Será necessário criar escolas fechadas na China para crianças com aids?, questiona artigo do Voz da Rússia

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25/05/2014 – 12h

 O artigo, de Ekaterina Zubritskaya, revela como um dos países mais atrasados no tratamento do HIV/aids discrimina as crianças infectadas nas escolas. E como a gravidade da situação levou um homem, sensibilizado com o sentimento de exclusão uma menina doente, a montar uma sala de aula dentro de uma enfermaria para ensiná-la e acolhê-la. Em pouco tempo, havia 16 crianças na turma e foi criada a escola Fita Vermelha. A primeira-dama da China, Peng Liyuan, apoiou a iniciativa, que, hoje, preocupa especialistas que temem pelo futuro dessas crianças à margem da sociedade. Leia o artigo na íntegra: 

Segundo dados aproximados, na China há entre 500 a 900 mil crianças portadoras do vírus da aids. Será necessário criar escolas fechadas para elas? Esta questão é ativamente discutida na sociedade chinesa.
Peng Liyuan, esposa de Xi Jinping, presidente da China, apoiou, naquele momento, a atividade da primeira, e por enquanto, a única, escola desse tipo. Mas entre os peritos chineses não há unanimidade quanto à necessidade de semelhantes escolas especializadas.

A maioria dos pais chineses não está preparada para que os seus filhos estudem na mesma turma com uma criança portadora de aids, assinalou recentemente o jornal “Global Times”. As escolas chinesas, sob diferentes pretextos, tentam não aceitar essas crianças. Se o diagnóstico se torna conhecido quando a criança já está estudando, exigem abertamente do diretor que a expulse da escola. Muitas crianças sofrem devido ao isolamento, à discriminação, a atitudes tendenciosas de professores e alunos da mesma turma.

Em 2006, perto do hospital da cidade de Linfen, na província de Shanxi, foi inaugurada a escola Fita Vermelha, que constitui, por enquanto, o único estabelecimento de ensino da China para crianças portadoras do vírus. Segundo o criador e diretor da escola, Guo Xiaoping, tudo começou com uma menina que, depois do tratamento, se recusou a voltar à escola e ficou vivendo no hospital. Para ocupar a ela e a outras crianças, afastá-las de ideias tristes e dar-lhes a possibilidade de aprender a ler e escrever, Guo Xiaoping decidiu ensiná-las.

Médicos e enfermeiras foram os primeiros professores dos pequenos pacientes. Compraram com o próprio dinheiro manuais, trouxeram um quadro para a sala (uma enfermaria) e quatro carteiras escolares. Um ano depois, nessa turma improvisada já havia 16 alunos. Então, Guo Xiaoping decidiu abrir uma verdadeira escola para os seus discípulos. Mas não foi uma tarefa fácil. Sem certificação, a escola não podia contar com subsídios públicos e, de fato, estava fora da lei.

A visita de Peng Liyuan à escola, realizada em 2011, mudou o seu destino e o dos alunos. Graças à participação da senhora que, mais tarde, se tornou a primeira dama, duas semanas depois da visita, as barreiras burocráticas desapareceram como que por encanto. A escola recebeu o tão necessário certificado de ensino e, com ele, financiamento público.

Não obstante, nem todos os peritos chineses estão de acordo que a criação de semelhantes escolas sejam uma boa iniciativa. Segundo Chung To, criador da Fundação Chi Heng, não obstante toda a utilidade que essa escola trouxe para os seus alunos, o seu modelo não deve ser copiado a nível nacional. Ele considera que a educação de crianças infectadas com aids em internatos fechados complicará a sua futura integração na sociedade. O perito receia que a criação de escolas assim transmita à sociedade chinesa um “mau sinal” e a leve a “empurrar” semelhantes crianças para fora das escolas normais.

A Fundação Chi Heng decidiu avançar por outra via. Ela não só atribui dinheiro às crianças vivendo portadoras do vírus, mas concede também apoio jurídico às famílias dessas e regulariza as relações com a direção das escolas, recordando-lhes que a discriminação de doentes é ilegal.

Segundo dados da mídia chinesa, a situação mais desfavorável com a aids registra-se nas províncias de Henan, Sichuan, Yunnan e Guangxi, ou seja, nas regiões chinesas economicamente menos desenvolvidas.

A pobreza e a discriminação por parte da sociedade aumentam a pressão psicológica sobre as crianças portadoras do HIV, muitas das quais sofrem não só devido às consequências da sua doença, mas também à miséria e à depressão. Infelizmente, a discriminação das crianças infectadas e doentes continua um fenômeno cotidiano na China. Os peritos chineses apelam à sociedade a voltar-se para essas crianças, a compreender que elas necessitam de apoio financeiro e psicológico para se tornarem membros de pleno direito da sociedade.

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