“Saúde integral não é só hormônio” — Paola Souza expõe o que ainda falta à saúde trans no Brasil

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Em um país que lidera, há anos, os índices de violência contra pessoas trans, o 31 de março não é apenas uma data simbólica. O Dia Internacional da Visibilidade Trans se impõe como um momento de disputa de narrativa: entre avanços institucionais e a persistência de desigualdades profundas que atravessam o cotidiano dessa população — especialmente no acesso à saúde.

É nesse contexto que se insere a entrevista com a pesquisadora e mulher trans Paola Alves de Souza, doutora em Psicologia e uma das vozes mais consistentes no campo da saúde pública voltada à população trans no Brasil. Atualmente à frente de projetos de prevenção ao HIV/aids com foco em jovens e adolescentes no Departamento de Medicina Preventiva da USP, Paola parte de um ponto essencial: o Brasil não começa do zero — mas está longe de cumprir o que já garantiu.

“Quando a gente fala de acesso à saúde para pessoas trans no Brasil, a gente poderia só estar falando da portaria 2.803 de 2013, que regulamenta a política nacional de saúde integral”, afirma. “Essa portaria, por si só, garantiria o atendimento integral. Mas ainda não é assim.”

A política, explica, prevê muito mais do que hormonização e cirurgias. Fala de atenção básica, de acesso a especialistas, de cuidado contínuo. “Um corpo trans é feito de cabeça, pernas, coração, olhos. Saúde integral não é só hormônio”, diz. O que existe hoje, no entanto, é uma distância significativa entre o desenho da política e sua execução.

Avanços que existem — mas não se sustentam sozinhos

Ao contrário de leituras simplificadoras, Paola não nega os avanços. Pelo contrário, insiste que eles são reais — ainda que insuficientes.

Ela cita a decisão do Supremo Tribunal Federal, em 2019, que equiparou a transfobia ao crime de racismo, e destaca o impacto de políticas como o Programa Transcidadania, criado em 2015, voltado à inclusão educacional e social de pessoas trans.

“Não tem como dizer que não há avanço quando vemos pessoas trans ocupando espaços, sendo reconhecidas, quando vemos mobilizações nas ruas. Isso é política pública também, se materializando na vida”, afirma.

Mas ela faz um alerta: leis e programas não operam automaticamente mudanças culturais. “A lei chega antes da cultura. E a cultura demora mais.”

Onde tudo falha: o encontro com o sistema

Se no plano institucional há avanços, é na ponta que o sistema revela suas fragilidades mais profundas.

“Quando essa política chega na ponta, o que a gente encontra é uma realidade de profissionais terceirizados, com alta rotatividade, muitas vezes sem preparo nenhum”, relata. “Às vezes é alguém que não sabe nem o que é ser trans fazendo o primeiro atendimento. E ali já destrói tudo.”

Esse primeiro contato — muitas vezes invisibilizado nas formulações de política — pode ser determinante. Um nome social desrespeitado, um olhar de julgamento, uma pergunta inadequada. Pequenos gestos que, acumulados, afastam.

“A principal barreira não está só no protocolo. Está no corpo de quem atende.”

Saúde mental: o ponto cego

Ao longo da entrevista, um tema retorna com força: a negligência em torno da saúde mental.

Paola rejeita a ideia de que saúde mental se resume ao atendimento psicológico. “Saúde mental não é uma coisa que está dentro da cabeça. É sair na rua e ser respeitada. É ter trabalho, acesso ao hormônio, dignidade, amor.”

Ainda assim, ela aponta que, dentro do sistema, esse campo é frequentemente tratado como secundário. “É colocado como um saber menor, quando, na verdade, estamos falando de uma população historicamente violentada.”

O resultado é um cenário alarmante, que inclui altos índices de sofrimento psíquico e uma crescente preocupação com suicídio entre pessoas trans.

HIV/aids: centralidade necessária — e limite perigoso

A relação entre população trans e HIV/aids é incontornável. Trata-se de uma das populações mais afetadas pela epidemia no país. Mas, segundo Paola, há um risco em permitir que essa associação se torne totalizante.

“O problema não é falar de HIV. O problema é quando tudo começa e termina aí”, afirma.

Ela reconhece a importância de políticas como a PrEP (profilaxia pré-exposição), disponível no SUS desde 2018. No entanto, aponta que o acesso está longe de ser equitativo.

“A PrEP não chega de forma igual para a população trans. E não chega porque essa população foi historicamente afastada dos serviços de saúde.”

A desigualdade se aprofunda quando se observa o recorte geracional. Jovens trans enfrentam barreiras ainda maiores, seja por falta de informação, medo, estigma ou entraves institucionais.

“O projeto PrEP 15-19 mostrou isso claramente. Existe um bloqueio enorme no acesso de jovens trans.”

Política pública sem território

Talvez uma das críticas mais contundentes feitas por Paola seja o distanciamento entre a formulação de políticas públicas e a realidade vivida.

“Existe um desencontro total entre a política e a vida real”, afirma. “As políticas ainda estão muito distantes da sociedade civil, dos coletivos, das pessoas que estão na ponta.”

Essa distância não é apenas geográfica ou administrativa — é epistemológica. Falta escuta, falta participação, falta incorporar a experiência de quem vive na pele as barreiras que os formulários não registram.

“Como é que a gente ainda não tem campo de identidade de gênero nos formulários do SUS? A gente está falando do básico.”

Neste Dia Internacional da Visibilidade Trans, a pergunta que fica não é apenas sobre o que já foi conquistado, mas sobre o que ainda falta para que o direito deixe de ser promessa — e passe a ser experiência cotidiana.

Porque, como a própria Paola sugere, não basta existir política pública. É preciso que ela chegue inteira.

Redação da Agência de Notícias da Aids

Dica de entrevista

Paola Souza

Instagram: @paola.alves.souza

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