Em debate sobre liderança política, deputada brasileira defende pressão social para garantir acesso à nova tecnologia de prevenção; do Peru, Susel Paredes mostra como articulação no Parlamento conseguiu assegurar tratamento de HIV e tuberculose a migrantes sem documentos
De um lado, uma deputada brasileira que quer transformar a chegada de uma das mais importantes inovações recentes na prevenção do HIV em uma batalha política pelo acesso. Do outro, uma parlamentar peruana que enfrentou resistência, xenofobia e uma correlação de forças desfavorável no Congresso de seu país para garantir que migrantes sem documentos não fossem deixados sem tratamento para HIV e tuberculose.
As histórias de Duda Salabert, deputada federal por Minas Gerais, e Susel Paredes, que deixou recentemente o Congresso peruano, deram concretude nesta sexta-feira (31) a uma discussão que atravessou toda a 26ª Conferência Internacional de Aids (AIDS 2026), no Rio de Janeiro: em um momento de extraordinário avanço científico e, simultaneamente, de crise de financiamento e fortalecimento de movimentos políticos contrários aos direitos humanos, quem fará com que as conquistas da ciência cheguem às pessoas que mais precisam?
As duas participaram do simpósio “A liderança política importa: renovando a ação parlamentar para a resposta ao HIV”, realizado no último dia da conferência. Promovido no âmbito da Plataforma Parlamentar Global sobre HIV e Aids, o encontro reuniu representantes do Brasil, Peru e Espanha, além do Unaids e da sociedade civil, para discutir o papel dos parlamentos na proteção de direitos, no financiamento da resposta ao HIV e na ampliação do acesso às novas tecnologias.
Se a discussão parecia institucional no título, ganhou outro tom quando Duda e Susel começaram a falar. As duas colocaram no centro do debate pessoas trans, migrantes, gays, lésbicas, pessoas vivendo com HIV e outras populações que continuam enfrentando barreiras para acessar direitos — e defenderam que a política não pode ser tratada como um elemento secundário da resposta à epidemia.
Duda: “Se o diálogo não avança, só nos resta a luta social”
Duda Salabert começou sua participação lembrando que a realização da AIDS 2026 no Brasil ocorre poucos anos depois de um período marcado, segundo ela, por ataques à ciência e aos movimentos sociais. “Viva a ciência, viva a luta social”, afirmou.
Para a deputada, falar sobre acesso às novas tecnologias de prevenção sem considerar a realidade das populações mais vulnerabilizadas seria insuficiente. Duda chamou atenção especialmente para a situação das travestis e mulheres trans no Brasil, população que enfrenta uma combinação de exclusão social, violência, precariedade econômica e barreiras de acesso à saúde.
“Eu digo sempre que a cabeça pensa onde o pé pisa. Se a cabeça pensa onde o pé pisa, eu sou uma travesti, uma transexual”, disse.
Foi a partir dessa experiência, afirmou, que sua atuação parlamentar se aproximou também da defesa dos direitos das pessoas vivendo e convivendo com HIV e aids.
No centro de sua intervenção esteve o lenacapavir, antirretroviral de longa duração que se tornou um dos principais assuntos da AIDS 2026. Para prevenção, o medicamento pode ser administrado apenas duas vezes ao ano e apresentou eficácia próxima de 100% nos grandes estudos clínicos que antecederam sua aprovação.
Mas o entusiasmo científico esbarra em uma questão que atravessou a conferência: quanto custará e quem terá acesso?
Duda contou que apresentou no Congresso Nacional um projeto para declarar o lenacapavir de interesse público, coletivo e nacional. A iniciativa pretende abrir caminho para medidas que permitam ao país ampliar o acesso ao medicamento caso as negociações com a fabricante não avancem.
“Quebrar a patente do lenacapavir no Brasil não é ir contra a ciência, é estar coerente com a ciência. Porque a ciência foi criada e é pensada para salvar vidas”, afirmou.
Para a parlamentar, não há contradição entre defender pesquisa, inovação e propriedade intelectual e questionar preços que impeçam uma tecnologia de saúde de chegar à população.
“Nós somos favoráveis às patentes, somos favoráveis às pesquisas, mas a patente não foi criada para deixar superbilionários mais bilionários ainda. Não é esse o objetivo da patente.”
Duda afirmou ainda que o governo brasileiro já apresentou propostas à farmacêutica responsável pelo medicamento, mas que as negociações não avançaram.
“O governo brasileiro fez propostas extremamente interessantes do ponto de vista financeiro, e a farmacêutica negou. O diálogo não está avançando. Se o diálogo não avança, só nos resta a luta social.”
“Vida Acima da Patente”
É nesse cenário que Duda quer transformar o debate sobre o lenacapavir em uma mobilização para além do Congresso.
Durante a sessão, ela apresentou o movimento Vida Acima da Patente, inspirado, segundo explicou, na capacidade de mobilização social demonstrada recentemente por movimentos brasileiros em outras pautas.
A estratégia é fazer com que uma discussão aparentemente técnica — envolvendo patentes, preços, negociação governamental e incorporação tecnológica — se torne uma questão compreensível para a sociedade: se existe uma ferramenta capaz de mudar o curso da epidemia, o preço pode determinar quem será protegido.
“Queremos que a luta da Vida Acima da Patente seja a grande próxima luta. Então nós precisamos de vocês: comunicadores, ativistas, cientistas, pessoas que defendam a ciência”, convocou.
Mais tarde, ao responder a uma pergunta da plateia, Duda fez uma avaliação ainda mais dura sobre o momento político.
“Precisamos entender o cenário político e a conjuntura política do Brasil, da América Latina e do mundo. E ser muito honestos: estamos lutando para evitar retrocessos. Infelizmente, não estamos em uma conjuntura de avanço.”
Ela lembrou que pautas relacionadas aos direitos LGBT têm sido utilizadas por grupos de ultradireita para produzir pânico moral e mobilização política. Segundo Duda, um dos principais debates envolvendo a população LGBT no Congresso brasileiro nos últimos anos foi justamente uma tentativa de questionar o casamento entre pessoas do mesmo sexo.
Mas a deputada enxerga no lenacapavir uma possibilidade diferente. Segundo ela, a proposta de declarar o medicamento de interesse público conseguiu apoio para além do campo progressista. “Recebemos apoio da esquerda, da direita e do centro, e quase não houve críticas”, relatou.
Para Duda, essa reação pode indicar que o acesso às novas tecnologias contra o HIV tenha capacidade de atravessar divisões partidárias — desde que a sociedade compreenda o que está em jogo.
No Peru, uma lei para quem sequer tinha documentos
Se Duda levou ao debate uma batalha que está acontecendo agora no Brasil, Susel Paredes apresentou o resultado de outra luta, travada durante anos no Peru.
Advogada, ativista dos direitos humanos e primeira mulher abertamente lésbica a ocupar uma cadeira no Congresso peruano, Susel recuperou inicialmente a história da mobilização LGBT na resposta à epidemia.
“Eu venho do ativismo. Sou uma ativista lésbica, mas vocês sabem que, no início da epidemia, se houve algo que uniu o movimento de lésbicas, gays, pessoas trans, etc., foi a epidemia”, contou.
Ela lembrou das lésbicas que cuidaram de amigos gays adoecidos nos primeiros anos da aids e da articulação dos movimentos sociais que contribuiu para a conquista do tratamento gratuito para pessoas vivendo com HIV no Peru.
Décadas depois, uma nova população começaria a chegar aos serviços de saúde peruanos em situação extrema.
Com a crise migratória venezuelana, Susel relatou ter encontrado pessoas que chegavam ao Peru depois de caminhar durante dias, algumas com tuberculose ou em estágio avançado de aids. Sem documentação regular, muitas ficavam fora da assistência.
“Chegaram caminhando por 10, 15 dias, em péssimas condições, com tuberculose, em estágio de aids, já à beira da morte”, relatou.
Para ela, a resposta deveria partir de um princípio elementar: “Nenhuma pessoa é ilegal. As pessoas são pessoas. Apenas, por um momento, não possuem alguns documentos.”
O problema, porém, precisava atravessar um Parlamento conservador. Susel era minoria. E sabia disso. “Eu era a lésbica do Congresso, a tia lésbica da pátria”, brincou ao descrever a posição política que ocupava.
A saída foi construir uma articulação em diferentes frentes. Sociedade civil, Unaids, sociedades científicas e parlamentares passaram a desempenhar papéis distintos. Susel conversava com representantes da esquerda, do centro e com congressistas ligados à área da saúde. Outros atores dialogavam com setores conservadores.
Foram, segundo ela, dois anos de trabalho. O resultado foi uma mudança na legislação que permitiu que migrantes sem documentos tivessem acesso ao tratamento de HIV e tuberculose no sistema público peruano.
Para Susel, a medida precisava considerar algo frequentemente esquecido quando se fala em acesso à saúde: as vulnerabilidades não aparecem isoladamente. “Você é gay, é uma mulher trans, é pobre, é migrante, é afrodescendente. Então, são muitas razões de vulnerabilidade nessa população.”
O argumento que virou o plenário
Um dos momentos mais fortes do relato de Susel aconteceu quando ela descreveu como defendeu a proposta diante do plenário do Congresso.
A parlamentar sabia que enfrentava um sentimento disseminado contra migrantes e que parte dos congressistas questionaria por que o Estado peruano deveria utilizar recursos públicos para atender estrangeiros. Foi então que decidiu mudar o argumento.
Em vez de falar apenas sobre solidariedade, apresentou o acesso ao tratamento como uma política de saúde pública que protege toda a sociedade. “Vocês aqui dirão: ‘Para que dar tratamento e gastar dinheiro com os migrantes?’”, recordou.
Então dirigiu a argumentação aos próprios parlamentares. Falou sobre relações sexuais, transmissão do HIV e sobre a possibilidade de uma pessoa com tuberculose sem tratamento transmitir a doença no transporte público. “Isso não é um benefício para os estrangeiros, é uma proteção para nós, o país de acolhimento.”
Funcionou. “Eles olharam uns para os outros e nós vencemos”, contou. A lei foi aprovada. Hoje, migrantes vivendo com HIV ou tuberculose podem receber tratamento gratuito no Peru, embora Susel reconheça que ainda existam lacunas. Uma delas é o gasto direto com exames necessários ao acompanhamento dos pacientes.
Ela deixou o Parlamento recentemente, mas fez questão de dizer que outros ativistas chegaram ao Congresso e deverão continuar a batalha.
“Primeiro, erguendo a barreira para não retroceder e, segundo, avançar até eliminar o gasto do próprio bolso para que todas as pessoas tenham sempre os mesmos direitos.”

Quando o Parlamento vira barreira contra o retrocesso
A experiência peruana dialogou diretamente com a avaliação apresentada no início da sessão pelo secretário de Estado da Saúde da Espanha, Javier Padilla.
Para ele, uma das funções fundamentais dos parlamentos neste momento é impedir que direitos conquistados desapareçam quando governos mudam.
Padilla citou medidas adotadas na Espanha contra a discriminação de pessoas vivendo com HIV, incluindo normas que passaram a proibir expressamente discriminação com base no estado sorológico.
Também lembrou mudanças que permitiram às pessoas vivendo com HIV exercer profissões antes vetadas a elas e a revogação de uma norma que impedia a doação de órgãos entre pessoas com HIV.
A questão central, afirmou, é construir uma espécie de barreira institucional contra retrocessos.
O secretário espanhol também fez uma provocação diretamente relacionada ao debate sobre as novas formas de PrEP.
Segundo ele, medicamentos com eficácia semelhante à das atuais formulações de prevenção de longa duração provavelmente enfrentariam menos resistência institucional se fossem destinados a outras doenças.
A pergunta, portanto, é incômoda: quanto da dificuldade para financiar novas tecnologias contra o HIV ainda é consequência do próprio estigma associado à epidemia?
Ciência avança enquanto o dinheiro diminui
A urgência dessa discussão ficou evidente já na abertura da sessão. Representando o Unaids, Angeli Achrekar alertou para o paradoxo vivido atualmente pela resposta global ao HIV: enquanto a ciência produz algumas das ferramentas mais promissoras desde o início da epidemia, os recursos internacionais diminuem e direitos humanos voltam a ser questionados em diferentes partes do mundo.
Ela destacou que parlamentares podem atuar em diferentes frentes: apresentar e modificar leis, proteger recursos orçamentários, fiscalizar governos e pressionar pela implementação de compromissos internacionais.
“Cada passo sério dado na resposta ao HIV teve um legislador por trás”, afirmou.
Segundo a apresentação, a Plataforma Parlamentar Global sobre HIV e AIDS já reúne cerca de 300 legisladores de mais de 40 países, numa tentativa de criar articulação política internacional justamente em um período marcado por polarização e instabilidade no financiamento.
Essa mobilização, afirmou, tornou-se ainda mais necessária diante de um cenário em que o financiamento internacional destinado à resposta ao HIV sofreu uma queda que ela situou próxima de 25%, ao mesmo tempo em que direitos humanos enfrentam retrocessos e o espaço cívico se reduz em diferentes países. O contraste com o momento científico é enorme.
“Estamos vendo a inovação explodir positivamente”, afirmou Achrekar, ao mencionar o avanço das tecnologias de longa duração e outras alternativas que estão em desenvolvimento.
Mas imediatamente fez a ressalva que atravessaria todo o restante do painel: “Não adianta termos inovações, a menos que elas sejam acessíveis a todos que delas necessitam.”
A representante do Unaids também destacou a nova declaração política global sobre HIV e aids, aprovada por 149 países, ressaltando compromissos relacionados aos direitos humanos, ao enfrentamento do estigma e da discriminação, à proteção do espaço cívico e ao financiamento das respostas lideradas pelas comunidades.
Para ela, entretanto, declarações internacionais só produzem mudanças quando são transformadas em legislação, orçamento e políticas públicas dentro dos países.
É justamente aí que entram os parlamentos.
A liderança política, afirmou Achrekar, precisa aparecer em “leis que removem disposições punitivas e expandem direitos”, em orçamentos que financiem serviços comunitários e liderados por jovens e na fiscalização de governos e doadores.
A mensagem que atravessou a sessão foi clara: uma descoberta científica, por mais revolucionária que seja, não muda uma epidemia sozinha.

“Precisamos estar com a caneta na mão”
Alexandre Putti, do Fundo Positivo, levou essa discussão para o financiamento da sociedade civil brasileira.
Pessoa vivendo com HIV, jornalista e ativista, ele lembrou que, apesar da existência do SUS e do acesso universal ao tratamento, milhares de brasileiros ainda morrem anualmente em decorrência da aids.
Para Putti, a explicação está justamente nas desigualdades que impedem parte da população de chegar aos serviços. “Que horas essa pessoa vai buscar um medicamento? Que horas essa pessoa vai buscar a PrEP?”, questionou, ao falar de pessoas submetidas a longas jornadas de trabalho e de mulheres que acumulam emprego e trabalho doméstico.
É nesse espaço, afirmou, que organizações comunitárias conseguem chegar onde políticas tradicionais muitas vezes não chegam.
Putti também fez duras críticas aos cortes recentes no financiamento internacional da resposta ao HIV e defendeu que populações diretamente afetadas pela epidemia ocupem os espaços onde são tomadas decisões orçamentárias.
“Precisamos estar com a caneta na mão. Precisamos estar em espaços decidindo para onde vai o orçamento.”
A política também determina quem vive
No último dia da AIDS 2026, depois de uma semana marcada por anúncios científicos, debates sobre novos antirretrovirais, prevenção de longa duração e possibilidades que pareciam inimagináveis há poucos anos, o painel parlamentar colocou uma questão diferente no centro da conferência.
Talvez o próximo grande obstáculo da resposta ao HIV não esteja dentro de um laboratório. Pode estar dentro de um Parlamento.
Redação da Agência de Notícias da Aids com informações
* A equipe da Agência de Notícias da Aids cobre a AIDS 2026 com o apoio do Senac São Paulo e da Coordenadoria de IST/Aids da cidade de São Paulo.




