
A saúde integral é um conceito que vai além do tratamento de sintomas isolados, considerando o paciente como um todo, dentro de seu contexto social, histórico e psicológico. Luiza Cadioli, médica de família e comunidade integrante do Coletivo Feminista Sexualidade e Saúde, fala sobre a importância desse olhar integral e como ele é fundamental para uma prática médica feminista e inclusiva, especialmente para as populações LGBT+. “Atualmente, a gente separa a pessoa em partes do corpo, sistemas, especialidades. Mas a integralidade também é um dos princípios do SUS, não só pensando no paciente como um todo, mas no sistema, na conexão dos níveis de atenção”, explica Cadioli. Segundo ela, esse conceito não é novo e está presente em medicinas milenares como a chinesa e a indiana e inclui a percepção do contexto social, estilo de vida e saúde mental. “Eu diria que a integralidade é um conceito que nos ajuda a entender qual é o imaginário e as fantasias que a pessoa faz do sintoma. É muito diferente uma pessoa que está com uma diarreia, que está preocupada com essa diarreia, de uma pessoa que está tranquila. Muitas vezes o que nos motiva a procurar o atendimento é a preocupação. Além disso, é muito diferente uma pessoa que vive num lugar que não tem saneamento básico de outra que tem. É preciso entender a história de vida e familiar”, esclarece.
A abordagem feminista na medicina propõe uma visão crítica ao modelo hegemônico, machista e misógino. “Ela leva em conta o respeito à diversidade de identidades de gênero e de orientações sexuais, faz uma abordagem da sexualidade e dos ciclos de vida, dos processos e traz a crítica a como a medicina tradicional vem tratando esses corpos”, diz Cadioli. Esse modelo de atenção busca não apenas humanizar o cuidado, mas também questionar a medicalização excessiva e o uso histórico de corpos de mulheres negras para experimentos.
Para as populações trans, o principal desafio ainda é o acesso ao sistema de saúde. “Ainda são pessoas que sofrem muito preconceito na recepção, essa coisa do nome social, dos pronomes, e da pessoa se sentir à vontade para procurar um serviço de saúde”, ressalta a médica. Embora haja esforços para descentralizar o atendimento e incluir a população trans nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs), a implementação eficaz depende de treinamento contínuo e sensibilidade dos profissionais de saúde.
A diferença entre os sistemas público e privado de saúde também afeta a abordagem integral. No sistema privado, o tempo de consulta e o vínculo com o profissional podem ser maiores, mas a integralidade do cuidado é dificultada pela falta de uma equipe multiprofissional acessível a todos. “No sistema público, a pessoa pode passar no médico, no enfermeiro, no fisioterapeuta, no psicólogo, e ter esse olhar integral”, afirma Cadioli. A rotatividade e a falta de formação específica em medicina de família são desafios no SUS, mas a presença de uma equipe multidisciplinar pode compensar essas limitações.
Nomear e reconhecer as diversidades é um passo crucial para um atendimento mais inclusivo. Perguntas sobre raça, gênero, orientação sexual e práticas sexuais ajudam a educar tanto os profissionais quanto os pacientes. “Na consulta, é importante fazer as perguntas: como você identifica a sua raça-cor? Quais são os seus pronomes? Quais são as suas práticas sexuais? Quais são as suas orientações sexuais? Quando você pergunta para todos, a pessoa que talvez nunca tenha pensado nisso, por ter sido lida como padrão a vida inteira, precisa pensar e é educativo”, explica Cadioli. Esse processo é fundamental para desnaturalizar privilégios e reconhecer sistemas de opressão que impactam a saúde.
A interseccionalidade, conceito que leva em conta as múltiplas camadas de identidade e opressão, é também essencial para a prática de saúde integral. “A equidade é justamente você privilegiar os grupos vulneráveis para que eles tenham o mesmo acesso ou um pouco melhor de acesso do que os grupos privilegiados”, afirma a médica. Isso significa priorizar o atendimento de pessoas LGBTQIAPN+, pessoas em situação de pobreza, pessoas negras, e mulheres de modo a equilibrar as desigualdades históricas e sociais.
A saúde mental é uma área onde a abordagem integral e interseccional se mostra particularmente necessária. Perguntas abertas e ativas sobre a saúde mental dos pacientes, especialmente aqueles que fazem parte de grupos vulneráveis, são essenciais para um cuidado eficaz. “Faz parte da consulta ajudar a pessoa a reconhecer as violências, a reconhecer as questões de saúde mental”, destaca Cadioli.
Além disso, reconhecer e responder às necessidades específicas de diferentes grupos é crucial. Pessoas trans, por exemplo, podem ter desejos de modificações corporais que precisam ser tratados com conhecimento técnico e sensibilidade. “A integralidade, às vezes, passa por muitos atendimentos de várias pessoas diferentes da mesma equipe, por esse olhar amplo”, conclui a médica.
Promover a saúde integral a partir de uma perspectiva feminista e inclusiva é um desafio contínuo que exige a conscientização dos profissionais de saúde, a formação adequada e a implementação de políticas públicas que garantam acesso e equidade. A luta pela saúde integral é, portanto, uma luta pela dignidade e pelo reconhecimento de todas as pessoas em sua totalidade.
Marina Vergueiro (marina@agenciaaids.com.br)
Dica de entrevista:
Luiza Cadioli – https://www.instagram.com/coletivo_feminista/



