Quarenta e quatro anos após o diagnóstico dos primeiros casos de HIV no mundo, o vírus já não carrega o mesmo peso de mistério e desinformação de décadas atrás — mas o desafio de conter sua disseminação segue urgente. A cada nova geração, é preciso reconstruir pontes entre o conhecimento científico e o cotidiano dos jovens. E é justamente nesse ponto que entra o projeto “Saúde, Informação e Cidadania”, uma parceria entre o Senac São Paulo e a Agência de Notícias da Aids, que percorre o litoral, a capital e o interior do estado levando informação, diálogo e escuta às salas de aula.
A iniciativa, que acontece desde 2008, retoma em outubro uma nova rodada de encontros: começa nesta terça-feira (14) no Senac Americana, segue por Piracicaba (15), Sorocaba (16), Campinas (17) e termina em Santos (20). A proposta é simples e poderosa — abrir espaço para conversar sobre prevenção, autocuidado e saúde sexual com jovens e educadores, em um formato acessível, acolhedor e livre de julgamentos.

O ativista Diego Krauzs e a jornalista Roseli Tardelli, com os jovens durante um dos encontros.
“Levar informação de qualidade para a juventude é um ato de cuidado e de cidadania. Projetos como este ampliam o debate sobre saúde sexual, fortalecem o autocuidado e ajudam a derrubar o estigma que ainda cerca o HIV e a aids. Falar do tema com franqueza e responsabilidade é essencial para que os jovens façam escolhas seguras e conscientes. A luta contra a aids passa pela educação e pelo diálogo aberto, e iniciativas como esta reafirmam nosso compromisso com uma sociedade mais informada, acolhedora e livre de preconceitos. Informação é ferramenta de transformação”, explica a jornalista Roseli Tardelli, idealizadora do Projeto e mediadora dos debates.
Educar para prevenir
O projeto nasce da convicção de que falar sobre HIV é falar sobre cidadania. Em tempos de fake news e moralismos que ainda rondam a saúde sexual, ações como esta ajudam a devolver o tema ao espaço que ele nunca deveria ter deixado: o do diálogo aberto e baseado em evidências.
A Mandala da Prevenção, estratégia do Ministério da Saúde apresentada nos encontros, resume bem esse novo olhar. Ela mostra que proteger-se vai além do uso de preservativos, envolvendo o acesso à Profilaxia Pré-Exposição (PrEP), Profilaxia Pós-Exposição (PEP), tratamento como prevenção (I=I) e testagem regular. A ideia é que os jovens compreendam essas ferramentas, usem e compartilhem o conhecimento — tornando-se multiplicadores em suas comunidades.

Lucila Sciotti, superintendente de Operações do Senac São Paulo, doutora e mestre em Educação
“É com imenso prazer que vemos a nova série de palestras da Agência Aids, com a coordenação de Roseli Tardelli e vários profissionais fazendo um roteiro de palestras pelas unidades do Senac São Paulo. Essas palestras são momentos muito informativos. São momentos significativos que trazem para todos os nossos estudantes a oportunidade de conhecer todas as possibilidades de precaução e prevenção com relação às ISTs (infecções sexualmente transmissíveis), às infecções pelo HIV e a outras doenças que possam ser transmitidas sexualmente. Essas informações são fundamentais para a saúde. São fundamentais para o desenvolvimento da cidadania de cada um desses jovens, porque, ao terem as informações, eles podem escolher a prevenção, eles podem escolher pelo caminho mais seguro. O nosso processo de formação profissional é um processo de formação do profissional e do cidadão. Profissionais e cidadãos que vão construir esse mundo. De jovens que vão construir o mundo do futuro. Quanto mais informações eles puderem ter, quanto mais escolhas saudáveis eles puderem fazer, melhor será para toda a sociedade e para cada um deles. Nós temos um carinho muito grande por essa parceria, que já tem alguns anos, e esperamos continuar por muito tempo ainda trazendo informação e um espaço de fala, de escuta e compartilhado com os jovens”, diz Lucila Sciotti, superintendente de Operações do Senac São Paulo, doutora e mestre em Educação.
Números que revelam desafios e avanços
As cidades que recebem o projeto refletem realidades diversas da epidemia no estado.
Em Americana, o número de novos casos de HIV cresceu 7,7% em 2024, com 56 diagnósticos e 32 evoluções para aids.
Em Piracicaba, cerca de 2.243 pessoas vivem com o vírus, fazendo da aids a segunda IST mais comum da cidade.
Sorocaba tem apresentado queda significativa — foram 117 casos de HIV em 2024, menos da metade do que em 2017.
Em Campinas, as políticas de prevenção mostram resultados concretos: queda de 22% nas novas infecções e redução das mortes pela doença de 58 para 35 em um ano.
Já em Santos, que nos anos 1990 foi chamada de “capital da aids”, o desafio ainda é conter o aumento entre adolescentes e jovens, grupo mais vulnerável à desinformação.
Esses dados reforçam a urgência de manter a juventude como foco das políticas públicas e das ações educativas. Segundo o Boletim Epidemiológico, a maior concentração de novos diagnósticos está justamente entre pessoas de 20 a 39 anos — faixa etária em que as conversas sobre prevenção, muitas vezes, não chegam com força suficiente.
Conversar é salvar vidas

O ativista Diego Krausz compartilhando sua trajetória com os jovens durante um dos encontros.
A ação Saúde, Informação e Cidadania reafirma que a educação é uma ferramenta de saúde pública. O diálogo é o antídoto mais eficaz contra o preconceito e a desinformação. Ao se aproximar dos jovens, o projeto ajuda a criar uma geração mais consciente, capaz de falar sobre o HIV sem medo, de reconhecer vulnerabilidades e de agir preventivamente.

A psicóloga e sexóloga Regiane Garcia, que faz parte do projeto, em uma das unidades do Senac
Um dos pontos mais marcantes da iniciativa é a presença de pessoas que vivem com HIV, que participam dos encontros para dividir suas histórias, medos e superações. Suas falas emocionam e ajudam os jovens a compreender que, por trás das estatísticas, existem vidas reais — e que informação e empatia são as chaves para vencer o preconceito. Os debates também contam com a presença de um especialista no tema, que amplia o conhecimento técnico e ajuda a transformar o diálogo em aprendizado e ação.
“Cada conversa é uma semente. É na escuta, no olho no olho, que se constrói uma nova cultura de cuidado e respeito”, afirma Roseli. “Enquanto houver jovens que ainda não sabem o que é PrEP ou acreditam que o HIV é coisa do passado, teremos trabalho a fazer. E esse trabalho começa pela conversa”, conclui Roseli.
Redação da Agência de Notícias da Aids
Serviço
Projeto “Saúde, Informação e Cidadania” – Senac São Paulo e Agência Aids
14 de outubro – Senac Americana
15 de outubro – Senac Piracicaba
16 de outubro – Senac Sorocaba
17 de outubro – Senac Campinas
20 de outubro – Senac Santos
Público-alvo: estudantes das unidades do Senac participantes (evento fechado)




