Quem cuida da mulher que vive com HIV? A pergunta norteou o debate sobre saúde mental durante o X Encontro Estadual do Movimento Nacional das Cidadãs Positivas de São Paulo (MNCP-SP), que reuniu ativistas e profissionais para discutir os desafios enfrentados por mulheres que vivem com o vírus.
A mesa contou com a participação de Jean Dantas, da área de articulação com a sociedade civil no Programa Estadual de IST/Aids de São Paulo, e da ativista Silvia Almeida, do MNCP, e abriu espaço para reflexões sobre o impacto emocional do diagnóstico e a importância de redes de apoio para o cuidado integral dessas mulheres.
Um local para se apoiar
Jean falou sobre caminhos possíveis para fortalecer a saúde mental, destacando a importância de romper o isolamento e buscar espaços de acolhimento.
Entre as alternativas mencionadas estão igrejas, instituições de saúde, serviços públicos e, principalmente, grupos de convivência entre mulheres que vivem com HIV. Segundo ele, esses espaços permitem trocas que vão além do cuidado clínico.
“Quando você tem outras mulheres que vocês trocam conversas, é um espaço de aprendizagem. Aqui vem troca. Aqui você chora. Aqui você ri. Aqui você aprende a falar. Aqui você aprende a ter um suporte. Então, aqui nenhum profissional de saúde vai dar.”, disse.
Ele também destacou o que considera essencial para garantir direitos às mulheres que vivem com HIV no Brasil. Entre os pontos citados estão a necessidade de um cuidado que leve em conta a história de vida, a saúde mental e os direitos reprodutivos dessas mulheres; apoio durante a gestação, parto e pós-parto; além de redes de proteção social mais acessíveis e menos burocráticas.
PICS e o autocuidado
Outro tema discutido no encontro foram as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), abordagens terapêuticas oferecidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) com foco na prevenção de agravos e na promoção do bem-estar.
Silvia trouxe o tema ao debate como forma de ampliar o acesso à informação entre mulheres que vivem com HIV e incentivar práticas que possam contribuir para a saúde mental e física.
“Embora tenha sido implementada em 2006, a gente ainda não tem essa política espalhada pelos nossos serviços de saúde”, comentou Silvia ao explicar a função das PICS e a necessidade de ampliar sua presença na rede pública.
Entre as 26 práticas atualmente ofertadas pelo SUS estão acupuntura, ioga, antroposofia e dança circular, entre outras. A proposta dessas abordagens é ampliar o olhar sobre o cuidado, focando no indivíduo e em seu contexto de vida, com estímulo ao autoconhecimento e ao equilíbrio emocional.
“O foco da atenção primária é o uso crescente na saúde mental e manejar e ajudar a diminuir as dores crônicas”.
Durante o debate, uma das participantes também levantou a possibilidade do uso de cannabis medicinal como alternativa para aliviar ansiedade e dores crônicas, apontando que a prática pode contribuir para o cuidado de pessoas que vivem com HIV.
Ajuda mútua
A importância de espaços de acolhimento e diálogo voltou ao centro da discussão na fala de Silvia Almeida, que reforçou o papel das redes de apoio entre mulheres que vivem com HIV.
Segundo ela, esses ambientes permitem conversas francas, sem medo ou vergonha, sobre experiências que muitas vezes não conseguem ser compartilhadas com pessoas soronegativas.
Silvia destacou ainda que o MNCP mantém reuniões online entre participantes, com o objetivo de fortalecer o acolhimento e a troca de experiências entre mulheres de diferentes regiões.
“Quando a gente não recebe amor, a gente doa.”, concluiu Silvia.
Glaucia Magalhães (glaucia@agenciaaids.com.br)
Estagiária em Jornalismo na Agência Aids
Edição: Talita Martins
Dica de entrevista:
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