
Na live da coluna “Senta Aqui, com Marina Vergueiro”, transmitida na noite de ontem (5/9), no Instagram oficial da Agência Aids, o estudante de enfermagem e criador de conteúdo digital sobre saúde, sexualidade, população LGBTQIA+ e bem-estar, Djair Gomes, dividiu sua história de vida e superação. Djair é um jovem nordestino que há sete anos vive com o HIV. Durante a conversa, ele compartilhou sua jornada desde a descoberta do diagnóstico até seu compromisso em combater o estigma e promover o entendimento sobre a aids.
O convidado da semana revelou que sua jornada começou quando estava no primeiro período da faculdade de enfermagem, quando se deparou com a oportunidade de doar sangue. Ele sempre quis ser um doador, mas a falta de tempo era uma barreira. No entanto, um dia, sobraram algumas horas na faculdade, e a coordenadora de seu curso o levou para doar sangue junto a sua turma. Foi após esse ato nobre que ele recebeu o diagnóstico do HIV.
Ele expressou suas preocupações, questionando como saberia sobre sua condição se não tivesse ingressado na universidade. “Fico pensando: se não tivesse entrado na universidade para cursar enfermagem, como eu saberia que vivia com HIV? Talvez quando já estivesse [em um estágio] mais agravado”, comentou.
Djair, originário do interior, também destacou a ausência de amigos gays em sua vida e a homofobia que enfrentou em sua cidade natal, que o impediram de discutir sobre sexo e fazer exames.
“Eu vim do interior, com pais homofóbicos, não tinha amigos gays, tinha poucas informações, não conversava sobre sexo, não me testava… não sabia nada. Só fiz teste quando fui doar sangue”, completou.
Já com seu diagnóstico, o jovem começou uma jornada de autodescoberta, pesquisando incansavelmente e consumindo conteúdo relacionado a HIV/aids na internet. Sua curiosidade o levou a propor uma campanha de prevenção e acolhimento na faculdade, mas sua coordenadora expressou preocupações sobre o risco que ele poderia representar e o isolou.
“Ela me chamou de canto e disse que precisaria falar [sobre minha sorologia] com os outros alunos e professores, pois não queria se responsabilizar pelo risco que eu poderia causar”, contou.
“Eu disse que não era sobre mim, mas que estava falando enquanto estudante de enfermagem… ainda assim, ela me questionou e tive que confirmar. Eu tinha acabado de ter meu diagnóstico e de sair de casa por conta dos meus pais homofóbicos”, recordou.
Djair transferiu o curso para outra universidade, mas segundo ele, ainda assim foi vítima de inúmeros desrespeitos. “Eu já estava sem motivação para continuar a estudar, era bolsista e perdi a bolsa porque fui perdendo o ritmo”, ao falar sobre ele compartilhou que considera que, naquela época, seu maior problema não foi o diagnóstico em si, pois estava bem e saudável, mas sim toda discriminação que teve que enfrentar.
Ele compartilhou ainda a difícil experiência de contar a uma colega de trabalho sobre sua sorologia, que espalhou a notícia, resultando em sua demissão da corporação que fazia parte. De acordo com ele, a exposição chegou até mesmo aos seus pais, pois as mesmas pessoas revelaram sua condição a sua família sem seu consentimento.
“As pessoas do meu [antigo] emprego disseram que isto era um ato de zelo”, disse ele ao rebater: “ [infelizmente], ainda existe muito isso de colocar a pessoa vivendo com HIV/aids neste lugar de coitada”.
“A gente pode falar, mas a gente fala quando e pra quem a gente quiser”, afirmou contundentemente.
No bato-papo ele também enfatizou a persistência do estigma em relação às pessoas vivendo com HIV, e como ele foi alvo de discriminação em sua pequena cidade, até mesmo nos serviços de saúde especializados, em grupos de apoio voltadados para pessoas HIV+, e até mesmo do advogado que recorreu quando entendeu que as situações nas quais estava submetido eram caracterizadas crimes.
“[Para a pessoa vivendo com HIV/aids] é complicado até para pedir ajuda!”, lamentou.
Para lidar com esses desafios, Djair recorreu à internet, unindo sua paixão pela enfermagem ao desejo de educar e desmistificar o HIV. Ele enfatizou que, “faltam muitas políticas, não só de prevenção, mas de acolhimento/assistência”.
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Djair compartilhou a importância de sua mudança para a capital, onde começou a entender melhor sua sexualidade. Hoje, segue saudável, mantendo seu tratamento antirretroviral, e se tornando cada vez mais um defensor da luta contra a aids.
Seus planos futuros incluem se especializar em infectologia e continuar trabalhando para fornecer acolhimento humano e informações precisas àqueles outros que também vivem com o HIV, sendo um exemplo inspirador de ativismo na busca por uma sociedade mais justa e informada sobre o HIV/aids.
Assista a live na íntegra:
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Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)
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