A jornalista Gabryella Garcia fala sobre os obstáculos enfrentados pela comunidade trans ao buscar serviços de saúde: ‘Muitas pessoas têm muito receio e vão na base de indicação’. À Marie Claire, a médica Débora Britto explica a importância de garantir o acesso igualitário

Quando falamos sobre saúde sexual, incluindo a saúde reprodutiva, é importante entender que vai além de não ter doenças. É sobre se sentir bem em termos físicos, mentais e sociais quando se trata de reprodução e sexualidade.
Isso significa garantir acesso à informação e recursos para um indivíduo expressar sua sexualidade de forma segura e satisfatória, sem ser coagido, violentado ou discriminado. Para ter o direito de decidir se desejam ter filhos, quando e quantos desejam, com total autonomia. O mesmo valor deveria ser aplicado para a população em geral, mas não é o que acontece com as pessoas transsexuais.
Faz apenas um ano que a CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas de Saúde) da Organização Mundial de Saúde (OMS) entrou em vigor. A nova resolução retirou a classificação da transexualidade como transtorno mental após 28 anos. É um avanço na luta do movimento trans, mas também expõe o motivo de muitas mulheres terem receio quanto a procurar profissionais de saúde.
A jornalista Gabryella Garcia destacou a falta de preparo dos profissionais, incluindo médicos, enfermeiros e atendentes, como um dos principais obstáculos enfrentados pela comunidade trans ao buscar serviços de saúde: “Falta um atendimento mais humanizado, o que acaba afastando as pessoas do sistema de saúde como um todo”.
Outra questão crucial apontada por ela é a inadequação da terminologia utilizada nas especialidades médicas. Ela observa que a definição de “ginecologista” como especialista em saúde da mulher exclui homens trans, que também necessitam desse tipo de cuidado.

Da mesma forma, a terminologia relacionada à saúde masculina, como “andrologista”, afasta as mulheres trans que buscam acompanhamento nessa área. “A terminologia especializada em saúde masculina acaba afastando a mulher trans que precisa desse acompanhamento, seja para questões de fertilidade ou outros fatores”.
Além dessas questões, o preconceito presente na sociedade é um desafio a ser superado. Gabryella enfatiza a falta de avanço nesse aspecto, destacando que casos de transfobia em atendimentos médicos ainda são frequentes.
Ela também menciona a negação de certos exames pelos sistemas de saúde: “Eu mesma, no ano passado, tive câncer no testículo. Quando ia fazer os exames para operatórios, se colocasse o preenchimento do meu cadastro no feminino, mesmo tendo feito retificação, o sistema não liberava para eu fazer o exame que precisava. Então para conseguir fazer esse exame, tinha que mudar meu cadastro e colocar masculino, se não simplesmente não poderia fazer o exame”.
“A luta por uma saúde mais inclusiva e acessível para a comunidade trans demanda a implementação de políticas públicas que incentivem a formação de profissionais de saúde preparados e o acolhimento efetivo dessas pessoas”.
Como cuidar da saúde sexual de maneira adequada?
A ginecologista e médica especialista em Sexualidade Humana, Débora Britto, afirma que com relação às mulheres trans e travestis, muitas diretrizes são as mesmas das mulheres cisgênero, “mas deve-se observar algumas especificidades e ter a sensibilidade de entender que existem barreiras para essa população no acesso à saúde, logo, para aquela pessoa que busca o cuidado, podem existir algumas ansiedades relacionadas à experiências negativas anteriores ou a nunca ter ido à uma consulta”.
Por exemplo: é essencial cuidar da saúde e higiene dos órgãos genitais para uma vida sexual saudável. Mas também é compreensível que muitas mulheres trans possam sentir receio ao falar sobre esse assunto. “As consultas médicas podem ser ótimas oportunidades para ajudá-las a se familiarizar com seus corpos e a reconhecerem possíveis alterações que possam indicar problemas de saúde. Podemos aproveitar o momento de consulta para oferecer um espaço para que a paciente exponha suas dúvidas e sermos ativos e assertivos em um processo de educação em saúde”, declara Britto.
Também é importante garantir o acesso igualitário aos serviços de saúde, incluindo cuidados preventivos gerais e direcionados a prevenção dos cânceres, exames de rotina, atendimento ginecológico e as orientações sobre o acesso às modalidades de afirmação de gênero, como o uso de hormônios e cirurgias de afirmação de gênero, quando desejado.

Quanto a prevenção contra ISTs, a médica explica: “É importante conhecer as práticas sexuais, para que essas mulheres sejam informadas das melhores maneiras de proteção, entre elas o uso de preservativos, vacinas e a possibilidade do uso de Profilaxia Pré-exposição de Risco (PREP) e Profilaxia Pós-Exposição de Risco (PEP). Além disso, é essencial estabelecer limites claros e obter consentimento mútuo em todas as interações sexuais”.
Algumas mulheres trans e travestis também podem ter preocupações em relação à saúde reprodutiva, como contracepção ou preservação da fertilidade antes do início da terapia hormonal ou cirurgias de afirmação de gênero. “É fundamental que o profissional valide o projeto de parentalidade, de ter ou não filhos, e se eles serão biológicos ou adotivos. Além de incluir na consulta um momento para que sejam dadas as orientações sobre contracepção e opções de planejamento reprodutivo, seja para evitar ou para um dia vir a ter filhos”.
O Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução 2.265 de 2019, que trata da atenção integral à saúde da pessoa trans e estabelece também que a assistência médica deve promover atenção integral e especializada nas fases de acolhimento, acompanhamento ambulatorial, hormonioterapia e procedimentos clínicos, cirúrgicos e pós cirúrgicos.
“O profissional de saúde deve conhecer como a pessoa deseja ser chamada e respeitar seu nome social quando ela não fez a retificação do nome civil. Reconhecer como a pessoa se identifica quanto ao gênero, a orientação e as práticas sexuais também é importante para que as instruções e atenção sejam direcionadas às demandas e as especificidades e não a partir de deduções por parte do que o profissional imagina a partir do que vê e pensa”.


