Série “Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente” tem sessão de estreia repleta de emoção e memória da luta contra o HIV/aids

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Com lágrimas, aplausos e lembranças de quem viveu de perto o impacto da epidemia, a estreia da série Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente, produção da HBO/Max em parceria com a Morena Filmes, reuniu artistas e convidados no Cine Marquise, em São Paulo, na noite desta quarta-feira (20). A narrativa resgata os anos 1980, quando comissários de bordo contrabandeavam medicamentos para salvar vidas em meio ao descaso do governo e ao peso do preconceito.

O clima da noite foi de memória e emoção. Entre lembranças pessoais e reflexões sobre a urgência de manter viva a história da solidariedade que salvou tantas vidas, o elenco e os realizadores compartilharam impressões antes da exibição do episódio piloto.

A executiva representante da Warner Bros. Discovery, Silvia Fu, destacou o peso de abraçar imediatamente a proposta:

“Não tinha como não abraçar um projeto vindo da Morena Filmes, que representa tanto para o audiovisual brasileiro. É uma obra de força incrível, alinhada a todos os nossos valores.”

Na sequência, o produtor da Morena Filmes, Thiago Rezende, reforçou a parceria entre as duas empresas:

“É um projeto que tem o DNA das duas marcas, um projeto corajoso, que conta uma história real.”

O criador da série, Thiago Pimentel, dedicou a sessão a quem viveu a resistência de forma anônima:

“Quero dedicar esta sessão a pessoas anônimas que, nos anos 80, decidiram contrariar a lei, a sociedade, o Ministério da Saúde e o governo, e contrabandearam remédios para salvar vidas. Há comissários de bordo que hoje estão aqui como anônimos; esta sessão é dedicada a eles.”

O diretor Marcelo Gomes acrescentou que a produção, apesar de nascer de uma tragédia, também fala sobre afeto e esperança:

“A série fala de uma epidemia que levou tanta gente embora — pessoas que, muitas vezes, morreram por preconceito, desinformação e negligência dos órgãos de saúde. Foi um momento muito sombrio da nossa história. Mas no meio das tempestades surgem lindos arco-íris. A série também fala de afeto, solidariedade e desejo de viver.”

Equipe de produção e elenco sobem ao palco antes da exibição do primeiro episódio

Quando o microfone passou ao elenco, o tom foi de emoção. Johnny Massaro, que interpreta Nando, relatou a intensidade da experiência e celebrou os avanços conquistados desde os anos 1980:

“Há histórias que nos atravessam mais ou menos; esta atravessa cada célula do meu corpo e me afeta profundamente. É um dos trabalhos em que lembro de ver todo mundo apaixonado — fizemos com muito amor. É uma honra e uma grande felicidade colocar HIV/Aids no centro da discussão. Hoje viver com HIV é, felizmente, radicalmente diferente do período que a série retrata. Precisamos celebrar os avanços e celebrar vidas.”

Em seguida, Bruna Linzmeyer, que dá vida à comissária Léa, emocionou-se ao lembrar que a luta coletiva pavimentou conquistas que hoje parecem naturais:

“O que mais me emociona, além da desobediência, das pessoas que ousaram mudar o curso da história, é pensar que, se hoje temos prevenção e tratamento gratuitos de HIV e Aids pelo SUS, é porque essas pessoas lutaram e transformaram.

Apesar de ser um tempo sombrio e duro, o que as personagens fazem é de uma revolução muito bonita: pegam a dor e a transformam em acolhimento e alegria — a desobediência da alegria, a insubmissão que é a alegria entre as pessoas, apesar da dor. Forma-se uma rede de coletividade que se junta; é uma estrutura muito queer. A narrativa, a estrutura toda é muito queer — muito da comunidade LGBT, que consegue fazer as coisas em coletivo.”

Diretores, roteiristas, criadores e talentos em clima de harmonia no Cine Marquise

Também no palco, Igor Fernandez lembrou o impacto da preparação com especialistas e como isso o transformou para além da atuação:

“Quero dedicar esta sessão à infectologista Márcia Rachid, essencial para o nosso caminho na série. Percebi o quanto eu era ignorante sobre HIV e Aids; ela me transformou não só como ator, mas como pessoa. O papel social desta série é importantíssimo.”

Já Ícaro Silva, que interpreta Raul, destacou a força da comunidade LGBTQIA+ em se reinventar diante da dor e da exclusão:

“Muitas pessoas da comunidade queer/LGBT não encontram, nos laços de sangue, acolhimento, amor e afeto. Esse é o poder da nossa comunidade: como a Bruna disse, mudamos o curso da história por meio da união, em um momento de muita dor e exclusão.

Temos muitos personagens de grupos marginalizados que, na crise de HIV/Aids, eram apontados para o fim, mas decidiram viver — lutar pela vida. Essa é a coisa mais linda da nossa série. Apesar do tema denso, falamos de vida e de vontade de viver. Que vocês saiam desta sessão com ainda mais vontade de viver.”

Representando uma nova geração, Duda Matte, nascida em 2004, emocionou ao reconhecer a responsabilidade de contar uma história que até então conhecia apenas de ouvir falar:

“Eu, que nasci em 2004, conhecia essa história apenas por ouvir falar. Ter esse aprofundamento em um texto tão bonito e verdadeiro foi muito importante. Espero que a série alcance a juventude também.”

O elenco da série reunido para a foto antes da sessão

Muito aplaudida ao final da exibição, a série Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente chega ao catálogo da HBO Max no dia 31 de agosto, levando para as telas a memória de uma luta que salvou vidas. Ao revisitar um passado de dor, mas também de solidariedade e coragem, a produção se conecta com o presente e lembra que cada conquista contra o HIV/aids nasceu da resistência coletiva.

Mais do que entreter, a obra convida a refletir sobre os avanços que hoje permitem viver com dignidade e saúde, e sobre a importância de nunca esquecer quem abriu caminho. Para o elenco e a equipe, cada episódio é também um ato de homenagem — e um convite para que novas gerações conheçam essa história marcada pela coragem e pelo amor.

Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)

Estagiário em Jornalismo na Agência Aids

Edição: Talita Martins

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