A eliminação do HIV e da aids como questão de saúde pública passa, necessariamente, pelo enfrentamento das desigualdades sociais que marcam o Brasil. Essa foi a principal avaliação de especialistas durante o Fórum Estadual de HIV/Aids, promovido pela Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo na última segunda-feira (1º), em alusão ao Dia Mundial de Combate à Aids. Ao longo de debates e apresentação de estudos clínicos, pesquisadores, ativistas e comunicadores reforçaram que o vírus está profundamente ligado às desigualdades estruturais do país.

“Quando falamos de HIV, não estamos falando apenas da questão biomédica. Precisamos falar sobre os problemas sociais que as pessoas enfrentam no dia a dia”, explicou **Fabiana Oliveira**, ativista e secretária de comunicação do Movimento Nacional das Cidadãs Posithivas (MNCP). “Falta de acesso à informação, a serviços básicos como saneamento, educação e saúde, somados à discriminação que as pessoas que vivem com HIV enfrentam, criam barreiras enormes. Não dá para falar de prevenção sem olhar para esses contextos.”
Fabiana, uma das principais lideranças na articulação entre ciência, comunidade e direitos humanos, reforçou que os avanços científicos, embora fundamentais, não são suficientes por si só. “A própria ciência mostra que existem lacunas que só podem ser preenchidas socialmente. Por melhores que sejam os medicamentos, se as pessoas mais afetadas pelo vírus não conseguem acessar ou aderir ao tratamento, precisamos entender os motivos, e eles são sociais.”
Comunicação que salva vidas

A jornalista Filomena Salemme, colaboradora da Agência Aids, destacou o papel central da imprensa no enfrentamento do estigma. Segundo ela, a falta de cobertura ampla sobre HIV no jornalismo tradicional reforça o preconceito e impede que informações essenciais cheguem à população.
“Estigma e preconceito se combatem com informação. A imprensa ainda fala muito pouco sobre HIV”, afirmou. “No dia 1º de dezembro o tema aparece, mas nos outros dias não. Conferências nacionais e internacionais não têm cobertura. Isso faz com que apenas pessoas da área da saúde acompanhem os avanços científicos.”
Para Filomena, a desinformação alimenta o medo do teste, o silêncio sobre a sorologia e o afastamento dos serviços de saúde. “A prevenção e o tratamento existem, mas não garantem, sozinhos, o acesso universal. Vivemos uma era de desinformação — e com HIV/aids não é diferente. Comunicação e jornalismo salvam vidas.”
O papel do Estado e o avanço do silenciamento

O ativista Eduardo Barbosa, presidente do Grupo Pela Vidda SP, reforçou que eliminar a aids até 2030 exige ação estatal robusta contra desigualdades, discriminação e retrocessos democráticos.
“Hoje, em meio à era Trump, a aids vai além da biomedicina. É uma questão de vontade política — e essa vontade não tem acontecido”, afirmou. “Nem prefeitos, nem governadores, nem o presidente têm priorizado a pauta. No próprio dia 1º de dezembro, não havia nada sobre HIV no site do Ministério da Saúde. O que vemos é um silenciamento.”
Eduardo defendeu políticas públicas estáveis, que resistam às mudanças de governo e ao avanço do negacionismo. “Basta um prefeito assumir para acabar com conquistas históricas. Vimos isso no governo anterior, com um esvaziamento e desfinanciamento da resposta ao HIV. Precisamos de políticas fortes e permanentes.”
Ele também reforçou que a informação não está chegando a quem mais precisa. “Estamos numa bolha. As pessoas que realmente precisam ouvir o que dizemos aqui não escutam — não por falta de interesse, mas porque a informação não chega. Prevenção e tratamento disponíveis não garantem acesso real.”
O ativista destacou caminhos urgentes: ampliar a comunicação governamental, garantir cobertura da imprensa, implementar educação sexual nas escolas e fortalecer políticas contra machismo, LGBTfobia e racismo.
Artur Garcia, especial para a Agência de Notícias da Aids
Dica de entrevista
Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo
Tel.: (11) 5087-9901



