
Mais do que médico dermatologista e viúvo de um dos maiores nomes do humor brasileiro, Thales Bretas é, antes de tudo, pai. Pai solo. Pai de dois. Pai que ama, acolhe e resiste. Em entrevista à Agência Aids, que integra uma série especial em homenagem ao Dia dos Pais, comemorado no próximo domingo (10), ele compartilha sua jornada de afeto, luto e reconstrução ao lado dos filhos Gael e Romeu, e fala da importância de dar visibilidade às novas formas de família e aos caminhos possíveis e legítimos da paternidade.
Visibilidade que inspira
Quando questionado sobre o momento em que percebeu que sua existência e a forma como exerce a paternidade haviam se tornado símbolos de coragem e afeto, Thales revela que essa percepção veio aos poucos, principalmente no percurso do casamento com Paulo Gustavo:
“Já tinha percebido isso no caminhar do casamento com o Paulo e até no consultório muitas pessoas chegavam e falavam: ‘Nossa, o casamento de vocês foi muito importante para a minha família aceitar a minha relação com o meu cônjuge, pessoas do mesmo sexo e tudo.’”
Mas foi após a perda de Paulo que essa visibilidade se intensificou, trazendo tanto exposição quanto carinho do público:
“Nossa família foi hiper exposta e o tanto de mensagem de carinho que eu recebi, de apoio e elogios à minha família e tudo. Então eu acho que essa percepção foi aos poucos, mas ela foi exacerbada com o evento do luto do Paulo. E isso me fortalece muito, muito mais do que pesa.”
Para Thales, ser pai solo traz desafios comuns a toda parentalidade, mas o amor e a força que recebeu são sua maior fonte de orgulho e sustento:
“Ser pai e pai solo não é uma tarefa fácil, eu acho que todo mundo que é pai ou mãe sabe quantos desafios a parentalidade encontra ao longo do caminho e quão mais fácil fica se eles são compartilhados. Mas o carinho que as pessoas têm pela minha família, a força que a gente ganhou, isso me dá muito orgulho.”

Thales Bretas e os filhos Gael e Romeu | Foto: Reprodução
Construir família homoafetiva: ato político e resistência diária
Construir uma família homoafetiva no Brasil, diz Thales, ainda é um ato político, que exige coragem diante do preconceito: “Eu acho que ser gay no Brasil é um ato político e ainda é difícil…”
Ele lembra que o fato de Paulo ter sido uma figura pública ajudou na aceitação da família, mas ressalta que essa realidade não é a da maioria dos casais LGBTQIA+:
“A gente sempre gostou da nossa família e tudo. Mas eu entendo e sei que essa não é a realidade da maioria dos casais homoafetivos, num país em que o preconceito ainda é muito forte, é um país que mais mata LGBTQIA+ no mundo.”

Paulo e Thales | Foto: Reprodução
A ausência da figura materna e o desafio da paternidade LGBTQIA+
Thales destaca que ser um pai LGBTQIA+ é também encarar as lacunas deixadas por um modelo de família ainda muito preso a padrões tradicionais — especialmente quando se espera, automaticamente, a presença de uma figura materna.
“Eu acho que ser um pai LGBTQIA+ é enfrentar o desafio de não ter essa figura materna no imaginário das pessoas para a nossa família. É como se as pessoas tivessem sempre uma pena dos meus filhos não terem mãe.”
Ele explica que, mesmo sendo duas figuras masculinas, ambos os pais nunca deixaram de amar, cuidar e se dedicar igualmente, quebrando preconceitos sobre papéis familiares:
“Eles têm dois pais que sempre amaram muito eles, que desejaram muito a chegada deles e que se envolveram muito. São duas figuras, sim, masculinas, mas que se sempre se dividiram nos papéis de pais e que conseguem dar esse amor, afeto, cada um da sua forma.”
Sobre a presença dessas famílias em espaços sociais e escolas, Thales percebe avanços, especialmente em ambientes mais privilegiados, mas reconhece que o caminho ainda é longo:
“Hoje em dia está mais fácil, mas é um movimento crescente e que, de novo, ainda ganha corpo e forma a cada dia.”
Protegendo os filhos em uma sociedade que ainda pode ser violenta
A proteção dos filhos diante do olhar público e da violência social é uma das preocupações constantes:
“É um dos meus maiores desafios hoje em dia [equilibrar a visibilidade da história com a necessidade de proteger os seus filhos]. Eu tento protegê-los ao máximo, até por serem dois menores.”
Filhos, preconceito e as perguntas que vêm da inocência
Embora seus filhos não tenham sofrido preconceito direto, Thales relata que eles já vivenciaram situações de estranhamento e curiosidade, especialmente em contextos onde famílias homoafetivas são menos comuns:
“Quando a gente morou na Austrália as crianças não entendiam muito bem e ficavam também ainda mais tristes de saber que eles eram filhos de dois pais e um deles tinha falecido de Covid.”

Paulo Gustavo, Gael e Romeu | Foto: Reprodução
No Brasil, o convívio com outros grupos de família semelhantes ajuda a amenizar o estranhamento, e ele valoriza a sinceridade no diálogo com as crianças:
“Eu sempre uso a sinceridade e o carinho para dizer como eles são concebidos.”
A jornada e do luto
Criar os filhos sozinho após a perda do parceiro é um desafio diário, que Thales enfrenta com muita terapia e apoio da rede próxima importantíssima:
“O luto é muito difícil, a paternidade solo não era o meu projeto inicial. Eu tenho que ser tudo.”
Ele detalha o esforço para equilibrar o afeto e a firmeza, a doçura e a disciplina, e como a presença de babás e familiares ajuda a compartilhar essa responsabilidade:
“Eu faço muita terapia pra poder escolher os melhores caminhos e ter sempre esse equilíbrio. Tenho um privilégio de contar com uma rede de apoio que me ajuda.”
Nos momentos mais difíceis, ele encontra força no sorriso e na confiança dos filhos:
“O que me sustenta nos dias mais escuros é o sorriso deles. Acho que isso é a prova de que eu estou fazendo o certo.”
Mantendo viva a memória do pai ausente
A presença de Paulo Gustavo está constantemente viva na rotina de Gael e Romeu — seja por meio de vídeos, memórias ou da exposição cultural que ele deixou:
“A memória do Paulo será sempre viva porque ele deixou um legado muito forte na nossa comunidade, na nossa sociedade, no Brasil.”

Thales, Gael e Romeu na Exposição Paulo Gustavo | Foto: Reprodução
Thales também ressalta o orgulho dos filhos e a importância de preservar o amor de ambos os pais:
“Eu acho que a nossa figura, o nosso papel não compete de forma alguma. Eu acho importante, inclusive, eles terem a referência de dois pais muito amados e que se amaram muito.”
Uma palavra de esperança
Por fim, para quem ainda duvida da possibilidade de formar uma família LGBTQIA+, Thales deixa uma mensagem de esperança e encorajamento:
“Eu diria esperança para quem ainda acha que não tem o direito de formar uma família. Eu passei por isso na adolescência, pela falta de modelos.”
Ele reforça que família é uma construção, um amor que cresce e que exige dedicação e vontade.
A trajetória de Thales é um testemunho de que o amor e a coragem podem transformar vidas, quebrar preconceitos e ampliar horizontes. Em um país que ainda enfrenta desafios para aceitar a diversidade familiar, seu relato ilumina caminhos de afeto, luta e esperança para inúmeras pessoas LGBTQIA+ que sonham em formar sua própria família com dignidade e orgulho.
“A essência da parentalidade é o amor e sempre será. É o amor, a compreensão, a doação de si.”, finaliza.
Vinícius Monteiro (vinicius@agenciaaids.com.br)
Estagiário em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
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