“Sem derrubar barreiras, não há eliminação”: Especialistas expõem em Fórum Estadual de HIV/Aids urgências da PrEP e desafios para zerar novas infecções no Brasil

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Conferência realizada na tarde desta segunda-feira (1), em São Paulo, discutiu sobre os caminhos para a eliminação da aids como uma questão de saúde pública. Promovido pela Secretaria de Saúde do governo do estado de São Paulo, o Fórum Estadual de HIV/Aids trouxe uma das maiores autoridades do mundo na temática do HIV, a Dra. Beatriz Grinsztejn, presidente da International Aids Society (IAS), que falou sobre os avanços da PrEP e as dificuldades de levar o tratamento a todas as pessoas, mesmo com o acesso universal garantido.

Jovens fora do radar e as desigualdades na prevenção

“Não podemos falar em acesso universal porque ainda temos muitas barreiras a derrubar. A população que mais é afetada pelo HIV ainda não consegue aderir integralmente ao tratamento e é isso que temos que discutir. A maior parte dos usuários de PrEP não é de jovens entre 18 a 24 anos, eles só representam 10% do total. E o maior número de novas infecções pelo HIV no Brasil acontece justamente nessa faixa. Por que isso acontece? Entender o contexto de cada paciente é necessário para conseguirmos alcançar essa população”, explicou a Dra.Beatriz.

PrEP injetável supera barreiras e mostra alto desempenho

Dados do estudo ImPrEP CAB Brasil, realizado pela Fiocruz junto ao Ministério da Saúde, mostram uma significativa diferença de alcance entre as PrEPs orais e injetáveis entre jovens da população mais afetada pelo HIV no Brasil. Os medicamentos injetáveis de longa duração apresentaram 95% de alcance, enquanto os remédios orais e diários tiveram uma cobertura de 58%.

O estudo incluiu 1.447 participantes – gays, bissexuais e outros homens que fazem sexo com homens cisgênero, pessoas transgênero e não-binárias –, com idades entre 18 a 30 anos, que nunca haviam utilizado PrEP. A pesquisa foi conduzida em seis cidades brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Florianópolis, Salvador, Manaus e Campinas). A inclusão de participantes ocorreu entre outubro de 2023 e setembro de 2024, com um acompanhamento mínimo previsto de 48 semanas.

“Esses dados mostram que a implementação do cabotegravir injetável para pessoas de minorias sexuais e de gênero, inclusive as que estão em maior situação de vulnerabilidade, é viável e bastante efetiva. A cobertura foi muito alta em comparação à PrEP oral, o que é corroborado pelo fato de não termos registrado infecções pelo HIV entre as pessoas que usaram a PrEP injetável. A PrEP injetável de longa duração pode aumentar tanto o número quanto a diversidade de pessoas protegidas contra o HIV, contribuindo para a ampliação e o alcance da PrEP”, disse Beatriz.

Na presidência da IAS, Beatriz Grinsztejn tem trabalhado para acelerar a distribuição dos medicamentos injetáveis de longa ação, como o cabotegravir e o lenacapavir, pelo mundo. “O cabotegravir já está registrado na Anvisa, mas ainda não foi incorporado ao SUS. O que acontece é que há uma dificuldade em relação à adequação diz preços. Precisa haver uma negociação viável para que o Brasil possa incorporar esse medicamento”, contou a infectologista.

Atualmente, existe um acordo global que permite a produção e fornecimento de versões genéricas do cabotegravir para 133 países. No entanto, o Brasil não foi contemplado.

Lenacapavir: o próximo passo da prevenção de longa duração

Em relação ao lenacapavir, dra. Beatriz Grinsztejn contou que o medicamento será o foco da próxima etapa do ImPrEP. Segundo ela, a pesquisa será realizada nos mesmos locais, com mais uma unidade em São Paulo. “Vamos avaliar o lenacapavir aplicado a cada seis meses como PrEP para minorias sexuais e de gênero, mas com foco nas pessoas de 15 a 30 anos”, explicou.

As metas nacionais para eliminar o HIV como problema de saúde pública

O Ministério da Saúde disponibilizou há alguns meses uma série de diretrizes de objetivos a serem alcançados a fim de eliminar o HIV/Aids como problema de saúde pública. Foram estabelecidas metas parciais até 2027, a serem monitoradas anualmente, em consonância com o planejamento estratégico do Departamento de. HIV, Aids, Tuberculose, Hepatites e Infecções Sexualmente Transmissíveis (Dathi) do Ministério da Saúde.

Sob coordenação do Dathi, serão desenvolvidas ações para o cumprimento de metas já definidas no planejamento estratégico do Departamento, além de outras que somarão ao percurso de implantação das diretrizes.

Um dos objetivos é ampliar o acesso às ações de promoção, prevenção combinada, educação e comunicação em Saúde para populações em situação de maior vulnerabilidade ao HIV e à Aids.

“No Brasil, os casos de HIV estão concentrados em segmentos populacionais que muitas vezes a inserem em contextos que aumentam suas vulnerabilidades em relação à infecção pelo HIV. Expandir e qualificar a oferta de testagem para HIV, sífilis, hepatites virais e outras infecções sexualmente transmissíveis, além da distribuição de insumos de prevenção combinada ao HIV e acesso às PrEPs e PEPs, também requer orientar os esforços para abordar as desigualdades sociais e garantir que a prevenção do HIV alcance equitativamente todas as pessoas”, comentou Paula Andréa Massa, integrante do Dathi.

Com o Dathi, o Ministério da Saúde pretende, até 2027, ampliar em pelo menos 142% o número de usuários de PrEP no país, com foco nas populações em situação de vulnerabilidade ao HIV. O departamento também quer reduzir em 50% as taxas de detecção de novas infecções pelo HIV e distribuir um total de dois bilhões de preservativos internos e externos.

Outro foco do Ministério da Saúde também é em relação ao diagnóstico. Estima-se que, em 2022, 10% das pessoas vivendo com HIV não tinham conhecimento de seu diagnóstico. A infecção pelo vírus não tratada contribui para o aumento da mortalidade associada à infecção e também para a continuidade da cadeia de transmissão do vírus.

“Para alcançar as populações em situação de maior vulnerabilidade, é preciso ampliar a cobertura de distribuição dos testes para o diagnóstico da infecção e qualificar a oferta desses insumos”, explicou Paula Andréa Massa. “Nosso objetivo até 2027 é alcançar 95% de pessoas vivendo com HIV diagnosticadas, e reduzir para 40% a proporção de pessoas com diagnóstico tardio na rede pública “.

QualiAids e a identificação das vulnerabilidades

Dados do MMQ-QualiAids (Monitoramento e Melhoria da Qualidade dos Serviços a pacientes com HIV) mostram que, em que pese a disponibilidade dos medicamentos e tratamentos gratuitos no SUS, a falta de integração entre as redes psicossocial, social e medicinal dificulta a identificação das vulnerabilidades dos pacientes.

De acordo com o relatório emitido pelo programa em 2024, apenas 19% dos serviços oferecidos questionam os pacientes sobre uso de drogas e álcool, enquanto só 13% perguntam a respeito de tratamentos para transtornos mentais. A pesquisa ainda identificou que apenas 28,5% dos serviços apresentam flexibilização de horários de atendimento às pessoas com algum tipo de vulnerabilidade.

“Estamos muito longe de usar as tecnologias mais densas. Hoje nós fazemos isso de uma forma muito heterogênea. Quando pensamos em vulnerabilidade, não pensamos apenas na baixa renda e baixa escolaridade, mas também numa síntese de todos os elementos. É pensar em todos os recursos que o paciente não tem. Não podemos tratar todo mundo igual. Temos que identificar aqueles que mais precisam do serviço”, contou Maria Inês Leme, mestre e doutora pela Faculdade de Medicina da USP, e coordenadora do QualiAids.

O relatório do QualiAids também mostrou que 70% dos serviços declararam ter psicólogos disponíveis aos pacientes, enquanto 84% contam com a disponibilidade de assistência social. No entanto, apenas 15% relataram ter psiquiatras disponíveis, e 30% disponibilizam acesso ao psiquiatra da rede em até 30 dias.

“Há uma clara falta de integração entre a rede psicossocial e a rede social. E isso não pode acontecer. Quando falamos de HIV, não devemos olhar apenas para as questões biomédicas. É preciso ter essa integração com as áreas sociais para que possa haver a identificação das pessoas mais vulneráveis”, explicou Maria Inês.

Artur Garcia, especial para a Agência de Notícias da Aids

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