Sesc São Paulo abre oitava edição do Projeto Contato celebrando 30 anos de história e convocando o enfrentamento ao estigma do HIV

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Em uma noite marcada pela memória, pela urgência e pela força dos relatos pessoais, o Sesc 14 Bis realizou, na terça-feira (25), a abertura da oitava edição do Contato – Ações para promoção da saúde sexual e prevenção das IST/aids. O encontro, que comemorou os 30 anos da primeira edição do projeto, reuniu autores e autoras do livreto deste ano — Ronaldo Serruya, Priscila Obaci, Leandro Noronha da Fonseca, Pisci Bruja e Roseli Tardelli — para um bate-papo profundo sobre estigma, silêncio, direitos, memória e as urgências políticas da resposta ao HIV.

A noite contou ainda com o video mapping do Coletivo Coletores, que revisitou o acervo visual de 1995, reconstruindo a atmosfera que marcou a estreia histórica do Contato — um ano em que 28 artistas renomados criaram outdoors espalhados por São Paulo para chacoalhar o debate público sobre aids.

Três décadas depois, o projeto retorna com a mesma vocação: romper silêncios e produzir novas narrativas.

“O Contato nasceu enfrentando o silêncio — e continua fazendo isso 30 anos depois”

O gerente de Saúde e Odontologia do Sesc São Paulo, Rogerio Ruano, abriu a cerimônia destacando o papel da instituição ao longo dessas três décadas:

“O Sesc é uma instituição privada, de finalidade pública, e isso nos permite entender a saúde de forma ampliada. Em 1995, nós convidamos 28 artistas visuais para criar obras que provocassem a sociedade a pensar o HIV e a aids para além dos números. Estávamos num momento desafiador, num país marcado pelo medo, pela desinformação e pelos preconceitos. O projeto Contato nasceu enfrentando esse silêncio — e continua enfrentando 30 anos depois.”

Ele lembrou que, desde a retomada do programa, em 2018, o Contato passou a incorporar ações sobre saúde sexual, educação, diversidade e direitos humanos, conectando arte, informação e cuidado.

“A intenção é criar espaços onde possamos falar de prevenção, tratamento e dignidade humana. Falar de saúde sexual é falar de liberdade de expressão, de respeito aos corpos e aos ciclos da vida. E também promover novas narrativas que ajudem a desconstruir estigmas que persistem até hoje.”

Ronaldo Serruya: “O silêncio atravessa toda a história da epidemia. Ele só mudou de forma”

O dramaturgo e pesquisador das artes cênicas Ronaldo Serruya, mediador da mesa, abriu sua fala com a provocação que guiaria o debate: por que, mesmo com tantos avanços, o estigma ainda resiste?

“A história do HIV e da aids é uma história perpassada pelo medo e pelo silêncio. Mesmo depois de todos os avanços científicos, o imaginário social continua preso aos anos 80 e 90. O HIV se tornou sinônimo de morte — não mais do ponto de vista clínico, mas simbólico. Como desmantelar essa herança?”

Ronaldo compartilhou sua própria experiência ao receber o diagnóstico em 2014 e o impacto de décadas de representações estigmatizantes:

“Mesmo tendo informação, eu vivi aquele roteiro que parece programado para todas as pessoas que recebem o diagnóstico. É um lugar que não é racional: é emocional, histórico, cultural. A gente se sente um corpo sujo, um corpo que perdeu o direito ao afeto. Isso não tem a ver com ciência. Tem a ver com 50 anos de um imaginário construído também pela arte, pelo cinema, pelo jornalismo.”

E criticou o que chamou de “gestão privatizada do HIV”, consequência dos avanços tecnológicos: “As tecnologias deveriam nos permitir falar mais, mas aconteceu o contrário: a gente passou a viver o HIV em silêncio, escondidos em armários atualizados. Ir ao serviço buscar o antirretroviral virou um segredo. O silêncio ficou mais sofisticado. E silêncio sofisticado também mata.”

Roseli Tardelli: “O HIV é subversivo — e a humanidade ainda está em silêncio”

A jornalista e diretora executiva da Agência Aids, Roseli Tardelli, emocionou o público ao conectar sua história pessoal ao percurso da epidemia no Brasil. Em 1995, ela estava lá, na primeira edição do Contato — e lembrou da perda do irmão Sérgio, morto em decorrência da aids, em 1994.

“Quando o HIV atravessou a minha vida e da minha família, meu irmão morreu em nove meses. O convênio se recusou a atendê-lo. Todos os amigos dele morreram em cinco, seis, sete meses. Era isso que a imprensa registrava porque era isso que existia naquele momento.”

Roseli fez um chamado urgente contra o moralismo e o recrudescimento global: “A humanidade não dá saltos. Enquanto instituições, governos, religiões e a própria sociedade não mudarem, a epidemia não muda. O HIV cresce nos nossos atos de afeto e nos nossos atos de silêncio.”

Roseli criticou ainda a ausência de políticas públicas consistentes e a desinformação que ainda estrutura a epidemia: “Qual foi a última grande campanha nacional sobre HIV? A ciência avançou, mas o estigma avançou junto. A epidemia cresce onde há silêncio — nas famílias, nos afetos, na política, nas igrejas. Enquanto não quebrarmos esse silêncio, o HIV vai continuar infectando e matando.”

E reforçou a necessidade de construir novas narrativas: “Eu quero publicar histórias de esperança, de reconstrução, de potência. Não apenas histórias de perda. Nós já aprendemos demais com o medo. Está na hora de aprender com a vida.”

Priscila Obaci: “Escolhi contar para o mundo que vivo com HIV ”

A artista, poeta, educadora e mãe, Priscila Obaci, trouxe uma das falas mais aplaudidas da noite. Negra, periférica e candomblecista, ela recebeu o diagnóstico durante a gravidez do segundo filho, em 2017. A escolha de tornar sua sorologia pública foi, segundo ela, uma decisão ética e estética:

“Eu percebi que, quando eu entregava uma mini bio para um trabalho que não era sobre HIV, essa informação não estava lá. E eu me perguntei: por que não? Por que não dizer que a Priscila que dança, que escreve, que trabalha com mães e bebês, também vive com HIV?”

Ela explicou que assumir publicamente sua sorologia também era uma forma de educar seus filhos: “Que mundo eu vou contar para eles? Eu não quero que eles cresçam vendo a mãe lamentando. Quero que vejam vida, potência, sonho. Eu abraço a vida todos os dias. Eu sou mulher preta, periférica, mãe. Eu já nasci na contramão. Viver com HIV é só mais um caminho de resistência.”

Priscila também lembrou a importância de representações positivas: “As pessoas me olham e dizem: ‘Você vive com HIV? Mas você é mãe… mas você dança… mas você ri…’. E eu digo: sim, eu vivo com HIV e vivo tudo isso. É assim que a gente rompe imaginários.”

Leandro Noronha: “A literatura também molda o imaginário — e precisamos escrever o presente”

Jornalista, pesquisador e escritor, Leandro Noronha vive com HIV há 12 anos e estuda as representações literárias da epidemia no Brasil. Ele provocou o público ao perguntar: “Quantos livros de literatura sobre HIV vocês têm em casa? Não falo de livros de ciência, mas de poesia, romance, ficção. A literatura brasileira escreveu pouco sobre a aids — e isso também é silêncio.”

Leandro afirmou que, apesar da força de autores do passado, como Caio Fernando Abreu e João Silvério Trevisan, é urgente produzir novas narrativas:

“A cultura ainda está presa no imaginário dos anos 80. Mas hoje existe uma geração escrevendo sobre o HIV a partir da vida — não da morte. Isso também é prevenção. Isso também é política pública. Isso é construir imaginário.”

Ele defendeu que instituições culturais incluam a saúde sexual como tema artístico, e não apenas biomédico: “Falar de HIV é falar de sexo, de direitos, de afetos, de raça, de território. É falar de tudo que atravessa os corpos. A arte é um dos poucos lugares onde podemos elaborar esses atravessamentos.”

Pisci Bruja: “O HIV é sintoma de uma sociedade adoecida — e enfrentá-lo exige humanização radical”

Antropóloga, pesquisadora e mulher trans vivendo com HIV, Pisci Bruja trouxe ao debate a perspectiva das populações mais vulnerabilizadas e a relação entre o HIV e o “vírus colonial”:

“O HIV não é só um vírus biológico. Ele é sintoma de uma sociedade adoecida pela violência, pelo racismo, pela transfobia, pela moral religiosa. A epidemia se espalha onde existe desigualdade. Não dá para falar de HIV sem falar de poder… A medicina hegemônica acredita que salva vidas sozinha. Mas cuidado não é seguir o que o médico manda. É uma relação de troca entre saber técnico e saber comunitário. Sem isso, não há cuidado — há imposição.”

Ela lembrou que, para pessoas trans, o silêncio começa antes do diagnóstico: “Eu sempre fui um corpo dissidente. Sofri violências na infância e não levei isso para a minha família, porque seria culpabilizada. Isso é sintoma. O HIV entra exatamente por essa chave: a impossibilidade de falar, de ser ouvida, de não ser culpada.”

Pisci também resgatou figuras históricas como Brenda Lee, travesti pernambucana que fundou uma das primeiras casas de acolhimento para pessoas com aids nos anos 80: “Enquanto o Estado nos caçava, Brenda Lee acolhia, cuidava, alimentava. Ela nos ensinou que cuidado é coletivo. Que ninguém sobrevive sozinho. A história do enfrentamento à aids sempre foi construída por pessoas que cuidam — não por pessoas que silenciam.”

E deixou um alerta: “A gente está com a faca e o queijo na mão. Os cortes globais no financiamento já começaram. Precisamos enfrentar o HIV como problema de todo mundo — ou vamos repetir tragédias.”

Um futuro construído com arte, memória e coragem

A abertura do Contato 2025 mostrou que a epidemia mudou, mas os desafios permanecem. O estigma ainda é uma barreira gigantesca. O silêncio, como disseram todos os participantes, continua operando — às vezes mais sutil, às vezes atualizado, mas ainda presente. A aposta do Sesc São Paulo, ao revisitar três décadas de história, é assumir que o enfrentamento à aids é coletivo, contínuo, cultural e político.

O Contato segue apostando na arte como linguagem de cuidado, escuta e transformação. E, como lembrou Roseli, isso só acontece quando há coragem de olhar para a vida — e não para o medo.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Serviço – Projeto Contato 2025

Textos produzidos para o projeto

Quando: de 25 de novembro a 6 de dezembro

Onde: unidades do Sesc São Paulo, com programação distribuída em diversas regiões da capital e do interior.

Atividades: rodas de conversa, debates, cursos, oficinas, encontros comunitários, ações educativas, exibições audiovisuais e atividades culturais que abordam saúde sexual, prevenção combinada, diversidade, direitos humanos e enfrentamento ao estigma.

Programação completa

 

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