
Quem vê o sorriso de Monique da Costa, de 39 anos, atrás do balcão do bar que mantém ao lado de casa no Mangueiral, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, não imagina as adversidades enfrentadas nos últimos dois anos. Seu pai morreu após ser diagnosticado com um câncer de laringe, e a filha mais velha dela viveu os sobressaltos de uma gravidez de risco. Todos estavam cadastrados para receberem em casa acompanhamento de profissionais do Centro Municipal de Saúde (CMS) Carlos Alberto Nascimento. Mas há tempos nenhum deles recebia visitas dos agentes comunitários, o que tornou a jornada mais difícil e solitária.
A ausência do serviço pode ser explicada porque a equipe de saúde da família da região precisa dar conta de 6.226 pessoas cadastradas, quando o limite máximo em cidades grandes seria de 4.500 moradores, segundo a portaria 3.493/2024, do Ministério da Saúde, que trata do cofinanciamento federal para a atenção primária. Essa superlotação é a realidade de 30% das 1.327 equipes — formadas por um médico, um enfermeiro, um auxiliar de enfermagem e ao menos quatro agentes comunitários de saúde — que atuam no município do Rio. São 401 delas com uma quantidade de pessoas vinculadas acima do adequado.
Os dados são da Secretaria municipal de Saúde, obtidos por meio de requerimento feito pelo vereador Paulo Messina (PL), em relatório com informações de fevereiro entregue recentemente ao parlamentar. Eles revelam que a equipe Bosque da Barra, ligada à Clínica da Família (CF) José de Souza Herdy, na Barra da Tijuca, chega a ter 19.924 inscritos. Já Bosque Marapendi, Harvey, Novo Lar e Gilka — as quatro relacionadas ao CMS Harvey Ribeiro de Souza Filho, no Recreio — têm entre quase 10 mil e 17 mil cadastrados.
Cobertura desigual
É um flagrante desequilíbrio se comparado com o que ocorre com outras equipes na própria capital fluminense. Na Maracanãzinho, que funciona na CF Maracanã, e na Boa Viagem, da CF Helena Besserman Vianna, em Rio das Pedras, há apenas 46 e 79 inscritos, respectivamente.
— Há equipes com padrões da Índia; outras com padrão da Bélgica — afirma Messina. — Falta gestão.
O secretário municipal de Saúde, Daniel Soranz, reconhece que o ideal é que a cada grupo de profissionais atenda até três mil pessoas. Esse número, por sinal, é fixado na portaria do Ministério da Saúde como o parâmetro para municípios com mais de 100 mil habitantes. No Rio, porém, há 1.182 equipes (89% do total) nas quais o volume de moradores cadastrados o ultrapassam.
Soranz, no entanto, argumenta que a cidade tem aumentado a cobertura do programa e contra-ataca.
— Esse pedido de informações vem do ex-secretário da Casa Civil do Marcelo Crivella (ex-prefeito), responsável por reduzir em 470 as equipes de saúde da família do município. É um pedido político de uma pessoa que é contra o modelo de saúde da família — alfineta. — No final de 2016, tínhamos 70% de cobertura de saúde da família. Com Crivella caímos para 40% e, hoje, estamos com 81%.
Questões políticas à parte, a população sofre. Monique vive no Mangueiral há uma década. Ela conta que sua família recebia acompanhamento regular até 2023. Nesse mesmo período, seu pai, Manoel, então com 55 anos, recebeu o diagnóstico de câncer, doença que avançou rapidamente e que, junto com uma infecção generalizada, o levou à morte em março do ano passado.
— Meu pai precisou usar uma bolsa de traqueostomia, mas não recebemos orientações sobre os cuidados. Num dia, ele começou a passar mal e foi piorando muito. Entramos em desespero, e minha filha Fernanda correu para a clínica para trazer um médico. Foi uma situação horrorosa, que poderia ter sido evitada com o acompanhamento regular — relata Monique.
Risco evitável
Pouco tempo depois, Fernanda enfrentou complicações na gravidez. Sem visitas de agentes durante os nove meses, terminou internada no Hospital Municipal Rocha Faria, em Campo Grande, com uma infecção urinária avançada, diagnosticada somente no fim da gestação. De acordo com os médicos, o problema deveria e poderia ter sido identificado antes, durante o pré-natal, para evitar riscos maiores à mãe e ao bebê.
Também na Zona Oeste, a equipe Guandu do Sena, vinculada ao CMS Henrique Monat, na Vila Kennedy, tem pouco mais de dois mil cadastrados. Mesmo assim, a manicure Lidiane Nascimento, de 30 anos, tem que batalhar por atendimento:
— O dia que vierem na minha casa vai chover. Vivo indo ao posto para ver se tem alguma marcação. Há mais de um ano espero para me consultar com um oftalmologista e fazer óculos. Tenho miopia e astigmatismo. Preciso botar uma lâmpada bem grande na minha frente para enxergar a cutícula das unhas das clientes. Uso óculos de camelô, mas, às vezes, arranco “bife”. Vejo tudo embaçado.
Lidiane espera há um ano e meio que marquem ainda tratamento para seu filho, de 7 anos, que tem transtorno do espectro autista. Enquanto aguarda, por indicação de outra mãe, leva o menino para uma terapia psicopedagoga coletiva num centro comunitário em Padre Miguel.
— É muita dificuldade. Tinha uma vizinha idosa, acamada, de mais de 90 anos, que morreu há dois meses. A nora ia ao posto, mas ninguém aparecia na casa dela — diz.
Já no Recreio dos Bandeirantes, um integrante da associação de moradores do bairro (Amor) afirma que a região, onde hoje moram mais de 300 mil pessoas, conta apenas com uma unidade de saúde municipal: o CMS Harvey Ribeiro de Souza Filho, no qual atuam seis equipes de saúde da família (a última assumiu em junho) e três profissionais do Programa Mais Médicos para demandas espontâneas.
— Uma reforma para ampliação do Harvey foi prometida há muitos anos e não saiu do papel. E uma nova clínica da família, cuja pedra fundamental foi lançada em 2015, num terreno da Avenida das Américas, até hoje não foi construída — diz.
Entre médicos, que pedem para se manter no anonimato, não faltam queixas.
— As equipes lotadas obrigam os profissionais a trabalharem sempre no máximo da sua capacidade, e demandas em saúde que podem ser consideradas menos urgentes, mas não necessariamente sem importância, correm o risco de negligência. Talvez não seja por acaso que os indicadores de saúde da lista do Previne Brasil (programa do Ministério da Saúde) revelem a baixa cobertura do rastreamento de câncer de colo de útero, por exemplo — diz um profissional que trabalha na Zona Norte.
‘Desgaste físico e mental’
Outro médico, que atua na Zona Oeste, ressalta que o número de equipes nas clínicas vem caindo:
— Isso sugere economia de custos para a prefeitura e sobrecarga de trabalho. Tenho colegas com estafa, burnout, desgaste físico e mental.
Presidente do Sindicato dos Médicos, Alexandre Telles conta que a entidade tem pedido, com mediações na Justiça do trabalho, o aumento do número de equipes da saúde da família, devido à sobrecarga que os profissionais enfrentam e que afeta a população:
— A prefeitura tem optado por não apresentar soluções para o aumento de equipes.
Quanto às que atualmente têm elevados números de pessoas vinculadas, o secretário Soranz argumenta que haverá remanejamento à medida que novas equipes de saúde da família forem implantadas. Ele afirma que há novas três clínicas da família em obras — Taquara, Camorim e Nova Sepetiba, cada uma com oito equipes, em média — e três outras em planejamento. Sobre os locais onde há quantidade reduzida de cadastrados, como no Maracanãzinho, ele alega que essas equipes foram implantadas recentemente e ainda serão reestruturadas.



