Seminário Mobiliza IAS 2026, em São Paulo, articula estratégias políticas e reforça protagonismo comunitário na preparação da Aids 2026

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À medida que o Brasil se prepara para sediar, em julho, a Conferência Internacional de Aids de 2026, cresce também a percepção de que o evento será mais do que um encontro científico: será um espaço central de disputa política sobre o futuro da resposta global ao HIV.

Essa foi a tônica do Seminário Nacional Mobiliza+IAS 2026, realizado em São Paulo e organizado pela Articulação Nacional de Aids (Anaids), que reuniu lideranças da sociedade civil, representantes do governo e organismos internacionais em torno de uma agenda comum — e urgente: reposicionar o debate global a partir do Sul e recolocar os direitos humanos no centro da resposta à epidemia.

O que está em jogo na Conferência Internacional de Aids

Realizada a cada dois anos, a Conferência Internacional de Aids é o principal fórum global sobre HIV, reunindo milhares de pesquisadores, ativistas, gestores públicos e representantes da sociedade civil de todo o mundo. Mais do que apresentar avanços científicos, o encontro historicamente funciona como termômetro político da resposta global à epidemia.

Foi nesse espaço que, ao longo das últimas décadas, se consolidaram marcos fundamentais: a defesa do acesso universal ao tratamento; a incorporação dos direitos humanos como eixo das políticas públicas; e o reconhecimento do papel central das comunidades.

Sediar a conferência, portanto, não é apenas uma questão logística ou simbólica. É ocupar um lugar estratégico na definição de prioridades globais — especialmente em um momento de instabilidade.

“A conferência acontece em um cenário de crise de financiamento e de profundas desigualdades no acesso à prevenção e ao tratamento”, alertou a presidenta da IAS, Beatriz Grinsztejn, durante o seminário.

Com cerca de 1,3 milhão de novas infecções e 630 mil mortes por aids a cada ano, o mundo está longe de atingir as metas de eliminação da epidemia até 2030.

Sociedade civil organiza resposta política antes mesmo da conferência

Se a conferência é um espaço de disputa, o Mobiliza+IAS deixa claro que essa disputa começa muito antes.

Organizado pela sociedade civil, o seminário teve como objetivo estruturar a participação brasileira de forma qualificada — não apenas como presença, mas como incidência.

Um dos articuladores do encontro, o ativista Eduardo Barbosa, sintetizou esse movimento ao defender que a preparação precisa ser coletiva e estratégica:

“A conferência não se constrói apenas nos espaços institucionais. Ela se constrói na mobilização social, na articulação política e na capacidade de levar as demandas reais das comunidades para o centro do debate.”

A fala aponta para uma tradição brasileira: a resposta ao HIV construída a partir da pressão e da participação social, e não apenas por decisões governamentais.

Memória da epidemia como ferramenta política

Ao longo do seminário, ficou evidente que falar de futuro exige revisitar o passado — especialmente em um campo marcado por conquistas arrancadas em contextos de crise.

O ativista e pesquisador Veriano Terto Jr., da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA), resgatou esse percurso ao lembrar que a resposta à aids no Brasil sempre esteve ancorada em três pilares: direitos humanos, participação social e enfrentamento das desigualdades.

“A resposta à aids sempre foi construída com base em direitos humanos. Quando esses princípios são fragilizados, toda a política se enfraquece”, afirmou.

Mais do que um resgate histórico, a fala funciona como alerta. Em um cenário de avanço de agendas conservadoras e redução de financiamento internacional, os fundamentos que sustentaram os avanços das últimas décadas estão novamente em disputa.

Desigualdade global e crise de financiamento redesenham o cenário

Se, por um lado, a ciência avançou — com tratamentos eficazes e novas tecnologias de prevenção —, por outro, o cenário político e econômico global impõe limites concretos.

Na América Latina, os sinais são especialmente preocupantes, com crescimento no número de novas infecções — um contraste com outras regiões do mundo.

Representando o Unaids, Luisa Cabal foi direta ao apontar os limites da resposta atual.

“Estamos falhando na prevenção. E isso está diretamente relacionado às desigualdades e à falta de compromisso político.”

Ela também destacou que o enfrentamento da epidemia depende de escolhas estruturais e de longo prazo.

“Não é apenas uma questão técnica. Precisamos de financiamento sustentável, serviços centrados nas pessoas e liderança comunitária para mudar o curso da epidemia.”

Crise de financiamento e reconfiguração global

O impacto da redução de investimentos internacionais foi detalhado pelo diretor do Departamento de HIV/Aids, Tuberculose, Hepatites Virais e ISTs, do Ministério da Saúde, Draurio Barreira.

“A prevenção foi retirada da agenda em muitos contextos. Isso cria um vazio — e na política não existe vácuo.”

Ele alertou que a diminuição do financiamento compromete diretamente a capacidade de resposta global, especialmente em regiões mais vulneráveis.

Acesso à inovação como nova fronteira de desigualdade

Draurio também chamou atenção para o acesso às novas tecnologias de prevenção, ainda restrito por barreiras econômicas.

“Não é possível que países como o Brasil enfrentem preços tão altos para acessar tecnologias essenciais.”

A fala evidencia que o desafio atual não é apenas produzir inovação, mas garantir que ela chegue de forma equitativa às populações que mais precisam.

Embora reconhecido internacionalmente, o Brasil ainda convive com desigualdades importantes no acesso à prevenção. Populações historicamente vulnerabilizadas continuam enfrentando barreiras para acessar políticas públicas e tecnologias disponíveis.

Esse cenário reforça o desafio de alinhar a posição de liderança global com a realidade interna, marcada por profundas desigualdades sociais.

Uma conferência, múltiplas disputas

O primeiro debate do seminário deixou claro que a Conferência Internacional de Aids 2026 será um espaço de disputas que ultrapassam o campo científico. Estão em jogo modelos de financiamento, acesso a tecnologias, prioridades políticas e o próprio papel dos direitos humanos na resposta global.

Nesse contexto, o Mobiliza+IAS se consolida como parte de uma estratégia mais ampla de incidência. Ao antecipar debates e fortalecer redes, o encontro prepara a sociedade civil brasileira para atuar de forma decisiva na conferência.

E, como reforçado ao longo do evento, sem mobilização social, não há resposta sustentável à epidemia.

Redação da Agência de Notícias da Aids

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