ponto de vista da saúde mental, procurando um psiquiatra ou um psicólogo, estou ajudando também as pessoas que convivem comigo.”
Mudanças de comportamento precisam ser observadas
O sofrimento psíquico não possui uma única aparência. Ele pode surgir no isolamento, na dificuldade para dormir, na perda de interesse por atividades antes prazerosas ou na falta de energia para cumprir tarefas básicas. Mas também pode se manifestar por meio de agitação, ansiedade intensa, euforia ou outras mudanças bruscas de comportamento.
Regiane afirma que é importante observar os excessos e, principalmente, aquilo que destoa do comportamento habitual da pessoa.
“Isolou demais, comeu demais, comeu de menos, dormiu demais, não dormiu, ansiedade demais, euforia demais, ficou quieto demais”, enumera. “Tudo o que sai do comum, daquilo que estamos acostumados a ver naquela pessoa, é um sinal de alerta.”
Isso não significa que familiares ou amigos devam tentar fazer um diagnóstico. O próprio Ministério da Saúde ressalta que não existe uma “receita” capaz de identificar com segurança uma crise suicida e que os sinais não devem ser analisados isoladamente.
Mudanças persistentes de comportamento, agravamento do sofrimento, isolamento, perda de esperança, abandono do autocuidado e manifestações frequentes sobre morte ou desaparecimento, entretanto, precisam ser levados a sério.
Vanessa Marques chama atenção para frases que, muitas vezes, são tratadas como desabafo passageiro: “Eu não gostaria de estar vivo”, “eu queria sumir” ou “queria dormir e não acordar”.
Essas manifestações não devem ser interpretadas como chantagem emocional. Podem indicar que a pessoa está enfrentando um sofrimento intenso e precisa ser ouvida e encaminhada para atendimento.
Escuta não pode existir apenas nos cartazes
Para Vanessa, um dos principais problemas está na distância entre falar sobre saúde mental e garantir condições reais para que as pessoas sejam acolhidas. “Deveria ter mais profissionais nas UBSs, nas escolas e em todos os lugares para fazer essa escuta ativa, para acolher o sofrimento das pessoas”, defende.
A psicóloga afirma que, muitas vezes, alguém apresenta sinais de sofrimento no trabalho, na escola, na família ou entre amigos, mas não encontra abertura para falar. “Muitas vezes, o colega do lado está passando por uma situação difícil e não é ouvido.”
Na avaliação de Vanessa, campanhas de conscientização perdem parte de sua força quando não são acompanhadas por escuta qualificada, serviços acessíveis e encaminhamento adequado. “É falado, é enfeitado, mas não é escutado verdadeiramente”, critica.
O alerta também aparece nas conclusões do boletim epidemiológico do Ministério da Saúde. O documento aponta a necessidade de enfrentar o estigma relacionado aos transtornos mentais e ao suicídio e de ampliar a Rede de Atenção Psicossocial para democratizar o acesso ao cuidado.
Nem todo sofrimento precisa esperar virar crise
Tristeza, ansiedade, medo e estresse fazem parte da experiência humana. O sinal de alerta aparece quando essas emoções se tornam persistentes, intensas ou começam a comprometer a rotina, os relacionamentos, o trabalho, os estudos e o autocuidado. “Quando se torna paralisante ou começa a atrapalhar a minha vida, eu preciso buscar ajuda”, explica Vanessa.
Não conseguir levantar da cama, deixar de tomar banho, perder a motivação para sair de casa, abandonar atividades, enfrentar crises frequentes de ansiedade ou alterações persistentes no sono e na alimentação são situações que merecem atenção. O uso de álcool ou de outras substâncias como tentativa de aliviar o sofrimento também pode indicar que algo não vai bem.
A orientação é não esperar que o sofrimento chegue ao limite. “Quando a pessoa percebe que está emocionalmente sobrecarregada, a primeira coisa é desacelerar e procurar ajuda”, afirma Vanessa.
A psicoterapia não oferece respostas prontas, mas pode ajudar a identificar o que está provocando ou agravando a sobrecarga e a construir formas mais seguras de enfrentamento. As causas podem estar relacionadas ao trabalho, à família, aos estudos, a perdas, a situações de violência ou a relacionamentos abusivos, entre outras circunstâncias.
Procurar ajuda também pode causar medo
Para muitas pessoas, iniciar uma terapia significa falar sobre experiências íntimas, traumas e dores profundas com alguém que ainda é desconhecido. Por isso, Vanessa destaca que a construção de vínculo e confiança entre paciente e profissional é parte essencial do cuidado.
“Eu tenho que ter um espaço seguro para falar das minhas demandas para uma pessoa estranha, e nem sempre encontro isso”, afirma.
A resistência também pode surgir do medo de entrar em contato com sentimentos e experiências evitados durante muito tempo.
“Eu vou ter que enfrentar alguns monstros que não quero enfrentar”, relata Vanessa ao descrever uma das angústias apresentadas por quem adia a procura por atendimento.
É comum, segundo a psicóloga, que a pessoa tente lidar sozinha com o sofrimento, recorra a livros de autoajuda ou converse apenas com amigos antes de buscar um profissional. Embora a rede de apoio tenha um papel importante, ela não substitui o acompanhamento especializado quando o sofrimento passa a comprometer a vida.
“Quanto mais eu fujo disso, mais isso vai me adoecer”, alerta.
A prevenção precisa continuar depois de setembro
Regiane e Vanessa convergem em um ponto: o Setembro Amarelo ajuda a dar visibilidade ao tema, mas não pode ser o único período do ano em que a sociedade se dispõe a discutir saúde mental e prevenção do suicídio.
“Setembro fica muito forte porque falamos de prevenção, suicídio, depressão e transtorno bipolar”, afirma Regiane. “Mas a saúde mental está presente de janeiro a janeiro.”
Vanessa defende que o debate esteja permanentemente nas escolas, empresas, serviços de saúde, meios de comunicação e demais espaços de convivência. “A saúde mental faz parte do corpo, não somente a saúde física”, ressalta.
Falar sobre suicídio de maneira responsável não incentiva o comportamento nem elimina a necessidade do atendimento profissional. Ao contrário: pode ajudar a romper o silêncio, identificar sinais de sofrimento e mostrar que existem alternativas e serviços disponíveis. “É falar antes, conversar antes, trocar informações e procurar ajuda profissional”, resume Regiane.
O Setembro Amarelo pode abrir a porta para essa conversa. O desafio é mantê-la aberta durante todo o ano — e garantir que, quando alguém conseguir pedir ajuda, encontre acolhimento, atendimento e condições para continuar vivendo.
Onde buscar ajuda
Pessoas em sofrimento emocional podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, disponível 24 horas por dia. Também há atendimento por chat e e-mail no site do CVV.
Em situações de risco imediato ou emergência, a orientação é procurar uma UPA, pronto-socorro ou hospital, ou acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pelo telefone 192.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
Regiane Garcia
Instagram: @regiane8806



