Seminário nacional em Belém reforça urgência de qualificação, prevenção e enfrentamento do estigma em HIV e tuberculose no Brasil

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Gestores públicos, pesquisadores, profissionais de saúde e representantes da sociedade civil de todas as regiões do país se reuniram em Belém durante o 2º Seminário Nacional sobre HIV e Tuberculose para debater os desafios persistentes no enfrentamento das duas infecções no Brasil. Considerado um dos principais encontros da região Norte sobre o tema, o evento evidenciou a necessidade de fortalecer políticas públicas, ampliar o acesso aos serviços de saúde, qualificar profissionais e enfrentar o estigma que ainda atravessa o cuidado e a prevenção.

Ao longo dos painéis, os debates convergiram para a urgência da qualificação permanente dos servidores que atuam nas unidades de saúde em todo o país. Especialistas alertaram que a falta de capacitação continua sendo um dos principais entraves para um atendimento adequado, impactando diretamente a adesão ao tratamento e o acolhimento de usuários no Sistema Único de Saúde (SUS).

O fundador da Rede Brasil de Pessoas Idosas vivendo com HIV e outras comorbidades (RBPI), Amaury Lopes, chamou atenção para a invisibilidade da população com mais de 50 anos na resposta à epidemia. “Nesses 40 anos que nos cercam, a epidemia no mundo e no Brasil sempre tivemos muito ligados desde o início e, com o passar dos anos, fomos percebendo, falamos e lutamos muito, mas não falávamos de nós 50+, e há 2 anos resolvemos fundar essa rede para podermos garantir nossos direitos básicos”, disse Lopes.

Outro eixo central das discussões foi a compreensão de que a prevenção começa pelo acesso. Representantes da sociedade civil reforçaram que políticas eficazes exigem presença nos territórios, atuação nas escolas, ampliação da testagem, melhoria no acolhimento e incentivo ao uso correto da profilaxia pré e pós-exposição (PrEP e PEP), além da adesão consciente ao tratamento por pessoas vivendo com HIV.

Para Amélia Garcia, militante do Comitê Arte pela Vida, a discussão sobre longevidade é cada vez mais urgente. “Nós estamos ficando idosos e tomando medicações que hoje fazem alguns efeitos colaterais por conta da idade, então viemos em busca disso para nos atualizar. O nosso comitê também atende muitas pessoas em todo o estado do Pará e região metropolitana, por conta disso recebemos muitas demandas e hoje somos muito procurados por conta de insegurança alimentar e a falta de atendimento social eficaz e as dificuldades de deslocamento até o posto por uma série de intervenções financeira e comorbidades”, explica Amélia.

O estigma também foi abordado de forma contundente ao longo do seminário. Participantes destacaram que, apesar dos avanços no tratamento e na prevenção, o preconceito segue sendo um dos maiores obstáculos à saúde pública. Ao definir o HIV como “uma das doenças mais democráticas do país”, lideranças lembraram que o vírus não escolhe gênero, raça, classe social ou território.

A sócio-fundadora do coletivo Coisas de Putas, do estado do Pará, Maria Elias Silveira, trouxe a perspectiva das profissionais do sexo e denunciou a ausência de políticas públicas estruturadas. “Hoje no Pará não temos nenhuma definição de políticas públicas formal para todas as mulheres e em particular para as profissionais do sexo, uma vez que nós repudiamos de só sermos enxergadas da cintura para baixo, nos somos mães, avós e não vemos esse detalhamento nem na saúde, nem na educação. Estamos falando de hiv e tuberculose hoje e não vemos nenhuma política estruturada no país que siga um plano de enfrentamento a feminização com a AIDS, enquanto isso estamos vendo mulheres dentro de um quadro de infecção, outras morrendo, sem moradia e sem atenção nenhuma”, desabafa Maria Elias Silveira.

No contexto paraense, o cenário reforça a dimensão dos desafios debatidos. Embora o estado conte com 53 Centros de Testagem e Aconselhamento (CTAs) distribuídos pelo interior, muitos usuários ainda precisam se deslocar até Belém para buscar tratamento, evidenciando o impacto do preconceito e a ausência de acolhimento adequado em seus municípios de origem.

A juventude também esteve no centro das discussões. Para Diogo Silva, coordenador da Rede de Jovens Vivendo e Convivendo com HIV (RNAJVHA+PA), o acolhimento entre pares é fundamental. “Viemos para fortalecer a juventude falando sobre hiv/aids, além de acolher falando sobre a prevenção e os cuidados e a adesão ao tratamento logo quando esses jovens estão chegando nesta descoberta do hiv. A rede também agrega jovens que apoia a nossa causa mais não vivem com hiv. Hoje o estigma entre eles se prende a pegar o preservativo por vergonha, um exemplo ‘os amigos’ que ao invés de estimular o uso, desconstrói o objetivo da proteção”, explicou.

Os debates também apontaram para a necessidade de descentralizar as ações de prevenção, levando campanhas, testagem e orientações às periferias e regiões mais vulneráveis, onde se concentram os grupos mais impactados pela epidemia.

Pesquisadores presentes destacaram ainda a distância entre a informação disponível e a percepção real de risco por parte da população, o que reforça a necessidade de campanhas contínuas, educação sexual e diálogo aberto em escolas e espaços comunitários, envolvendo pessoas de todas as faixas etárias.

Outro ponto de destaque foi o papel essencial das casas de apoio, que seguem sendo referência no acolhimento institucional em momentos de vulnerabilidade, especialmente para pessoas com dificuldades de acesso ao tratamento. Os participantes defenderam a retomada e ampliação do suporte governamental e a regularização dos repasses, lembrando que o Brasil já contou com 27 unidades e hoje mantém apenas o Pará Vida, em Belém.

Ao tratar do financiamento das políticas públicas, lideranças da sociedade civil reforçaram que a sustentabilidade das ações depende de recursos adequados e contínuos, capazes de manter projetos de prevenção, testagem, acolhimento e enfrentamento ao estigma nos territórios.

Cledson Sampaio, representante do Comitê de Tuberculose do Estado do Pará, destacou a importância de uma abordagem transversal. “Hoje o fórum paraense veio para discutir e debater as novas tecnologias de prevenção e diagnostico para o tratamento a todas as doenças que estão incluídas, e a gente dissemina a realidade territorial do nosso país com a gestão. Cada um trouxe uma expertise, um olhar para fortalecer o seminário, o seminário foi transversalizado, precisamos fazer com que todos se envolvam e ai não devemos discutir ist/aids somente no âmbito da saúde, precisamos tratar todas as vertentes inclusive como foi dito sobre mudanças climáticas diante de várias catástrofes como aconteceram no RS onde muitos ficaram sem os seus acompanhamentos médicos e sem medicamentos e sem as unidades básicas de saúde por um longo período”, explica Sampaio.

Com dois dias de debates intensos e ampla participação de diferentes setores, o encontro em Belém se consolidou como um marco na articulação entre gestão pública e sociedade civil. O seminário reforçou que o enfrentamento do HIV/aids e da tuberculose exige compromisso permanente, políticas inclusivas e investimentos que alcancem todos os territórios — sobretudo aqueles onde o acesso à saúde ainda é negado ou dificultado.

Hugo Tomkiwitz, de Belém, especial para a Agência Aids

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