Seminário Chemsex: Osvaldo Fernandez defende redução de danos como estratégia fundamental na prevenção do HIV no sexo químico

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Chemsex, sexo químico, sexo adtivado… são muitos os nomes dados à mesma prática: o consumo de substâncias psicoativas na cena do sexo. Um fenômeno antigo, mas que ainda reserva muitas dúvidas. E diante dos desafios e preocupações associadas com à saúde mental e sexual entre autoridades sanitárias e para a sociedade como um todo, no centro histórico de São Paulo, aconteceu nesta semana o I Seminário Brasileiro de Chemsex. Esta é uma iniciativa do Instituto Multiverso que reuniu diferentes especialistas, comunicadores e influenciadores para debater a questão que vêm ganhando força, especialmente nos últimos anos.

O seminário contou com uma aula magna ministrada por Osvaldo Lobos Fernández, pós-doutor em ciências sociais e pesquisador em violência homofóbica nos cenários brasileiro e norte-americano. Ele também é diretor-presidente da Rede Brasileira de Redução de Danos e Direitos Humanos (REDUC).

A jornalista Fabiana Mesquita conduziu o momento e passou a palavra a Fernandez que ao centrar a discussão na temática “Redução de Danos: História e Potencialidades ao Cuidado”, Fernández esclareceu que a abordagem em redução de danos visa não só compreender, mas também dialogar e agir frente às complexidades que envolvem a prática. Ele estabeleceu o tom para um diálogo que busca trazer um novo olhar diante dos desafios do Chemsex.

Ao contextualizar o álcool e outras drogas o especialista destacou que, como sociedade, somos todos de alguma forma usuários de drogas, seja através do consumo de substâncias legais ou ilegais. Ele relacionou essa afirmação à existência histórica da população em situação de rua, que perdura desde a escravatura, resultando em pessoas expulsas de fazendas e levando a uma realidade em que vivem nas ruas até os dias de hoje. O ponto central levantado pelo antropólogo é que essa população em situação de rua, muitas vezes, consome substâncias psicoativas, especialmente estimulantes, que, por sua vez, afetam o apetite e contribuem para a insegurança alimentar, sendo este um importante agravante. O argumento do especialista destacou a interconexão entre questões sociais, econômicas e de saúde que afetam essa população mais vulnerável. “Por isso, quando a gente vai pensar a questão das drogas sempre devemos pensar a droga em si, a sua farmacologia, a sua farmacodinâmica, o psiquismo da pessoa e contexto sociocultural”, afirmou.

Ainda ao discorrer sobre o fenômenos das drogas no contexto brasileiro, o especialista defendeu uma abordagem não proibicionista e detalhou a dinâmica social desigual estabelecida, sobretudo no Brasil. De acordo com Fernández, “primeiramente, o status da droga é um status de mercadoria, mas como está proibida essa droga, ela tem um valor de troca muito elevado.”

Segundo ele, “estamos construindo um ovo da serpente no país, que ameaça a democracia brasileira, que é esse dinheiro clandestino que tem financiado a corrupção dos políticos, do judiciário… isso coloca em risco o estado democrático de direito no país.”

“Então, na medida que queremos combater as drogas colocando a força da polícia, estamos promovendo uma guerra às drogas, matando usuários de drogas, matando pessoas, trabalhadores que estão nessa cadeia produtiva, que vai do plantio, da distribuição, do comércio, até quem menos morre que são os banqueiros que financiam os burgueses que estão por trás do tráfego […] quando depois vai verificar, a gente fica com a mortalidade, com os problemas de saúde, ficamos com a pandemia e o dinheiro que é lavado em outros países”, afirmou indicando a regulamentação das drogas como um caminho possível para o fim da guerra às drogas.

Enquanto enfrentamos os impactos multifacetados e desastrosos na saúde pública, no entendimento do pesquisador, é imperativo reforçarmos todos os nossos esforços em políticas e outras intervenções que visam a garantia do direito à saúde e bem-estar. “[o Chemsex] está chamando a nossa atenção para a gente retornar nosso advocacy enquanto sociedade civil.”

Fabiana Mesquita aproveitou o momento e sublinhou a importância de abordar com sensibilidade e representatividade a temática do sexo químico, incluindo vozes historicamente marginalizadas, a exemplo de pessoas indígenas, transexuais e negras. “É muito importante a gente ter representatividade e estarmos juntos […]”.

O encontro reservou espaço ainda para a apresentação do site, chatbot e do material didático que o Multiverso vem desenvolvendo no âmbito do Projeto ColocAÇÃO: redução de danos da periferia ao centro. Segundo o comunicador João Geraldo Netto, a iniciativa conduzida pelo Multiverso conta com suporte financeiro do Fundo Positivo e seu principal propósito é abordar e possibilitar a redução de danos entre adeptos do Chemsex levando a prevenção ao HIV e outras ISTs a quem mais precisa com estratégias em prevenção combinada.

“A gente desenhou vários projetos, materiais gráficos físicos e digitais… levamos testagem a zonas extremamente vulnerabilizadas, como Santos e São Vicente na baixada santista…”, explicou.

Além de realizar ações em territórios mais vulneráveis, o projeto desenvolve um amplo trabalho de informação e conscientização, incluindo a elaboração de folders e outros materiais informativos. Clique aqui e saiba mais

Kéren Morais (keren@agenciaaids.com.br)

Dica de entrevista

Instituto Multiverso

Site oficial: https://www.institutomultiverso.org/projeto-colocacao

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