Se você reduz danos, agradeça a uma pessoa LGBTQIA+ – Super Interessante

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Orgulho não é só festa, trio e bandeira. É também lembrar que muita gente só está viva porque alguém distribuiu camisinha, levou informação, acolheu

Uno Vulpo é médico e produtor de conteúdo, fundador da página @sento.mesmo, com 260 mil seguidores no Instagram. Ficou conhecido por abordar saúde, sexualidade, prevenção e redução de danos de forma acessível nas redes sociais, com conteúdo voltado especialmente para a população LGBT+.

“Quem quer, dá um jeito” é uma expressão muito usada para falar de crush, desejo e insistência amorosa. Mas ela também serve para entender algo muito mais profundo: quando a realidade teima em acontecer, nenhuma proibição dá conta de apagá-la.

O Brasil ainda trata o uso de drogas como caso de polícia, moral ou castigo. Temos uma legislação dura, uma política pública historicamente repressiva e uma educação sobre substâncias que quase sempre se resume ao “não use”, “faz mal” ou “vicia, então não pode”. O resultado é conhecido: encarceramento em massa, violência, mortes evitáveis e uma população inteira condenada à ignorância sobre algo que continua acontecendo todos os dias, em todas as classes sociais, em todas as cidades, em todos os tipos de corpos.

Porque, na vida real, as pessoas usam drogas. As pessoas transam. As pessoas desejam, erram, repetem, se expõem, se arriscam, se cuidam do jeito que conseguem. E quando a única resposta oferecida pelo Estado é a punição ou a abstinência obrigatória, quem vive nas margens aprende a produzir cuidado por conta própria.

Neste Mês do Orgulho LGBT+, participei de um roda de conversa sobre o assunto, ao lado de Jean Wyllys, da psicóloga Maria Angélica Comis e do jornalista Filipe Vilicic, editor da revista Breeza e do podcast Saindo da Estufa. A forma como as políticas públicas têm lidado com o cenário, por meio da Guerra às Drogas, se mostrou um fracasso e emula erros do passado na abordagem da redução de danos em relação a drogas e sexo

Durante a epidemia de HIV/Aids, isso ficou escancarado. Enquanto autoridades demoravam a agir e parte da sociedade assistia à morte de gays, travestis, usuários de drogas, trabalhadoras sexuais e pessoas vivendo com HIV como se fosse uma consequência moral de suas próprias existências, essas comunidades foram obrigadas a transformar sobrevivência em conhecimento.

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A orientação oficial muitas vezes parecia simples: parem de usar drogas, parem de transar, parem de circular, parem de existir como vocês existem. Mas a realidade nunca funcionou assim. Pessoas continuaram usando substâncias, fazendo sexo, vivendo na noite, trabalhando, desejando e tentando atravessar mais um dia. A diferença é que, diante do abandono, grupos marginalizados decidiram organizar o cuidado que lhes era negado.

Foi assim que redes comunitárias passaram a distribuir preservativos, divulgar informações científicas em panfletos, orientar sobre sexo mais seguro, trocar seringas, arrecadar dinheiro para medicamentos, abrir casas, criar bancos de apoio, acompanhar pessoas adoecidas e produzir linguagem onde só havia silêncio. Antes de virar política pública, redução de danos foi gesto clandestino de amor, raiva e desobediência.

Redução de danos é uma prática, uma política e uma filosofia que busca diminuir consequências negativas associadas ao uso de drogas lícitas e ilícitas — e também pode ser pensada em relação ao sexo, à festa, à rua, ao trabalho sexual e a outros comportamentos atravessados por risco. Ela não é apologia ao uso. Pelo contrário: é justamente por reconhecer que riscos existem que ela recusa a fantasia de que o medo resolve tudo.

Reduzir danos é aceitar que a vida das pessoas é mais complexa do que um cartaz dizendo “diga não”. É entender que abstinência pode ser uma escolha, mas não pode ser a única porta de entrada para o cuidado. É reconhecer autonomia, contexto, desejo, vulnerabilidade e desigualdade. É substituir julgamento por vínculo. É trocar o “você não deveria estar fazendo isso” por “já que isso está acontecendo, como podemos fazer com menos risco?”.

Por isso, redução de danos é muito mais do que troca de seringas ou distribuição de insumos. Ela é uma tecnologia de sobrevivência. Uma forma de cuidado elástica o suficiente para caber em vidas que a moral conservadora nunca quis compreender. Ela parte do mundo como ele é, não do mundo higienizado que certas pessoas gostariam de imaginar.

Sua história tem raízes em muitos movimentos dissidentes: nos programas comunitários de sobrevivência dos Panteras Negras, nos coletivos feministas de saúde dos anos 1970, nas organizações de pessoas que usam drogas, nas redes de trabalhadoras sexuais, nos grupos de pessoas vivendo com HIV e nas comunidades LGBTQIA+. Mas dizer que a redução de danos é uma invenção LGBT é disputar uma memória frequentemente apagada: a de que boa parte do que hoje se chama saúde pública nasceu da desobediência civil de corpos que o Estado preferia ver mortos, presos ou calados.

No Brasil, essa história também tem nome, corpo e endereço. Brenda Lee, travesti pernambucana, abriu sua casa no Bixiga, em São Paulo, para acolher pessoas vivendo com HIV/Aids, especialmente travestis expulsas de casa, abandonadas por famílias, recusadas por serviços e perseguidas pela polícia. O chamado Palácio das Princesas oferecia cama, comida, companhia, sigilo, escuta, cuidado e dignidade. Palavras que hoje aparecem em diretrizes de saúde, mas que ali eram prática cotidiana, feita sem glamour, com urgência e coragem.

Brenda Lee não esperou autorização para cuidar. Assim como tantas bichas, travestis, sapatões, putas, pessoas trans, pessoas que usam drogas e pessoas vivendo com HIV não esperaram que o Estado descobrisse sua humanidade. Elas inventaram formas de permanecer vivas quando a política oficial era o abandono.

É por isso que, no Mês do Orgulho, falar de redução de danos também é falar de memória LGBTQIA+. Orgulho não é só festa, trio e bandeira. Orgulho também é lembrar que muita gente só está viva porque alguém distribuiu camisinha, levou informação, acompanhou uma consulta, ensinou a não compartilhar seringa, abriu uma porta, emprestou dinheiro, acolheu um corpo febril, segurou uma mão ou disse: “você não precisa morrer por causa disso”.

A redução de danos nasce dessa ética: nenhuma vida deve ser descartada porque não cabe na norma. Nem a pessoa que usa droga. Nem quem faz sexo fora do roteiro esperado. Nem quem vive com HIV. Nem quem trabalha na rua. Nem quem recai. Nem quem ainda não quer ou não consegue parar.

Quando alguém reduz danos, está fazendo mais do que aplicar uma estratégia de saúde. Está continuando uma linhagem política criada por quem aprendeu, na marra, que sobreviver também é produzir conhecimento. Se hoje falamos em cuidado centrado na pessoa, escuta qualificada, baixa exigência, vínculo, autonomia e acesso, é porque comunidades marginalizadas já praticavam tudo isso muito antes de virar protocolo.

Então, se você já usou camisinha, se já recebeu uma informação honesta sobre drogas, se já ouviu que cuidado não precisa começar pela culpa, se já entendeu que saúde pública não pode ser baseada em castigo, agradeça a uma pessoa LGBTQIA+. Porque redução de danos é isso: amor organizado. Raiva organizada. Luto transformado em método. Sobrevivência transformada em política. E, no fundo, uma das invenções mais bonitas de quem sempre precisou dar um jeito de continuar vivo.

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